light gazing, ışığa bakmak

Thursday, April 30, 2009

não há desculpa, já

para não ler Marcel Proust.



"Mais j’avais revu tantôt l’une, tantôt l’autre, des chambres que j’avais habitées dans ma vie, et je finissais par me les rappeler toutes dans les longues rêveries qui suivaient mon réveil;"

"ma chambre à coucher redevenait le point fixe et douloureux de mes préoccupations. On avait bien inventé, pour me distraire les soirs où on me trouvait l’air trop malheureux, de me donner une lanterne magique, dont, en attendant l’heure du dîner, on coiffait ma lampe ; et, à l’instar des premiers architectes et maîtres verriers de l’âge gothique, elle substituait à l’opacité des murs d’impalpables irisations, de surnaturelles apparitions multicolores, où des légendes étaient dépeintes comme dans un vitrail vacillant et momentané. Mais ma tristesse n’en était qu’accrue, parce que rien que le changement d’éclairage détruisait l’habitude que j’avais de ma chambre et grâce à quoi, sauf le supplice du coucher, elle m’était devenue supportable. Maintenant je ne la reconnaissais plus et j’y étais inquiet, comme dans une chambre d’hôtel ou de « chalet », où je fusse arrivé pour la première fois en descendant de chemin de fer."


e os hábitos de leitura:
"O grupo dos países onde os cidadãos assumem não terem lido um único livro nos últimos 12 meses é encabeçado por Portugal com 67%. Seguem-se a Grécia com 54% e a Espanha com 53%." (daqui)

e engraçados são os hábitos de leitura alheios: "Quando entro em uma livraria, costumo ficar muito tempo lá, mesmo que em pé, sem café e com olhares tortos dos atendentes que sabem que não costumo comprar nada", estes os do André. estou com ele. este, também partilhado, "Se eu não gosto do livro nos primeiros capítulos, deixo-o de lado sem culpa", é do Alexandre. também dou e doo livros com frequência e também leio em qualquer lado, mesmo com muito barulho. nunca tinha pensado nisto, que faz a Sônia, "Alguns amigos me estranham, pois amo tanto meus livros que sou capaz de arrancar uma página que eu considero especial e dar para alguém que eu acho que não leu, para que esta pessoa descubra que precisa ler aquela obra de qualquer maneira...", uma excelente ideia na teoria mas que me seria fisicamente dolorosa na prática. odeio best-sellers, troco os livros de papel por qualquer outro meio, se estou chateada vou para a fnac (e se não estou também). leio vários ao mesmo tempo. leio partes de vários. muitos que comprei nunca li. não gosto que me dêem livros. as introduções, se leio, raramente, leio no fim.

"ma grand’mère qui trouvait que « c’est une pitié de rester enfermé à la campagne » et qui avait d’incessantes discussions avec mon père, les jours de trop grande pluie, parce qu’il m’envoyait lire dans ma chambre au lieu de rester dehors. « Ce n’est pas comme cela que vous le rendrez robuste et énergique, disait-elle tristement, surtout ce petit qui a tant besoin de prendre des forces et de la volonté. » Mon père haussait les épaules"...

Marcel Proust, À la recherche du temps perdu, Du cotê de chez Swann (.pdf)

caminhadas urbanas


no 17 da 5 de Outubro há um homem, dos que têm o apelido comum segurança, que faz réplicas de casas com paus de fósforo. dois chalets de madeira completos, o terceiro em progresso, um frasco de cola e um marlboro. também desse número se vê uma foto perfeita, riscada, que não tem nada da a ver com esta. há coisas boas em todo o lado . 1.3 km

drawings by Martin Kippenberger


Balla Balla (1994)

Untitled (Richard Lindner) (1991)

Untitled (Jasper Johns) (1991)

Untitled (Robert Indiana) (1991)
Martin Kippenberger


em NY até ao final de Maio.

Wednesday, April 29, 2009

"the boy is even more enigmatic than his poetry", diz Bloom

Ophélie

A. Rimbaud


Sur l'onde calme et noire où dorment les étoiles
La blanche Ophélia flotte comme un grand lys,
Flotte très lentement, couchée en ses longs voiles...
-- On entend dans les bois lointains des hallalis.

Voici plus de mille ans que la triste Ophélie
Passe, fantôme blanc, sur le long fleuve noir;
Voici plus de mille ans que sa douce folie
Murmure sa romance à la brise du soir.

Le vent baise ses seins et déploie en corolle
Ses grands voiles bercés mollement par les eaux;
Les saules frissonnants pleurent sur son épaule,
Sur son grand front rêveur s'inclinent les roseaux.

Les nénuphars froissés soupirent autour d'elle;
Elle éveille parfois, dans un aune qui dort,
Quelque nid, d'où s'échappe un petit frisson d'aile:
-- Un chant mystérieux tombe des astres d'or.

ô pale Ophélia! belle comme la neige!
Oui tu mourus, enfant, par un fleuve emporté!
-- C'est que les vents tombant des grands monts de Norvège
T'avaient parlé tout bas de l'âpre liberté;

C'est qu'un souffle, tordant ta grande chevelure,
A ton esprit rêveur portait d'étranges bruits;
Que ton coeur écoutait le chant de la nature
Dans les plaintes de l'arbre et les soupirs des nuits;

C'est que la voix des mers folles, immense râle,
Brisait ton sein d'enfant, trop humain et trop doux;
C'est qu'un matin d'avril, un beau cavalier pâle,
Un pauvre fou, s'assit muet à tes genoux!

Ciel! Amour! Liberté! Quel rêve, ô pauvre folle!
Tu te fondais à lui comme une neige au feu:
Tes grandes visions étranglaient ta parole
-- Et l'infini terrible effara ton oeil bleu !

-- Et le poète dit qu'aux rayons des étoiles
Tu viens chercher, la nuit, les fleurs que tu cueillis,
Et qu'il a vu sur l'eau, couchée en ses longs voiles,
La blanche Ophélia flotter, comme un grand lys.

::....
aqui, com som.

twitter glory

From Alex. Pope to H. Cromwell.

――――――――――――

March 18th 1708.

I have nothing to say to you in this letter but I am resolved to write and tell you so.
Why should not I content myself with so many great examples of deep divines, profound casuists, grave philosophers, who have written ― not letters only ― but whole tomes and voluminous treatises about Nothing?
Why should a fellow like me, who all his life does nothing, be ashamed of writing nothing? and that to one who has nothing to do but to read it?
But perhaps you’ll say the whole world has something to do, something to talk of, something to wish for, something to be employed about: ― Now pray, Sir, cast up the amount, put all things together, and what is the sum total but just nothing? ―
I have no more to say, but to desire you to give my service (and that is nothing) to your friends, and to believe I am nothing more than yours
“Ex nihilo nil fit”

(from here, what a site)

Monotony
C.P. Cavafy

The one dull day another
as dull will follow. The same
things will occur and occur yet again,
The very same moments come to us and leave us.

Every month passes and brings another month
Coming events can easily be foretold;
they are the same as yesterday’s dull ones.
And to-morrow will almost seem not to be to-morrow.

a ver

a estrutura triangular do desejo, de René Girard. assim de outros somos feitos, a necessitar de legitimação.

Tuesday, April 28, 2009

Singularidades de uma Rapariga Loura, Eça de Queirós (os cães e a literatura, finalmente entendi)

os cães: note to self. o conto de Eça, e ainda não o filme que falta ver, é mais uma secção no capítulo privado do clearing the mind. e por falar de senhores, como diria o ilustre livreiro. para o serão anti-televisivo.



Singularidades de uma raparariga loura
Eça de Queirós

I

Começou por me dizer que o seu caso era simples — e que se chamava Macário...

Devo contar que conheci este homem numa estalagem do Minho. Era alto e grosso: tinha uma calva larga, luzidia e lisa, com repas brancas que se lhe eriçavam em redor: e os seus olhos pretos, com a pele em roda engelhada e amarelada, e olheiras papudas, tinham uma singular clareza e rectidão — por trás dos seus óculos redondos com aros de tartaruga. Tinha a barba rapada, o queixo saliente e resoluto. Trazia uma gravata de cetim negro apertada por trás com uma fivela; um casaco comprido cor de pinhão, com as mangas estreitas e justas e canhões de veludilho. E pela longa abertura do seu colete de seda, onde reluzia um grilhão antigo — saíam as pregas moles de uma camisa bordada.

Era isto em Setembro; já as noites vinham mais cedo com uma friagem fina e seca e uma escuridão aparatosa. Eu tinha descido da diligência, fatigado, esfomeado, tiritando num cobrejão de listras escarlates.

Vinha de atravessar a serra e os seus aspectos pardos e desertos. Eram oito horas da noite. Os céus estavam pesados e sujos. E, ou fosse um certo adormecimento cerebral produzido pelo rolar monótono da diligência, ou fosse a debilidade nervosa da fadiga, ou a influência da paisagem escarpada e chata, sobre côncavo silêncio nocturno, ou a opressão da electricidade que enchia as alturas, o facto é que eu — que sou naturalmente positivo e realista — tinha vindo tiranizado pela imaginação e pelas quimeras. Existe no fundo de cada um de nós, é certo — tão friamente educados que sejamos — um resto de misticismo; e basta às vezes uma paisagem soturna, o velho muro de um cemitério, um ermo ascético, as emolientes brancuras de um luar — para que esse fundo místico suba, se alargue como um nevoeiro, encha a alma, a sensação e a ideia, e fique assim o mais matemático, ou o mais crítico, tão triste, tão visionário, tão idealista — como um velho monge poeta. A mim, o que me lançara na quimera e no sonho fora o aspecto do Mosteiro de Rostelo, que eu tinha visto, na claridade suave e outonal da tarde, na sua doce colina. Então, enquanto anoitecia, a diligência rolava continuamente ao trote esgalgado dos seus magros cavalos brancos, e o cocheiro, com o capuz do gabão enterrado na cabeça, ruminava no seu cachimbo — eu pus-me elegiacamente, ridiculamente, a considerar a esterilidade da vida: e desejava ser um monge, estar num convento, tranquilo, entre arvoredos, ou na murmurosa concavidade de um vale, e enquanto a água da cerca canta sonoramente nas bacias de pedra, ler a «Imitação», e, ouvindo os rouxinóis nos loureirais, ter saudades do Céu. — Não se pode ser mais estúpido. Mas eu estava assim, e atributo a esta disposição visionária a falta de espírito — a sensação — que me fez a história daquele homem dos canhões de veludinho.

