Tuesday, December 2, 2014

vou contar uma história (storytelling)

e depois deixá-la no ar. a história é uma das contadas em Patasana.
(e, finalmente, às 23h19, sentei-me)

No reino dos hititas, hoje parte da Anatólia, Síria e Líbano, o rei era todo poderoso, o representante dos deuses da terra. O rei vivia no seu opulento palácio rodeado de nobres, conselheiros e outros servidores do estado, com a sua mulher, a rainha, e as concubinas. Um dos mais importantes conselheiros reais era o escriba principal, responsável não só pela biblioteca do palácio mas também por escrever a história heróica do reino, os tratados, missivas diplomáticas e todos os documentos reais. O escriba é o homem mais educado do palácio e esta posição é passada de geração em geração, de pai para filho. Patasana era o herdeiro duma longa linhagem de escribas, mas a sua vida não começou auspiciosamente pois a sua mãe morreu durante o parto e o seu pai culpou-o pela morte da mulher. Patasana cresceu quase sem contacto com o pai que nele via aquele que lhe tinha roubado a sua amada. Órfão de mãe e quase de pai, foi o seu avô que tomou a seu cargo a educação do rapaz. O velho escriba era um poeta e sabia de cor todas as antigas lendas, todos os poemas, todas as épicas desde o início dos tempos. A sua paixão pelas obras escritas, essa foi a herança que recebeu do avô. Quanto Patasana atingiu a maioridade, o avô, já velho, decidiu que não queria morrer na corte e partiu sem avisar para morrer longe e entre estranhos. Nunca mais ninguém soube dele. Desde esse momento, o seu pai assumiu o posto de escriba principal e decidiu então chamar a si a tarefa da educação formal do filho. O pai de Patasana era muito diferente do seu avô: era o perfeito funcionário, perfeccionista e dedicado ao rei, metódico e objectivo e transmitiu ao filho todo o conhecimento prático necessário para exercer as funções de escriba e conselheiro. Com os conhecimentos de ambos, Patasana tinha tudo para vir a ser o melhor dos melhores.
Na capital dos hititas, as prostitutas sagradas abrem as portas do templo aos homens nobres da cidade um dia por ano e o amor que fazem é oferecido à deusa da fertilidade. Patasana, virgem e ansioso por uma mulher, decide entrar no templo nesse dia. De todas as mulheres, o seu olhar vai imediatamente para a jovem Ashmunikal e ambos se retiram para fazer amor. Na sua ansiedade e perante a beleza da rapariga, Patasana não consegue consumar o acto amoroso e retira-se desesperado de amores por Ashmunikal e desejoso de poder vir a provar a sua masculinidade. No dia seguinte volta ao templo com a ideia de pedir a mão da sua amada pois está enamorado e não pode viver sem Ashmunikal. Mas quando chega ao templo o sacerdote máximo, amigo da família, avisa-o: Ashmunikal está fora do seu alcance para sempre pois é, desde essa manhã, a nova concubina do rei. Patasana nunca mais deve mencionar sequer o seu nome nem o seu desejo sob perigo da ira do rei e morte quase certa. O sacerdote diz-lhe ainda que Ashmunikal estava já prometida ao rei, oferecida pelo seu próprio pai, mas que sendo virgem não tinha querido dar ao rei a sua inocência e tinha passado a noite no templo para que não fosse o rei o seu primeiro, mas outro. Essa tinha sido a sua forma de resistência. A revelação agravou a culpa e a tristeza do jovem escriba. Não só não tinha provado a sua masculinidade como tinha falhado à sua amada, não consumando o acto que a levara ao templo.
O tempo passou sem que Patasana conseguisse esquecer Ashmunikal, em quem pensava constantemente, apesar do terror de ser descoberto. Evitava entrar no palácio, evitava olhar para os edifícios onde sabia estar a sua amada. A certa altura, o seu pai foi enviado numa missão a um reino vizinho e Patasana teve de assumir o seu lugar no palácio e passar a ser, temporariamente, o escriba principal. Ter de entrar ao palácio diariamente enchia-o de medo, desejo e ansiedade. Um dia, o rei mandou chamá-lo à sua presença. Aterrorizado, Patasana dirige-se aos aposentos reais. Quando entrou, viu o rei recostado num divã e Ashmunikal sentada a seu lado. O escriba olhou imediatamente para o chão, aflito. O rei diz-lhe então que a sua nova concubina, Ashmunikal, a sua amada, é filha de um professor e foi educada com esmero, conhece os clássicos, a história e muitas lendas. Ele, o rei, não quer que a jovem se aborreça no palácio e que, por isso, atribui a Patasana uma nova função, ele será a partir de então responsável por dar à rapariga todas as histórias que ela deseje ler, deve contar-lhe as histórias e os poemas ele próprio, ser ele o seu contador de histórias. Ashmunikal irá ter com ele, já a partir do dia seguinte, à biblioteca do palácio e todas os seus desejos devem ser satisfeitos...

aqui deixo a história, uma história do tempo das histórias.

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