Sunday, February 15, 2015

palimpsesto

dois a dois, o segundo jogo, o segundo volume. leio o tempo perdido em golos, ou depressa distraída da história e de tudo o resto, ou em atenção total com dobras em todas as páginas para me lembrar de onde estão passagens memoráveis e em substituição dos sublinhados e notas a lápis. trinta anos depois quando volto aos livros antigos, releio as notas e continuam a ser hoje exactamente o que pensaria sobre aquelas passagens, excluindo as hipotéticas relações com outras obras que na altura não existiam ou eu não tinha lido (uma parte da Françoise de Proust, apenas uma parte, são as mulheres de Cardoso Pires). desisti então das notas como desisti da ideia de passar os livros e os guardar para alguém que não seja eu. na idade do excesso de livros, em que ninguém os quer nem as bibliotecas, vai existir também a falta de livros em que já ninguém os tem. sei lá o que digo.
levei a passear uma mulher de alguma idade, como simpatia, por locais do coração. não sei se agradeceu porque só me lembro de ter dito que aquilo eram tudo coisas velhas a precisar de reparação. se me tivesse insultado directamente não teria sido pior.
outros dois: de Proust tenho apenas sete para ler, mas de Pamuk virão aí em tradução mais dois, um longo e outro que o autor termina agora, curto.

(For now, Pamuk is focusing on putting the finishing touches to a new novel which he says will be a surprise for some readers.In typical Pamuk style, it tells the story of a well digger in Istanbul and his apprentice and is “allegorical.”But this time there is a difference.“The whole problem here is that this time I want to write a short novel, and break the heart of my traditional readers who always tell me to write a long one,” he said.") imagino que o número de notícias recentes tenham origem nalguma entrevista que tenha dado na deslocação ao Cairo.

diz ele que Istanbul (prefiro vê-la com n, com m a palavra parece-me gorda) é um palimpsesto da civilização. visto que palimpsesto é: Palimpsesto (do grego antigo παλίμψηστος, transl. "palímpsêstos", "aquilo que se raspa para escrever de novo": πάλιν, "de novo" e ψάω, "arranhar, raspar") designa um pergaminho ou papiro cujo texto foi eliminado para permitir a reutilização. Tal prática foi adotada na Idade Média, sobretudo entre os séculos VII e XII, devido ao elevado custo do pergaminho. A eliminação do texto era feita através de lavagem ou, mais tarde, de raspagem com pedra-pomes. (nunca mais me esqueço da pedra-pomes neste sentido, quando tirar a própria pele vou relembrar que poderia estar a retirar uma estrofe ou um parágrafo), também a cidade é reescrita, partes dela são apagadas, outras afundam em camadas de tempo, aquilo precisamente que me fez desejar ser dali e estar ali para todo o meu sempre. o meu sempre, porém, está naquelas casas velhas a precisar de reparação, os reparadores no lugar da pedra-pomes.




o meu sótão, de onde me esticava para cima das telhas quentes para ver o castelo que dali parecia maior. o privilégio que era ir lá, acrescido pelo secretismo da entrada, dissimulada nos tectos da casa. nas casas velhas de Sintra, os sótãos pertenciam ao passado e às crianças.

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