A minha curiosidade começou à ceia, quando eu desfazia o peito de uma galinha afogado em arroz branco, com fatias escarlates de paio — e a criada, uma gorda e cheia de sardas, fazia espumar o vinho verde no copo, fazendo-o cair de alto de uma caneca vidrada: o homem estava de fronte de mim, comendo tranquilamente a sua geleia: perguntei-lhe, com a boca cheia, o meu guardanapo de linho de Guimarães suspenso nos dedos — se ele era de Vila Real.

— Vivo lá. Há muitos anos — disse-me ele.

— Terra de mulheres bonitas, segundo me consta — disse eu.

O homem calou-se.

— Hem? — tornei.

O homem contraiu-se num silêncio saliente. Até aí estivera alegre, rindo dilatadamente; loquaz e cheio de bonomia. Mas então imobilizou o seu sorriso fino.

Compreendi que tinha tocado a carne viva de uma lembrança. Havia de certo no destino daquele velho uma «mulher». Aí estava o seu melodrama ou a sua farsa, porque inconscientemente estabeleci-me na ideia de que o «facto», o «caso» daquele homem, devera ser grotesco, e exalar escárnio.

De sorte que lhe disse:

— A mim têm-me afirmado que as mulheres de Vila Real são as mais bonitas do Minho. Para olhos pretos Guimarães, para corpos Santo Aleixo, para tranças os Arcos: é lá que se vêem os cabelos claros cor de trigo.

O homem estava calado, comendo, com os olhos baixos.

— Para cinturas finas Viana, para boas peles Amarante — e para isto tudo Vila Real. Eu tenho um amigo que veio casar a Vila Real. Talvez conheça. O Peixoto, um alto, de barba loura, bacharel.

— O Peixoto, sim — disse-me ele, olhando gravemente para mim.

— Veio casar a Vila Real como antigamente se ia casar à Andaluzia — questão de arranjar a fina-flor da perfeição.

— À sua saúde.

Eu evidentemente constrangia-o, porque se ergueu, foi à janela com um passo pesado, e eu reparei então nos seus grossos sapatos de casimira com sola forte e atilhos de couro. E saiu.

Quando eu pedi o meu castiçal, a criada trouxe-me um candeeiro de latão lustroso e antigo e disse;

— O senhor está com outro. E no nº3.

Nas estalagens do Minho, às vezes, cada quarto é um dormitório impertinente.

— Vá — disse eu.

O nº 3 era no fundo do corredor. Às portas dos lados os passageiros tinham posto o seu calçado para engraxar: estavam umas grossas botas de montar, enlameadas, com esporas de correia; os sapatos brancos de um caçador, botas de proprietário, de altos canos vermelhos; as botas de um padre, altas, com a sua borla de retrós; os botins cambados de bezerro, de um estudante; e a uma das portas, o nº15, havia umas botinas de mulher, de duraque, pequeninas e finas, e ao lado as pequeninas botas de uma criança, todas coçadas e batidas, e os seus canos de pelica-mor caíam-lhe para os lados com os atacadores desatados. Todos dormiam. Defronte do nº3 estavam os sapatos de casimira com atilhos: e quando abri a porta vi o homem dos canhões de veludilho, que amarrava na cabeça um lenço de seda: estava com uma jaqueta curta de ramagens, uma meia de lã, grossa e alta, e os pés metidos nuns chinelos de ourelo.

— O senhor não repare — disse ele.

— À vontade. — E para estabelecer intimidade tirei o casaco.

Não direi os motivos por que ele daí a pouco, já deitado, me disse a sua história. Há um provérbio eslavo da Galícia que diz: «O que não contas à tua mulher, o que não contas ao teu amigo, conta-lo a um estranho, na estalagem.» Mas ele teve raivas inesperadas e dominantes para a sua larga e sentida confidência. Foi a respeito do meu amigo, do Peixoto, que fora casar a Vila Real. Vi-o chorar, àquele velho de quase sessenta anos. Talvez a história seja julgada trivial: a mim, que nessa noite estava nervoso e sensível, pareceu-me terrível — mas conto-a apenas como um acidente singular da vida amorosa...

Começou pois por me dizer que o seu caso era simples e que se chamava Macário.
Perguntei-lhe então se era de uma família que eu conhecera, que tinha o apelido de «Macário». E como ele me respondeu que era primo desses, eu tive logo do seu carácter uma ideia simpática, porque os Macários eram uma antiga família, quase uma dinastia de comerciantes, que mantinham com uma severidade religiosa a sua velha tradição de honra e de escrúpulo. Macário disse-me que nesse tempo, em 1823 ou 33, na sua mocidade, seu tio Francisco tinha, em Lisboa, um armazém de panos, e ele era um dos caixeiros. Depois o tio compenetrara-se de certos instintos inteligentes e do talento prático e aritmético de Macário, e deu-lhe a escrituração. Macário tornou-se o seu «guarda-livros».

Disse-me ele que sendo naturalmente linfático e mesmo tímido, a sua vida tinha nesse tempo uma grande concentração. Um trabalho escrupuloso e fiel, algumas raras merendas no campo, um apuro saliente de fato e de roupas brancas, era todo o interesse da sua vida. A existência, nesse tempo, era caseira e apertada. Uma grande simplicidade social aclarava os costumes: os espíritos eram mais ingénuos, os sentimentos menos complicados.

Jantar alegremente numa horta, debaixo das parreiras, vendo correr a água das regas — chorar com os melodramas que rugiam entre os bastidores do Salitre, alumiados a cera, eram contentamentos que bastavam à burguesia cautelosa. Além disso, as tempos eram confusos e revolucionários: e nada torna o homem recolhido, conchegado à lareira, simples e facilmentefeliz — como a guerra. E a paz que, dando os vagares da imaginação, causa as impaciências do desejo.

Macário, aos vinte e dois anos, ainda não tinha — como lhe dizia uma velha tia, que fora querida do desembargador Curvo Semedo, da Arcádia — «sentido Vénus».

Mas por esse tempo veio morar para defronte do armazém dos Macários, para um terceiro andar, uma mulher de quarenta anos, vestida de luto, uma pele branca e baça, o busto bem feito e redondo e um aspecto desejável. Macário tinha a sua carteira no primeiro andar por cima do armazém, ao pé de uma varanda, e dali viu uma manhã aquela mulher com o cabelo preto solto e anelado, um chambre branco e braços nus, chegar-se a uma pequena janela de peitoril, a sacudir um vestido. Macário afirmou-se, e, sem mais intenção, dizia mentalmente aquela mulher, aos vinte anos, devia ter sido uma pessoa cativante e cheia de domínio: por que os seus cabelos violentos e ásperos, o sobrolho espesso, o lábio forte, perfil aquilino e firme, revelam um temperamento activo e imaginações apaixonadas. No entanto, continuou serenamente alinhando as suas cifras. Mas à noite estava sentado fumando à janela do seu quarto, que abria sobre o pátio: era em Julho e a atmosfera estava eléctrica e amorosa: a rabeca de um vizinho gemia uma xácara mourisca, que então sensibilizava, e era de um melodrama; o quarto estava numa penumbra doce e cheia de mistério — Macário, que estava em chinelas, começou a lembrar-se daqueles cabelos negros e fortes e daqueles braços que tinham a cor dos mármores pálidos: espreguiçou-se, rolou morbidamente a cabeça pelas costas da cadeira de vime, como os gatos sensíveis que se esfregam, e decidiu bocejando que a sua vida era monótona. E ao outro dia, ainda impressionado, sentou-se à sua carteira com a janela toda aberta, e olhando o prédio fronteiro, onde viviam aqueles cabelos grandes — começou a aparar vagarosamente a sua pena de rama. Mas ninguém se chegou à janela do peitoril, com caixilhos verdes. Macário estava enfastiado. pesado — e o trabalho foi lento. Pareceu-lhe que havia na rua um sol alegre, e que nos campos as sombras deviam ser mimosas e que se estaria bem vendo o palpitar das borboletas brancas nas madressilvas! E quando fechou a carteira sentiu defronte correr-se a vidraça; eram de certo os cabelos pretos. Mas apareceram uns cabelos louros. Oh! E Macário veio logo salientemente para a varanda aparar um lápis. Era uma rapariga de vinte anos, talvez — fina, fresca, loura como uma vinheta inglesa: a brancura da pele tinha alguma coisa de transparência das velhas porcelanas, e havia no seu perfil uma linha pura, como de uma medalha antiga e os velhos poetas pitorescos ter-lhe-iam chamado — pomba, arminho, neve e ouro.

Macário disse consigo:

— É filha.

A outra vestia de luto, mas esta, a loura tinha um vestido de cassa com pintas azuis, um lenço de cambraia trespassado sobre o peito, as mangas pendidas com rendas, e tudo aquilo era asseado, moço, fresco, flexível e tenro.

Macário, nesse tempo, era louro, com barba curta. O cabelo era anelado e a sua figura devia ter aquele ar seco e nervoso que depois do século XVIII e da revolução foi tão vulgar nas raças plebeias.

A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, mas naturalmente desceu a vidraça correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e elas têm na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e espera — são velhas maneiras com que na realidade e na arte começa o romance. A cortina ergueu-se devagarinho e o rosto louro espreitou.

