Wednesday, August 27, 2014

cortes

a rapariga na mesa da frente tem o braço esquerdo cheio de cortes de lâmina, cicatrizes. tirando isso é uma rapariga igual às outras, nova e bonita, fuma um cigarro. está acompanhada por um tipo espadaúdo que já lhe virou as costas e a deixou a falar sozinha. pergunto-me que maus tratos mais aceitas aceitas, miúda. lembro -me também da velha canção.

o primeiro-ministro esteve aqui a almoçar, na esplanada, com a mulher e mais família. no outro dia foi um ex-treinador do futebol clube do porto com uma mulher seca e feia. ontem vimos um ministro a tomar o pequeno-almoço na pastelaria. mas agora, na mesa do lado, um grupo de algarvios, dois deles com fios de ouro, discutem o peixe (pêshh) que tem havido, a seguir discutem a imigração e como em frança é pior do que cá.

o segurança da discoteca esfaqueado por homens de lisboa tinha cerca de quarenta anos e era o ganha-pão da família: mulher, mãe e irmã - e ia ser pai. também era amigo do meu irmão. tinham combinado qualquer coisa porque tinha escrito um livro que ia lançar em breve. no funeral estiveram mil pessoas.

a mulher que serve à mesa chega ao restaurante às oito e meia da manhã e só sai para casa por volta da uma da manhã. não tem folgas. (e os que nunca fizeram nada e se armam em defensores dos pobres, torna-se grotesco.)

a vida continua. Que linda Matilde tens, Amadeu!

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