Macário não me contou por pulsações — a história minuciosa do seu coração. Disse singelamente que daí a cinco dias — «estava louco por ela». O seu trabalho tornou-se logo vagaroso e infiel e o seu belo cursivo inglês, firme e largo, ganhou curvas, ganchos, rabiscos, onde estava todo o romance impaciente dos seus nervos. Não a podia ver pela manhã: o sol mordente de Julho batia e escaldava a pequena janela de peitoril. Só pela tarde, a cortina se franzia, se corria a vidraça, e ela, estendendo uma almofadinha no rebordo do peitoril, vinha encostar-se mimosa e fresca com o seu leque. Leque que preocupou Macário: era uma ventarola chinesa, redonda, de seda branca com dragões escarlates bordados à pena, uma cercadura de plumagem azul, fina e trémula como uma penugem, e o seu cabo de marfim, donde pendiam duas borlas de fio de ouro, tinha incrustações de nácar à linda maneira persa.

Era um leque magnífico e naquele tempo inesperado nas mãos plebeias de uma rapariga vestida de cassa. Mas como ela era loura e a mãe tão meridional, Macário, com intuição interpretativa dos namorados, disse à sua curiosidade: «Será filha de um inglês». O inglês vai à China, á Pérsia, a Ormuz, à Austrália e vem cheio daquelas jóias dos luxos exóticos, e nem Macário sabia por que é que aquela ventarola de mandarina o preocupava assim: mas segundo ele me disse — «aquilo deu-lhe no goto».

Tinha-se passado uma semana, quando um dia Macário viu, da sua carteira, que ela, a loura, saía com a mãe, porque se acostumara a considerar mãe dela aquela magnífica pessoa, magnificamente pálida e vestida de luto.

Macário veio à janela e viu-as atravessar a rua e a entrarem no armazém! Desceu logo trémulo, sôfrego, apaixonado e com palpitações. Estavam elas já encostadas ao balcão e um caixeiro desdobrava-lhes defronte casimiras pretas. Isto comoveu Macário. Ele mesmo mo disse.

— Porque enfim, meu caro, não era natural que elas viessem comprar, para si, casimiras pretas.

E não: elas não usavam «amazonas», não queriam decerto estofar cadeiras com casimiras pretas, não havia homens em casa delas; portanto aquela vinda ao armazém era um meio delicado de o ver de perto, de lhe falar, e tinha o encanto penetrante de uma mentira sentimental. Eu disse a Macário que, sendo assim, ele deveria de estranhar aquele movimento amoroso, porque denotava na mãe uma cumplicidade equívoca. Ele confessou-se «que nem pensava em tal». O que fez foi chegar ao balcão e dizer estupidamente:

— Sim, senhor, vão bem servidas, estas casimiras não encolhem.

E a loura ergueu para ele o seu olhar azul e foi como se Macário se sentisse envolvido na doçura de um céu.

Mas quando ele ia a dizer-lhe uma palavra reveladora e veemente, apareceu ao fundo do armazém o tio Francisco, com o seu comprido casaco de pinhão, de botões amarelos. Como era singular e desusado achar-se o senhor guarda-livros vendendo ao balcão e o tio Francisco, com a sua crítica estreita e celibatária, escandalizar-se, Macário começou a subir vagarosamente a escada de caracol que levava ao escritório, e ainda ouviu a voz delicada da loura dizer brandamente:

— Agora queria ver lenços da Índia.

E o caixeiro foi buscar um pequenino pacote daqueles lenços, acamados e apertados numa tira de papel dourado.

Macário, tinha visto naquela visita uma revelação de amor, quase uma «declaração», esteve todo o dia entregue às impaciências amargas da paixão. Andava distraído abstracto, pueril, não deu atenção à escrituração, jantou calado, sem escutar o tio Francisco que exaltava as almôndegas, mal reparou no seu ordenado que lhe foi pago em pintos ás três horas e não entendeu bem a recomendações do tio e a preocupação dos caixeiros sobre o desaparecimento de um pacote de lenços da Índia.

— É o costume de deixar entrar pobres no armazém — tinha dito no seu laconismo majestoso o tio Francisco. — São doze mil réis de lenços. Lance à minha conta.

Macário, no entanto, ruminava secretamente uma carta, mas sucedeu que ao outro dia, estando ele á varanda, a mãe, a de cabelos pretos, veio encostar-se ao peitoril da janela, e neste momento passava na rua um amigo de Macário, que, vendo aquela senhora, afirmou-se e tirou-lhe, como uma cortesia toda risonha, o seu chapéu de palha. Macário ficou radioso: logo nessa noite procurou o seu amigo, e abruptamente, sem meia-tinta:

— Quem é aquela mulher que tu hoje cumprimentaste defronte do armazém?

— É a Vilaça. Bela mulher.

— É a filha?

— A filha?

— Sim, uma loura, clara, com um leque chinês.

— Ah! sim. É filha.

— É o que eu dizia...

— Sim e então?

— É bonita.

— É bonita.

— É gente de bem, hem?

— Sim gente de bem.

— Está bom! Tu conhece-las muito?

— Conheço-as. Muito não. Encontrava-as dantes em casa de D. Cláudia.

— Bem, ouve lá.

E Macário, contando a história do seu coração acordado e exigente e falando do amor com as exaltações de então, pediu-lhe como a glória da sua vida «que achasse um meio de o encaixar lá». Não era difícil. As Vilaças costumavam ir aos sábados a casa de um tabelião muito rico na Rua dos Calafates: eram assembleias simples e pacatas, onde se cantavam motetes ao cravo, se glosavam motes e havia jogos de prendas do tempo da senhora D. Maria I, e às nove horas a criada servia a orchata. Bem. Logo no primeiro sábado Macário, de casaca azul, calças de ganga com presilhas de trama de metal, gravata de cetim roxo, curvava-se diante da esposa do tabelião, Sr.ª D. Maria da Graça, pessoa seca e aguçada, com um vestido bordado a matiz, um nariz adunco, uma enorme luneta de tartaruga, a pluma de marabout nos seus cabelos grisalhos. A um canto da sala já lá estava, entre um frufru de vestidos enormes, a menina Vilaça, a loura, vestida de branco, simples, fresca, com o seu ar de gravura colorida. A mãe Vilaça, a soberba mulher pálida, cochichava com um desembargador de figura apopléctica. O tabelião era homem letrado, latinista, e amigo da musas; escrevia num jornal de então, a «Alcofa das Damas»: porque era sobretudo galante, e ele mesmo se intitulava, numa ode pitoresca, «moço escudeiro de Vénus». Assim, as suas reuniões eram ocupadas pelas belas-artes — e, numa noite, um poeta do tempo devia vir ler um poemeto intitulado «Elmira ou a Vingança do Venesiano»!... Começavam então a aparecer as primeiras audácias românticas... As revoluções da Grécia principiavam a atrair os espíritos romanescos e saídos da mitologia para os países maravilhosos do oriente. Por toda a parte se falava no paxá de Janina. E a poesia apossava-se vorazmente deste mundo novo e virginal de minaretes, serralhos, sultanas cor de âmbar, piratas do Arquipélago, e salas rendilhadas, cheias do perfume do aloés onde paxás decrépitos acariciam leões. De sorte que a curiosidade era grande — e quando o poeta apareceu com os cabelos compridos, o nariz adunco e fatal, o pescoço entalado na alta gola do seu fraque à Restauração e um canudo de lata na mão — o Sr. Macário é que não teve sensação alguma, porque lá estava todo absorvido, falando com a menina Vilaça. E dizia-lhe meigamente:

— Então, noutro dia, gostou das casimiras?

— Muito — disse ela baixo.

E, desde esse momento, envolveu-os um destino nupcial.

No entanto, na larga sala, a noite passava-se espiritualmente. Macário não pôde dar todos os pormenores históricos e característicos daquela assembleia. Lembrava-se apenas que um corregedor de Leiria recitava o «Madrigal a Lídia»: lia-o de pé, com uma luneta redonda aplicada sobre o papel, a perna direita lançada para diante, a mão na abertura do colete branco de gola alta, e em redor, formando círculo, as damas, com vestidos de ramagens, cobertas de plumas, as mangas estreitas, terminadas num fofo de rendas, mitenes de retrós cheias da cintilação dos anéis, tinham sorrisos ternos, cochichos, doces murmurações, risinhos, e um brando palpitar de leques recamados de lantejoulas. «Muito bonito», diziam, «muito bonito!» E o corregedor, desviando a luneta, cumprimentava sorrindo — e via-se-lhe um dente podre.

Depois, a preciosa D. Jerónima da Piedade e Sande, sentando-se com maneiras comovidas ao cravo, cantou a sua voz roufenha a antiga ária de Sully:

Oh Ricardo, oh meu rei, O mundo te abandona.

O que obrigou o terrível Gaudêncio, democrata de 20 e admirador de Robespierre, a rosnar rancorosamente junto de Macário:

— Reis-víboras!...

Depois o cónego Saavedra cantou uma modinha de Pernambuco muito usada no tempo do senhor D. João VI: « Lindas moças, lindas moças.» E a noite ia assim correndo, literária, pachorrenta erudita, requintada e toda cheia de musas. Oito dias depois, Macário era recebido em casa da Vilaça, num domingo. A mãe convidara-o dizendo-lhe:

— Espero que o vizinho honre esta choupana.

E até o desembargador apoplético, que estava ao lado, exclamou:

— Choupana! Diga alcáçar! Formosa dama!

Estavam, nesta noite, o amigo do chapéu de palha, um velho cavaleiro de Malta, trôpego, estúpido e surdo, um beneficiado da Sé, ilustre pela sua voz tiple, e as manas Hilárias, a mais velha das quais, tendo assistido, como aia de uma senhora da Casa da Mina, à tourada de Salva — terra, em que morreu o conde dos Arcos, nunca deixara de narrar os episódios pitorescos daquela tarde: a figura do conde dos Arcos de cara rapada e uma fita de cetim escarlate no rabicho; o soneto que um magro poeta, parasita da Casa de Vimioso, recitou quando o conde entrou, fazendo ladear o seu cavalo negro, arreado à espanhola, com um xairel onde as suas armas estavam lavradas em prata; o tombo que nesse momento um frade de S. Francisco deu na trincheira alta, e a hilariedade da corte, que até a senhora condessa de Povolide apertava as mãos nas ilhargas; depois el-rei, o senhor D. José I, vestido de veludo escarlate, recamado de ouro, todo encostado ao rebordo do seu palanque, fazendo girar entre os dedos a sua caixa de rapé cravejada, e atrás, imóveis, o físico Lourenço e o frade seu confessor; depois o rico aspecto da praça cheia de gente de Salvaterra, maiorais, mendigos dos arredores, frades, lacaios, e o grito que houve quando D. José I entrou: — Viva el-rei, nosso senhor! — E o povo ajoelhou, e el-rei tinha-se sentado, comendo doces, que um criado trouxe num saco de veludo atrás dele. Depois a morte do conde dos Arcos, os desmaios, e até el-rei todo debruçado, batendo com a mão no parapeito, gritava na confusão, e o capelão da Casa dos Arcos que tinha corrido a buscar a extrema-unção. Ela, Hilária ficara atarracada de pavor: sentia os urros dos bois, os gritos agudos das mulheres, os ganidos dos flatos, e vira então um velho, todo vestido de veludo preto, com a fina espada na mão,... debater-se entre fidalgos e damas que o seguravam, e querer atirar-se à praça, bradando cheio de raiva! «É o pai do conde.» Ela então desmaia nos braços de um padre da Congregação. Quando veio a si, achou-se junto da praça; a berlinda real está à porta com os boleeiros emplumados, os machos cheios de guizos, e os batedores com pampilhos: el-rei já estava dentro, escondido no fundo, pálido, sorvendo febrilmente rapé, todo encolhido com o confessor; e defronte, com uma das mãos apoiadas à alta bengala, forte, espadaúdo, com o aspecto carregado o Marquês de Pombal falando devagar e intimativamente, e gesticulando com a luneta: mas os batedores picaram, os estalos dos postilhões retiniram, e a berlinda partiu a galope, enquanto o povo gritava: — Viva el-rei, nosso senhor! — e o sino da porta da capela do paço tocava a finados! Era uma honra que el-rei concedia à Casa dos Arcos.

Quando D. Hilária acabou de contar, suspirando, estas desgraças passadas, começou-se a jogar. Era singular que Macário não se lembrava o que tinha jogado nessa noite radiosa. Só se recordava que ele tinha ficado ao lado da menina Vilaça, que se chamava Luísa, que reparara muito na sua fina pele rosada, tocada de luz, e na meiga e amorosa pequenez da sua mão, com uma unha mais polida que o marfim de Diepa. E lembrava-se também de um acidente excêntrico, que determinara nele, desde esse dia, uma grande hostilidade ao clero da Sé. Macário estava sentado à mesa, e ao pé dele Luísa: Luísa estava toda voltada para ele, com uma das mãos apoiando a sua fina cabeça loura e amorosa, e a outra esquecida no regaço. Defronte estava o beneficiado, com o seu barrete preto, os seus óculos na ponta aguda do nariz, o tom azulado da forte barba rapada, e as suas duas grandes orelhas, complicadas e cheias de cabelo, separadas do crânio como dois postigos abertos. Ora como era necessário no fim do jogo pagar uns tentos ao cavaleiro de Malta, que estava ao lado do beneficiado, Macário tirou da algibeira uma peça, e quando o cavaleiro, todo curvado e com um olho pisco, fazia a soma dos tentos nas costas de um ás, Macário conversava com Luísa, e fazia girar sobre o pano verde a sua peça de ouro, com um bilro ou um pião. Era uma peça nova que luzia, faiscava, rodando e fazia à vista como uma bola de névoa dourada. Luísa sorria vendo-a girar, girar, e parecia a Macário que todo o céu, a pureza, a bondade das flores e a castidade das estrelas estavam naquele claro sorriso distraído, espiritual, arcangélico, com que ela, gira, gira, seguia o giro da peça de ouro nova. Mas, de repente, a peça, correndo até à borda da mesa, caiu para o lado do regaço de Luísa, e desapareceu, sem se ouvir no soalho de tábuas o seu ruído metálico. O beneficiado abaixou-se logo cortesmente: Macário afastou a cadeira, olhando para debaixo da mesa: a mãe Vilaça alumiou com um castiçal, e Luísa ergueu-se e sacudiu com pequenina pancada o seu vestido de cassa. A peça não apareceu.

— É célebre — disse o amigo de chapéu de palha. — Eu não ouvi tinir no chão.

— Nem eu, nem eu — disseram.

O beneficiado, curvado como um F, buscava tenazmente, e Hilária mais nova rosnava o responso de Santo António.

— Pois a casa não tem buracos — dizia a mãe Vilaça.

No entanto Macário exalava-se em exclamações desinteressadas:

— Pelo amor de Deus! Ora que tem! amanhã aparecerá! Tenham a bondade! Por quem são! Então Sr. ª D. Luísa! pelo amor de Deus! Não vale nada.

Mas mentalmente estabeleceu que houvera uma subtracção — e atribui-a ao beneficiado. A peça rolara, decerto, até junto dele, sem ruído, ele pusera-lhe em cima o seu vasto sapato eclesiástico e tachado, depois, no movimento brusco e curto que tivera, empolgara-a vilmente. E quando saíram, o beneficiado, todo embrulhado no seu vasto capote de camelão, dizia a Macário pela escada:

— Ora o sumiço da peça, hem? Que brincadeira!

— Acha, senhor beneficiado? — disse Macário parando, absorto de impudência.

— Ora essa! Se acho! Se lhe parece! Uma peça de sete mil réis! Só se o Senhor as semeia! Safa! eu dava em doudo!

Macário teve tédio daquela astúcia fria. Não lhe respondeu. O beneficiado é que acrescentou:

— Amanhã mande lá pela manhã, homem. Que diabo... Deus me perdoe! Que diabo! Uma peça não se perde assim. Que bolada, hem!

E Macário tinha vontade de lhe bater.

Foi neste ponto que Macário me disse, com a voz singularmente sentida:

— Enfim, meu amigo, para encurtarmos razões resolvi-me casar com ela.

— Mas a peça?

— Não pensei mais nisso! Pensava eu lá na peça! resolvi-me casar com ela!

II

Macário contou-me o que o determinara mais precisamente àquela resolução profunda e perpétua. Foi um beijo. Mas esse caso, casto e simples, eu colo-o — mesmo porque a única testemunha foi uma imagem em gravura da Virgem, que estava pendurada no seu caixilho de pau-preto, na saleta escura que abria para a escada... Um beijo fugitivo, superficial, efémero. Mas isso bastou ao espírito recto e severo para o obrigar a tomá-la como esposa, a dar-lhe uma fé imutável e a posse da sua vida. Tais foram os seus esponsais. Aquela simpática sombra de janelas vizinhas tornara-se para ele um destino, o fim moral da sua vida e toda a ideia dominante do seu trabalho. E esta história toma, desde logo, um alto carácter de santidade e de tristeza.

Macário falou-me muito do carácter e da figura do tio Francisco; a sua possante estatura, os seus óculos de ouro, a sua barba grisalha, em colar, por baixo do queixo, um tique nervoso que tinha numa asa do nariz, a dureza da sua voz, a sua austera e majestosa tranquilidade, os seus princípios antigos, autoritários e tirânicos e a brevidade telegráfica das suas palavras.

Quando Macário lhe disse, uma manhã, ao almoço, abruptamente, sem transições emolientes: «Peço-lhe licença para casar», o tio Francisco, que deitava o açúcar no seu café, ficou calado, remexendo com a colher, devagar, majestoso e terrível: e quando acabou de solver pelo pires, com grande ruído, tirou do pescoço o guardanapo, dobrou-o, aguçou com a faca o seu palito, meteu-o na boca e saiu: mas à porta da sala parou, e voltando-se para Macário, que estava de pé, junto da mesa, disse secamente:

— Não.

— Perdão, tio Francisco!

— Não.

— Mas ouça, tio Francisco...

— Não.

Macário sentiu uma grande cólera.

— Nesse caso, faço-o sem licença.

— Despedido de casa.

— Sairei. Não haja dúvida.

— Hoje.

— Hoje.

E o tio Francisco ia a fechar a porta, mas voltando-se :

— Olá! — disse ele a Macário. que estava exasperado, apopléctico, raspando nos vidros da janela.

Macário voltou-se com uma esperança.

— Dê-me daí a caixa do rapé — disse o tio Francisco.

Tinha-lhe esquecido a caixa! Portanto estava perturbado.

— Tio Francisco... — começou Macário.

— Basta. Estamos a doze. Receberá o seu mês por inteiro. Vá.

As antigas educações produziam estas situações insensatas. Era brutal e idiota. Macário afirmou-me que era assim.

Nessa tarde Macário achava-se no quarto de uma hospedaria da Praça da Figueira com seis peças, o seu baú de roupa branca e a sua paixão. No entanto estava tranquilo. Sentia o seu destino cheio de apuros. Tinha relações e amizades no comércio. Era conhecido vantajosamente: a nitidez do seu trabalho, a sua honra tradicional, o nome da família, o seu tacto comercial, o seu belo cursivo inglês, abriam-lhe, de par em par, respeitosamente, todas as portas dos escritórios. No outro dia foi procurar alegremente o negociante Faleiro, antiga relação comercial da sua casa.

— De muito boa vontade, meu amigo — disse-me ele. — Quem mo dera cá. Mas, se o recebo, fico de mal com o seu tio, meu velho amigo de vinte anos. Ele declarou-mo categoricamente. Bem vê. Força maior. Eu sinto, mas...

E todos a quem Macário se dirigiu, confiado em relações sólidas, receavam «ficar de mal com seu tio, meu velho amigo de vinte anos».

E todos «sentiam, mas...».

Macário dirigiu-se então a negociantes novos, estranhos à sua casa e à sua família, e sobretudo aos estrangeiros: esperava encontrar gente livre da amizade de vinte anos do tio. Mas, para esses, Macário era desconhecido, e desconhecidos por igual a sua dignidade e o hábil trabalho. Se tomavam informações, sabiam que ele fora despedido de casa do tio repentinamente, por causa de uma rapariga loura, vestida de cassa. Esta circunstância tirava as simpatias a Macário. O comércio evita o guarda livros sentimental. De sorte que Macário começou a sentir-se num momento agudo. Procurando, pedindo, rebuscando, o tempo passava, sorvendo, pinto a pinto, as suas seis peças.

Macário mudou para uma estalagem barata, e continuou farejando. Mas, como fora sempre de temperamento recolhido, não criara amigos. De modo que se encontrava desemparado e solitário — e a vida aparecia-lhe como um descampo.

As peças findaram. Macário entrou,pouco a pouco, na tradição antiga da miséria. Ela tem solenidades fatais e estabelecidas: começou por empenhar. Depois vendeu. Relógio, anéis, casaca azul, cadeia, paletó de alamares, tudo foi levando pouco a pouco, embrulhado debaixo do xale, uma velha seca e cheia de asma.

No entanto via Luísa de noite, na saleta escura que dava para o patamar: uma lamparina ardia em cima da mesa; era feliz ali naquela penumbra, toda sentado castamente: não a via de dia porque trazia já a roupa usada, as botas cambadas e não queria mostrar à fresca Luísa, toda mimosa nas suas cambraias assentadas, a sua miséria remendada: ali, àquela luz ténue e esbatida, ele exaltava a sua paixão crescente e escondia o seu fato decadente. Segundo me disse Macário — era muito singular o temperamento de Luísa . Tinha o carácter louro como o cabelo — se é certo que o louro é uma cor fraca e desbotada: falava pouco, sorria sempre com os seus brancos dentinhos, dizia a tudo «pois sim»; era mais simples, quase indiferente, cheia de transigências.

Amava decerto Macário, mas com todo o amor que podia dar a sua natureza débil, aguada, nula. Era como uma estriga de linho, fiava-se como se queria: e às vezes, naqueles encontros nocturnos, tinha sono.

Um dia, porém, Macário encontrou-a excitada: estava com pressa, o xale traçado à toa, olhando sempre para a porta interior.

— A mamã percebeu — disse ela.

E contou-lhe que a mãe desconfiava, ainda rabugenta e áspera, e que decerto farejava aquele plano nupcial tramado como uma conjuração.

— Porque não me vens pedir à mamã?

— Mas, filha, se eu não posso! Não tenho arranjo nenhum. Espera. É mais um mês talvez. Tenho agora aí um negócio em bom caminho. Morríamos de fome.

Luísa calou-se, torcendo a ponta do xale, com os olhos baixos.

— Mas ao menos — disse ela — enquanto eu te não fizer sinal da janela, não subas mais, sim ?

Macário rompeu a chorar, os soluços saíam violentos e desesperados.

— Chut! — dizia-lhe Luísa. — Não chores alto!...

Macário contou-me a noite que passou, ao acaso pelas ruas, ruminando febrilmente a sua dor, e lutando, sob a nudenta friagem de Janeiro, na sua quinzena curta. Não dormiu, e logo pela manhã, ao outro dia, entrou como uma rajada no quarto do tio Francisco e disse-lhe abruptamente, secamente:

— É tudo o que tenho. — E mostrava-lhe três pintos. — Roupa, estou sem ela. Vendi tudo. Daqui a pouco tenho fome.

O tio Francisco, que fazia a barba à janela, com o lenço da Índia amarrado na cabeça, voltou-se e, pondo os óculos, fitou-o.

— A sua carteira lá está. Fique — e acrescentou com um gesto decisivo — solteiro.

— Tio Francisco, ouça-me!...

— Solteiro, disse eu — continuou o tio Francisco, dando o fio à navalha numa tira de sola.

— Não posso.

— Então, rua!

Macário saiu, estonteado. Chegou a casa, deitou-se, chorou e adormeceu. Quando saiu, à noitinha, não tinha resolução, nem ideia. Estava como uma esponja. Deixava-se ir.
De repente uma voz disse de dentro de uma loja:

— Eh! pst! olá!

Era o amigo do chapéu de palha: abriu grandes braços pasmados.

— Que diacho! Desde manhã que te procuro.

E contou-lhe que tinha chegado da província, tinha sabido a sua crise e trazia-lhe um desenlace.

— Queres?

— Tudo.

Uma casa comercial queria um homem hábil, resoluto, e duro, para ir numa comissão difícil e de grande ganho a Cabo Verde.

— Pronto! — Disse Macário. — Pronto! Amanhã.

E foi logo escrever a Luísa, pedindo-lhe uma despedida, um ultimo encontro, aquele em que os braços desolados e veementes tanto custam a desenlaçar-se. Foi. Encontrou-a toda embrulhada no seu xale, tiritando de frio. Macário chorou. ela, com a sua passiva e loura doçura, disse-lhe:

— Fazes bem. Talvez ganhes.

E ao outro dia Macário partiu.

Conheceu as viagens trabalhosas nos mares inimigos, o enjoo monótono num beliche abafado, os duros sóis das colónias, a brutalidade tirânica dos fazendeiros ricos, o peso dos fardos humilhantes, as dilacerações da ausência, as viagens ao interior das terras negras e melancolia das caravanas que costeiam por violentas noites, durante dias e dias, os rios tranquilos, donde se exala a morte.

Voltou.

E logo nessa tarde a viu a ela, Luísa, clara, fresca, repousada, serena, encostada ao peitoril da janela, com a sua ventarola chinesa. E, ao outro dia, sofregamente, foi pedi-la à mãe. Macário tinha feito um ganho saliente — e a mãe Vilaça abriu-lhe uns grandes braços amigos, cheia de exclamações. O casamento decidiu-se para daí a um ano.

— Porquê? — disse eu a Macário.

E ele explicou-me que os lucros de Cabo Verde não podiam constituir um capital definitivo: eram apenas um capital de habilitação: trazia de Cabo Verde elementos de poderosos negócios: trabalharia, heroicamente, e ao fim poderia, sossegadamente, criar uma família.

E trabalhou: pôs naquele trabalho a força criadora da sua paixão. Erguia-se de madrugada, comia à pressa, mal falava. À tardinha ia visitar Luísa. Depois voltava sofregamente para a fadiga, como um avaro para o seu cofre. Estava grosso, forte, duro, fero: servia-se com o mesmo ímpeto das ideias e dos músculos; vivia numa tempestade de cifras. Às vezes Luísa de passagem, entrava no seu armazém: aquele pousar de ave fugitiva dava-lhe alegria, valor, fé, reconforto para todo o mês cheiamente trabalhado.

Por esse tempo o amigo do chapéu de palha veio pedir a Macário que fosse seu fiador por uma grande quantia, que ele pedira para estabelecer uma loja de ferragens em grande. Macário, estava no vigor do seu crédito, cedeu com alegria. O amigo do chapéu de palha é que lhe dera o negócio providencial de Cabo Verde. Faltavam então seis meses para o casamento. Macário já sentia, por vezes, subirem-lhe ao rosto as febris vermelhidões da esperança. Já começava a tratar dos banhos. Mas um dia o amigo do chapéu de palha desapareceu com a mulher de um alferes. O seu estabelecimento estava em começo. Era uma confusa aventura. Não se pôde nunca precisar nitidamente aquele imbróglio doloroso. O que era positivo é que Macário era fiador, Macário devia reembolsar. Quando o soube, empalideceu e disse simplesmente:

— Liquido e pago.

E quando liquidou, ficou outra vez pobre. Mas nesse mesmo dia, como o desastre tivera uma grande publicidade, e a sua honra estava santificada na opinião, a casa Peres & C.ª, que o mandara a Cabo Verde, veio propor-lhe uma outra viagem e outros ganhos.

— Faz outra vez fortuna, homem. O senhor é o Diabo! — disse o Sr. Eleutério Peres.

Quando se viu assim, só e pobre, Macário desatou a chorar. Tudo estava perdido, findo, extinto; era necessário recomeçar, pacientemente a vida, voltar às longas misérias de Cabo verde, tornar a tremer os passados desesperos, suar os antigos suores! E Luísa? Macário escreveu-lhe. Depois rasgou a carta. Foi a casa dela: as janelas tinham luz; subiu até ao primeiro andar, mas aí tomou-o uma mágoa, uma covardia de revelar o desastre, trémulo de uma separação, o terror de ela se recusar, negar-se, hesitar! E quereria ela esperar mais?! Não se atreveu a falar, explicar, pedir; desceu, pé ante pé. Era noite. Andou ao acaso pelas ruas: havia um sereno e silencioso luar. Ia sem saber: de repente ouviu, de uma janela alumiada, uma rabeca que tocava a xácara mourisca. Lembrou-se do tempo em que conhecera Luísa, do bom sol claro que havia então, e do vestido dela, de cassa com pintas azuis! Estava na rua onde eram os armazéns do tio. Foi caminhando. Pôs-se a olhar para a sua antiga casa. A janela do escritório estava fechada. Quantas vezes dali vira Luísa, e o brando movimento do seu leque chinês! Mas uma janela, no segundo andar, tinha luz: era o quarto do tio. Macário vai observar mais de longe: uma figura estava encostada, por dentro, à vidraça: era o tio Francisco. Veio-lhe uma saudade de todo o seu passado simples, retirado, plácido. Lembrava-lhe o seu quarto, e a velha carteira com fecho de prata, e a miniatura de sua mãe, que estava por cima da barra do leito; a sala de jantar e o seu velho aparador de pau-preto, e a grande caneca de água, cuja asa era uma serpente irritada. Decidiu-se e, impelido por um instinto, bateu à porta. Bateu outra vez. Sentiu abrir a vidraça, e a voz do tio perguntar:

— Quem é?

— Sou eu, tio Francisco, sou eu. Venho dizer-lhe adeus.

A vidraça fechou-se, e daí a pouco a porta abriu-se com um grande ruído de ferrolhos. O tio Francisco tinha um candeeiro de azeite na mão. Macário achou-o magro, mais velho. Beijou-lhe a mão.

— Suba — disse o tio.

Macário ia calado, cosido com o corrimão.

Quando chegou ao quarto, o tio Francisco pousou o candeeiro sobre uma larga mesa de pau-santo, e de pé, com as mãos nos bolsos, esperou.

Macário estava calado, anediando a barba.

— Que quer? — gritou-lhe o tio.

— Vinha dizer-lhe adeus; volto para Cabo Verde.

— Boa viagem.

E o tio Francisco, voltando-se as costas, foi rufar na vidraça.

Macário ficou imóvel, deu dois passos no quarto, todo revoltado, e ia sair.

— Onde vai, seu estúpido? — gritou-lhe o tio.

— Vou-me.

— Sente-se ali! E o tio Francisco falava, com grandes passadas pelo quarto:

— O seu amigo é um canalha! Loja de ferragens! Não está má! O senhor é um homem de bem. Estúpido, mas homem de bem. Sente-se ali! Sente-se! O seu amigo é um canalha! O senhor é um homem de bem! Foi a Cabo Verde! Bem sei! Pagou tudo. Está claro! Também sei! Amanhã faz favor de ir para a sua carteira, lá para baixo. Mandei pôr palhinha nova na cadeira. Faz favor de pôr na factura Macário & Sobrinho. E case. Case, e que lhe preste! Levante dinheiro. O senhor precisa de roupa branca e de mobília. E meta na minha conta. A sua cama lá está feita.

Macário queria abraçá-lo, estonteado, com lágrimas nos olhos, radioso.

— Bem, bem. Adeus!

Macário ia sair.

— Oh! burro, pois quer-se ir desta sua casa?

E indo a um pequeno armário trouxe geleia, um covilhete de doce, uma garrafa antiga de Porto e biscoitos.

— Coma.

E sentando-se ao pé dele, e tornando a chamar-lhe estúpido, tinha uma lágrimas a correr-lhe pelo engelhado da pele.

De sorte que o casamento foi decidido para dali a um mês. E Luísa começou a tratar do seu enxoval.

Macário estava então na plenitude do amor e da alegria.

Via o fim da sua vida preenchido, completo, radioso. Estava quase sempre em casa da noiva, e um dia andava-a acompanhando, em compras, pelas lojas. Ele mesmo lhe quisera fazer um pequeno presente, nesse dia. A mãe tinha ficado numa modista, num primeiro andar da Rua do Ouro, e eles tinham descido, alegremente, rindo, a um ourives que havia em baixo, no mesmo prédio, na loja.

O dia estava de Inverno, claro, fino, frio, com um grande céu azul-ferrete, profundo, luminoso, consolado.

— Que bonito dia! — disse Macário.

E com a noiva pelo braço, caminhou um pouco, ao comprido do passeio.

— Está! — disse ela. — Mas podem reparar; nós sós...

— Deixa, está tão bom...

— Não, não.

E Luísa arrastou-o brandamente para a loja do ourives. Estava apenas um caixeiro, trigueiro, de cabelo hirsuto.

Macário disse-lhe:

— Queria ver anéis.

— Com pedras — disse Luísa — e o mais bonito.

— Sim, com pedras — disse Macário. — Ametista, granada. Enfim, o melhor.

E, no entanto, Luísa ia examinando as montras forradas de veludo azul, onde reluziam as grossas pulseiras cravejadas, os grilhões, os colares de camafeus, os anéis de armas, as finas alianças frágeis como o amor , e toda a cintilação de pesada ourivesaria.

— Vê, Luísa — disse Macário.

O caixeiro tinha estendido, na outra extremidade do balcão, em cima do vidro da montra, um reluzente espalhado de anéis de ouro, de pedras, lavrados, esmaltados; e Luísa, tomando-os e deixando-os com a ponta dos dedos, ia-os correndo e dizendo:

— É feio. É pesado. É largo.

— Vê este — disse-lhe Macário.

Era um anel de pequenas pérolas.

— É bonito — disse ela. — É lindo!

— Deixa ver se serve — disse Macário.

E tomando-lhe a mão, meteu-lhe o anel devagarinho, docemente, no dedo; e ela ria, com os seus brancos dentinhos finos, todos esmaltados.

— É muito largo — disse Macário. — Que pena!

— Aperta-se, querendo. Deixe a medida. Tem-no pronto amanhã.

— Boa ideia — disse Macário — sim senhor. Porque é muito bonito. Não é verdade? As pérolas muito iguais, muito claras. Muito bonito! E esses brincos? — acrescentou, indo ao fundo do balcão, a outra montra. — Estes brincos com umaconcha?

— Dez moedas — disse o caixeiro.

E, no entanto, Luísa continuava examinando os anéis, experimentando-os em todos os dedos, revolvendo aquela delicada montra, cintilante e preciosa.

Mas, de repente, o caixeiro fez-se muito pálido, e afirmou-se em Luísa, passando vagarosamente a mão pela cara.

— Bem — disse Macário, aproximando-se — então amanhã temos o anel pronto. A que horas?

O caixeiro não respondeu e começou a olhar fixamente para Macário.

— A que horas?

— Ao meio-dia.

— Bem, adeus — disse Macário. E iam sair. Luísa trazia um vestido de lã azul, que arrastava um pouco, dando uma ondulação melodiosa ao seu passo, e as suas mãos pequenas estavam escondidas num regalo branco.

-Perdão! — disse de repente o caixeiro.

Macário voltou-se.

— O senhor não pagou.

Macário olha para ele gravemente.

— Está claro que não. Amanhã venho buscar o anel, pago amanhã.

— Perdão! — disse o caixeiro.— Mas o outro...

— Qual outro? — disse Macário com uma voz surpreendida, adiantando-se para o balcão.

— Essa senhora sabe — disse o caixeiro. — Essa senhora sabe.

Macário tirou a carteira lentamente.

— Perdão, se há uma conta antiga...

O caixeiro abriu o balcão, e com aspecto resoluto:

— Nada, meu caro Senhor, é de agora. É um anel com dois brilhantes que aquela senhora leva.

— Eu?! — disse Luísa, com a voz baixa, toda escarlate.

— Que é? Que está a dizer?

E Macário, pálido, com dentes cerrados, contraído, fitava o caixeiro colericamente. O caixeiro disse então:

— Essa senhora tirou dali o anel. — Macário ficou imóvel, encarando-o. — Um anel com dois brilhantes. Vi perfeitamente. — O caixeiro estava tão excitado, que a sua voz gaguejava, prendia-se espessamente. — Essa senhora não sei quem é. E tirou-o dali...

Macário, maquinalmente, agarrou-lhe o braço, e voltando-se para Luísa com a palavra abafada, gotas de suor na testa, lívido:

— Luísa, dize... — Mas a voz cortou-se-lhe.

— Eu... — disse ela. Mas estava trémula, assombrada, enfiada, descomposta.

E tinha deixado cair o regalo ao chão.

Macário veio para ela, agarrou-lhe o pulso fintando-a: e o seu aspecto era tão resoluto e tão imperioso que ela meteu a mão no bolso, bruscamente, apavorada, e mostrando o anel:

— Não me faça mal — disse, encolhendo-se toda.

Macário ficou com os braços caídos, o ar abstracto, os beiços brancos; mas de repente, dando um puxão ao casaco, recuperando-se, disse ao caixeiro:

— Tem razão. Era distracção. Está claro! Esta senhora tinha-se esquecido. É o anel. Sim, sim, senhor, evidentemente... Tenha a bondade. Toma, filha, toma. Deixa estar, este senhor embrulha-o. Quanto custa?

Abriu a carteira e pagou.

Depois apanhou o regalo, sacudiu-o brandamente, limpou os beiços com o lenço, deu o braço a Luísa e dizendo ao caixeiro: « desculpe, desculpe », levou-a, inerte, passiva, extinta e aterrada.

Deram alguns passos na rua. Um largo sol aclarava o génio feliz: as seges ,passavam, rolando ao estalido do chicote; figuras risonhas passavam, conversando; os pregões ganiam os seus gritos alegres; um cavalheiro de calção de anta fazia ladear o seu cavalo, enfeitado de rosetas; e a rua estava cheia, ruidosa, viva, feliz e coberta de sol.

Macário ia maquinalmente, como no fundo de um sonho. Parou a uma esquina. Tinha o braço de Luísa passado no seu; e via-lhe a mão pendente, a sua mão de cera, com as veias docemente azuladas, os dedos finos e amorosos: era a mão direita, e aquela mão era a da sua noiva! E, instintivamente, leu o cartaz que anunciava para essa noite «Palafoz em Saragoça ».

De repente, soltando o braço de Luísa, disse-lhe baixinho:

— Vai-te.

— Ouve!... — disse ela, com a cabeça toda inclinada.

— Vai-te. — E com voz abafada e terrível: — Vai-te. Olha que chamo. Mando-te para o Aljube. Vai-te.

— Mas houve, Jesus — disse ela.

— Vai-te! — E fez um gesto, com o punho cerrado.

— Pelo amor de Deus, não me batas aqui — disse ela, sufocada.

— Vai-te, podem reparar. Não chores. Olha que vêem. Vai-te.

E, chegando-se para ela, disse baixo:

— És uma ladra!

E, voltando-lhe as costas, afastou-se, devagar, riscando o chão com a bengala.

À distância, voltou-se: ainda viu, através dos vultos, o seu vestido azul.

Como partiu nessa tarde para a província, não soube mais daquela rapariga loura.

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clearing the mind, again

com grandes romances de amor. não é bem, mas.
António M. Feijó e Vasco Graça Moura. ("todos inflaccionamos os objectos")

everything Emily


right here.

Wolves, de Emily Gravett, um dos livros top 10 cá de casa.
o site oficial, aqui.

"Enhancing memory would be the cranial equivalent of taking steroids"

as coisas da memória chamam-me sempre a atenção, pela minha falta dela e por pensar assim, tal e qual como li logo de manhã no Caderno, "Somos a memória que temos, sem memória não saberíamos quem somos.", de Saramago claro. e com ele li sobre a molécula zip, que tanto pode apagar como aumentar. nestes science-objectivity-kingdom-or-so-and-so o mais curioso para mim é a facilidade com que se debitam frases tremendas de tão falsas, logo à vista desarmada ("Certain memories associated with trauma or addictions can be controlled".)  felizmente há bons jornais.)

não posso dizer com o Saramago, "Com a minha memória, essa que eu sou. Não quero esquecer nada." tenho muito a esquecer, muitas coisas que (me) foram ditas, muitas que fiz ou vi feitas. o que lembro e o que quero esquecer, o que somos. ("How long-term memories are stored as physical traces in the brain is a fundamental question in neuroscience. Recently, we discovered the first molecular mechanism of long-term memory storage. ") engraçado que o que se pretenda ultrapassar, neste artigo, seja o conhecimento que até agora, dizem eles, era pertença de artistas e escritores, o conhecimento do ser humano [identidade. consciência. memória]. basta ler o tal Caderno para saber que não é uma qualquer molécula zip que vai alterar isso.

Monday, April 27, 2009

global behaviour, but not here or maybe, Francisco Vidal


Desenhos de 20 minutos #1 and #9 (2007)
na Galeria 111 em Lisboa até ao final de Maio






do Diário Gráfico. (2005)


Abdal Malik-Gibraltar (2009)

Senegal and Sarkozy's immigration Policy (2009)
na 111.

"I’ve been working as an artist for the past two years. Before that I was popping around from school to school in Portugal. At that time I could say that I had passed through almost every art school in the country! I was very bored with the experience.

So I decided that it was time for me to start work for real, so I just started to look around to see where in the Lisbon art scene I could fit in. It was not difficult to find a gallery, curators that I could work with, and fellow artists that I could talk with.

The most difficult thing was that in a year, I did almost everything that I proposed to myself to do in Portugal. So it was time to go! The Lisbon art scene is just too small—two streets and a corner. So I started to travel: the first city was Manchester, then Madrid. I was traveling with my girlfriend, and we would always come back to Lisbon between trips. We went to Brazil, New York, Malmoe, Sweden, Cidade da Praia, and Mindelo in Cape Verde. And finally we came to Berlin, where we are now. We are not coming back to Lisbon any time soon. It’s a cool city to live in, but it’s hard to work there, and Berlin ain't cold any more, so I'll try to do something here.

The big question for me nowadays is if there really is a different art scene in different cities. Of course there are differences among cultures, but there is not a whole different way of working from city to city.

The thing that I know is that there is no real art scene in Lisbon. Musicologists and academics that study music like to put different African music under the concept of “world music,” and that is just too narrow a place for all those musicians. Similarly, I have to think that all art scene behavior is global. And that is very cool."
para a NY Arts Magazine, aqui.



imagens da Agenda2010, em Berlin, em Agosto de 2008 ("Rita GT e Francisco Vidal andam pela cidade alemã desde o ano passado e já organizaram uma “performance-leilão”. Juntamente com Daniel Freymüller, formaram o colectivo Agenda2010 e fizeram o “One Million Dollar Project”, 92 desenhos vendidos, retirados e levados para casa por quem teve a sorte de passar pela galeria Raum für Zweckfreiheit em Agosto passado.", daqui)




de "Again, again and again! 500 outras coisas" (2008)
na galeria ZDB e no Centro Cultural de Lagos




da exposição Água (2007), daqui

muito talentoso. com ele, Rita GT, bombasticamente revolucionária.

"edged aroma of slightly overdone dutch-apple pie"

The Electric Slide Boogie
Audre Lorde

New Year's Day 1:16 AM
and my body is weary beyond
time to withdraw and rest
ample room allowed me in everyone's head
but community calls
right over the threshold
drums beating through the walls
children playing their truck dramas
under the collapsible coatrack
in the narrow hallway outside my room

The TV lounge next door is wide open
it is midnight in Idaho
and the throb easy subtle spin
of the electric slide boogie
step-stepping
around the corner of the parlor
past the sweet clink
of dining room glasses
and the edged aroma of slightly overdone
dutch-apple pie
all laced together
with the rich dark laughter
of Gloria
and her higher-octave sisters

How hard it is to sleep
in the middle of life.

Sunday, April 26, 2009

movimento contínuo

-


what to do with a stalk of lemongrass

Singapore chicken satay and peanut sauce.

expectations, Marine Hugonnier





interessantes estas imagens enormes de 3 metros de comprimento, que devem ser instaladas cada um numa sala diferente para que o espaço a percorrer entre as salas seja o espaço das expectativas de Pedro Álvares Cabral. imagens de Marine Hugonnier.

"WEDNESDAY (Monte Pascoal, Brazil) and THURSDAY (Monte Pascoal, Brazil) were shot at to the exact point where the Portuguese navigator Pedro Alvares Cabral first saw main land on Wednesday April 22, 1500. Following the new route to the Indies, Cabral was driven by a hurricane to the coast where he spotted Monte Pascoal, thus discovering Brazil by chance. He first sighted it at dusk but had to wait for the early hours of the next morning to confirm what he had seen. Each photographs are to be installed in two separate rooms. The physical space in between the two images recalls the expectations that Cabral experienced during this waiting period. These two works allude to those few hours in history when the ideals, beliefs and made-up imagery of "The New World" made their lasting entry into the Western psyche."



Hugonnier so interesting, every image the photograph of an absence. ouvindo Levi Johnston, a distância entre a expectativa e a realidade cresce. o que o circo político e mediático fazem ao mais pequeno dos mr. john does chega a ser doloroso. balançando entre um quadro e o outro. terra queimada. eldorado. my swing is never vacant

and again, absence. picturing the void.



"FD: The instant of coincidence is always fortuitous and unpredictable. It seems to me that coincidence is always on the order of the fantastic and that your films, which could be defined as belonging to a ‘Cinema of the real’, describe a reality which exists in and by coincidence alone. For Georges Kubler, actuality is the only thing we can directly know. He gave the following definition of it: ‘Actuality is when the lighthouse is dark between flashes, it is the instant between the ticks of the watch, it is a void interval slipping forever through time, the rupture between past and future, the gap at the poles of the revolving magnetic field, infinitesimally small but ultimately real. It is the interchronic pause when nothing is happening. It is the void between events.’(1) I find this definition interesting because when it comes to naming your films you have made use of the rhetoric of the instant ‘T’ which indicates the date and the time of the event: Impact. 21.05.99, 11:02 (1999), Highlights. Moorgate Station. 17.08.99, 5:35 (1999), Highlights. London Bridge. 13.10.99, 6:15 (1999). In parallel to that, you set up this space of the interlude which in Impact corresponds to a black interruption that chops up the film like a stroboscope.

MH: Kubler’s definition seems quite apt to me, as the space he describes is exactly the one I am attempting to define: that instant ‘T’ in which reality is an emotional charge. Hyperrealism is always charged with a curious ambiguity because reality suddenly seems as familiar as it is strange. Blending the genres of documentary and fiction provokes the same kind of gap. For me it is not a question of presenting these two genres in opposition, but on the contrary, of remaining within a relative ambiguity that allows me to create a state of sympathy with the real. The word ‘sympathy’ might seem odd, but it designates the intuitive comprehension of reality and its resources. This would then be the possibility of measuring the incredible complexity, the swarming details of reality, which can provoke either an emotion or a sort of nausea. And that moment is a feeling which is familiar to me and which I wish to retranscribe. You describe coincidence as being on the order of the fantastic. I think you’re right, at least if the word ‘fantastic’ is not considered as a means of escape, but instead as a way of getting a grip on the real. Indeed, ‘fantastic’ simply means ‘to make something appear’. In that sense, the fantastic is an effect of contact with reality. The formal recurrence of the interlude allows me to offer a space to the viewer. Unlike the ‘fade-over’, which is a classical narrative device for introducing an end or a beginning in a film, the black cut or what I call the ‘interlude’ is a suspended instant, a reflexive movement toward the spectator, a moment which is conducive to intuition, allowing the public to ‘feel’ what they have just seen. It’s a delay in a flow of information. This desire to punctuate space and time in order to celebrate the present instant is recurrent in all my work. I remember carrying out a piece for an exhibition where I installed a tree on a sidewalk and glued a little round mirror on each of its leaves. The tree glittered and cut the space of the street into a thousand fractions (Tree, 1994)."

a entrevista toda, em .pdf, aqui


e mais, aqui.

Saturday, April 25, 2009

praia das maçãs

quantos olhos temos



sem fim. alguns livros não são literatura e continuam a ter olhos por nós. ir ao mercado pode ser, afinal, muito mais do que ir ao mercado. quando no pool genético alguém foi muito mais longe. por nós.

The Last of the Whaling Captains, by Captain G. V. Clark

"This is the story of a remarkable man who spent most of his sea life in the Arctic and knew it better than almost anyone I am aware of. Captain Murray lived with the Eskimos for years at a stretch, talked their language, shared their hardships, tended them when they were sick and often provided them with food and shelter. He first visited the Arctic in a square-rigged whaler in 1884, just over one hundred years ago, when conditions there were little different to what they had been when Sir John Franklin's expedition disappeared in 1845 while searching for the North-West Passage.

Once a whaler had left the U.K. for the North she was in a silent world of her own, cut off from other ships or shore bases except by direct contact and it remained thus until wireless came in to alter the whole way of sea life. Even so, the old-time whalers were not fitted with wireless, as is shown in the case of the auxiliary barque Active in 1914 when she was at Lake Harbour, Hudson Strait, on 4th October with Captain Murray in command and was told by word of mouth of the outbreak of war two months earlier.

Wireless and the aeroplane were the two inventions which removed the isolation of the North as Captain Murray knew it but it was wireless, long before the aeroplane, which broke through the barrier and brought people into communicable range when far away. There have been many examples of the fact that certain qualities of mind and temperament are essential for anyone who would make the Arctic their home. The silence, of a quality unknown to the city dweller and frightening to some; the knowledge that one is surrounded by thousands of square miles of empty land and not be overawed by it; the ability to be able to live in harmony with people of a different race and background; physical fitness would be another essential. Captain Murray had all these qualities and as he demonstrated many times, was the ideal type for Arctic life, a man of iron will, stoically able to endure extreme hardship and suffering, and able to handle men in all situations. I am thankful I knew him. "

retirado do Brown's Nautical Almanac de 91

Friday, April 24, 2009

"nine disasters"

de Kelley Walker.


mais um artista nos limites da autoria e da questão da pertença das imagens.

não é bem rustikales vollkornbrot



o quê: 1 colher de chá de fermento, 1 chávena e um quarto de leite morno, 1 colher de chá de açúcar mascavado, 1 chávena e meia de farinha rustikales vollkornbrot, 2 chávenas de farinha, 1 colher de chá de sal, 4 colheres de sopa ou 50 gr de manteiga cortada em cubos, 1 ovo batido, sementes várias.

como: dissolver o fermento num pouco do leite com o açúcar. à parte, misturar as duas farinhas e algumas sementes. juntar a manteiga e desfazer com os dedos até ficar como pão ralado. juntar a mistura do fermento, o resto do leite e o ovo. amassar durante uns 15 minutos. deixar repousar pelo menos uma hora. voltar a amassar alguns minutos, humedecer e cobrir com as restantes sementes. cerca de 25 minutos em forno de 180º.

não tenho cravos para a festa, vou trazer outros verdes para Lisboa

N'UM BAIRRO MODERNO
Cesário Verde

Dez horas da manhã; os transparentes
Matizam uma casa apalaçada;
Pelos jardins estancam-se os nascentes,
E fere a vista, com brancuras quentes,
A larga rua macadamisada.

Rez-de-chaussée repousam socegados,
Abriram-se, n'alguns, as persianas,
E d'um ou d'outro, em quartos estucados,
Ou entre a rama dos papeis pintados,
Reluzem, n'um almoço, as porcelanas.

Como é saudavel ter o seu conchego,
E a sua vida facil! Eu descia,
Sem muita pressa, para o meu emprego,
Aonde agora quasi sempre chego
Com as tonturas d'uma apoplexia.

E rota, pequenina, aramafada,
Notei de costas uma rapariga,
Que no xadrez marmoreo d'uma escada,
Como um retalho de horta agglomerada,
Pousára, ajoelhando, a sua giga.

E eu, apesar do sol, examinei-a:
Poz-se de pé: resoam-lhe os tamancos;
E abre-se-lhe o algodão azul da meia,
Se ella se curva, esguedelhada, feia,
E pendurando os seus bracinhos brancos.

Do patamar responde-lhe um criado:
«Se te convém, despacha; não converses.
Eu não dou mais.» E muito descançado,
Atira um cobre livido, oxidado,
Que vem bater nas faces d' uns alperces.

Subitamente,--que visão de artista!--
Se eu transformasse os simples vegetaes,
Á luz do sol, o intenso colorista,
N'um ser humano que se mova e exista
Cheio de bellas proporções carnaes?!

Boiam aromas, fumos de cozinha;
Com o cabaz ás costas, e vergando,
Sobem padeiros, claros de farinha;
E ás portas, uma ou outra campainha
Toca, frenetica, de vez em quando.

E eu recompunha, por anatomia,
Um novo corpo organico, aos bocados.
Achava os tons e as fórmas. Descobria
Uma cabeça n'uma melancia,
E n'uns repolhos seios injectados.

As azeitonas, que nos dão o azeite,
Negras e unidas, entre verdes folhos,
São tranças d'um cabello que se ageite;
E os nabos--ossos nus, da côr do leite,
E os cachos d'uvas--os rosarios d'olhos.

Ha collos, hombros, boccas, um semblante
Nas posições de certos fructos. E entre
As hortaliças, tumido, fragrante,
Como d'alguem que tudo aquilo jante,
Surge um melão, que me lembrou um ventre.

E, como um feto, emfim, que se dilate,
Vi nos legumes carnes tentadoras,
Sangue na ginja vivida, escarlate,
Bons corações pulsando no tomate
E dedos hirtos, rubros, nas cenouras.

O sol dourava o céo. E a regateira,
Como vendera a sua fresca alface
E déra o ramo de hortelã que cheira,
Voltando-se, gritou-me prazenteira:
«Não passa mais ninguem!... Se me ajudasse?!...»

Eu acerquei-me d'ella, sem desprezo;
E, pelas duas azas a quebrar,
Nós levantámos todo aquelle peso
Que ao chão de pedra resistia preso,
Com um enorme esforço muscular.

«Muito obrigada! Deus lhe dê saúde!»
E recebi, náquella despedida,
As forças, a alegria, a plenitude,
Que brotam d'um excesso de virtude
Ou d'uma digestão desconhecida.

E em quanto sigo para o lado opposto,
E ao longe rodam umas carruagens,
A pobre afasta-se, ao calor de agosto,
Descolorida nas maçãs do rosto,
E sem quadris na saia de ramagens.

Um pequerrucho rega a trepadeira
D'uma janella azul; e, com o ralo
Do regador, parece que joeira
Ou que borrifa estrellas; e a poeira
Que eleva nuvens alvas e incensal-o.

Chegam do gigo emanações sadias,
Oiço um canario--que infantil chilrada!--
Lidam ménages entre as gelosias,
E o sol estende, pelas frontarias,
Seus raios de laranja distillada.

E pittoresca e audaz, na sua chita,
O peito erguido, os pulsos nas ilhargas,
D'uma desgraça alegre que me incita,
Ella apregôa, magra, enfezadita,
As suas couves repolhudas, largas.

E como as grossas pernas d'um gigante,
Sem tronco, mas athleticas, inteiras,
Carregam sobre a pobre caminhante,
Sobre a verdura rustica, abundante,
Duas frugaes aboboras carneiras.



:::::....
o livro de Cesário Verde todo, aqui.

gostava de ter

fabrico próprio

entre as vidas de fronteira, sempre um assunto elevado a mito, mas só após os factos, ou vistas de longe, e os arabescos da pastelaria à portuguesa, um projecto que ouvi em entrevista há uns meses atrás. acaba por caber tudo no saco que se leva à tiracolo.

"Organized Freedom", Esko Männikkö

mais do que um bom nome, uma extensa série de fotografias de Esko Männikkö.















"A portraitist of isolation, Finnish photographer Esko Männikkö reveals the intimate lives of those who live along frontiers, places where borders become limits which separate and protect but which also exclude. The idea of a threshold or passage is always present, as in the doors damaged by time, open and abandoned, waiting for a new refugee. An allegory of social and geographic solitude, the series Organized Freedom deals with these immigrants from the north of Finland, of the precarious places where they live faced with the harsh conditions of Nordic life. In the most recent edition, the decrepit interiors, abandoned objects and rusted car bodies which take the place of people reveal – in an almost anthropological vision – a neglected immigration which pays the price for its own freedom. " (daqui)

"Finnish artist Esko Männikkö presented a large number of photographs that portray people in and around their homes in the north of Finland. Männikkö stays with his subjects, getting to know them over several days (often joining them in hunting, fishing and drinking) before making his calm and dignified portraits. The photographs always convey the marked distinctiveness of each individual and their environment; most show lone men in wooden shacks whose walls consist of varnished boards of sheets of painted plywood and plasterboard. These homes are makeshift structures, with bits of material hung from string functioning as curtains, and with rooms sparsely furnished with battered sofas, chairs and tables. Amongst the images in the exhibition, ‘one man listens to music, but most sleep or sit quietly smoking’—the sense of total stillness in the pictures is underlined by the simplicity of their visual composition."

"Whilst the photographs register as social documents, much of their force lies in their extraordinary compositions—they feel constructed, as if Männikkö had carefully arranged the person and placed objects around them. In fact, he very rarely manipulates his photographs, but instead, uses doorways, furnishings, coloured painted walls and homely paraphernalia to make a kind of frame for his subjects. In one image, an elderly woman seated on her bed becomes like a Byzantine icon, her body framed by a woven wall hanging whose pattern appears behind her like an expanding aureole of light. In others, there are radial arrangements with highly coloured objects that provide exuberant splashes of colour to unify the image, as well as to contrast the generally earthy tone and atmosphere of the photographs."
(daqui)

e uma foto-bónus.

genéricos e um pedido de desculpas

"Genéricos vão ser gratuitos para pensionistas que recebem abaixo do salário mínimo."
"oɯıuíɯ oıɹálɐs op oxıɐqɐ ɯǝqǝɔǝɹ ǝnb sɐʇsıuoısuǝd ɐɹɐd soʇınʇɐɹƃ ɹǝs oãʌ soɔıɹéuǝƃ"
flip
uma medida real e um pedido de desculpas a João Lourenço, presidente da Câmara Municipal de Comba Dão a quem chamei cretino e cobarde. ouvido o próprio cheguei à conclusão que este se tratou de um factóide gerado e alimentado pela comunicação social, como tantos outros. cada vez tenho menos apetite pelo "debate" de ideias. mas seja claro, fosse esta praça ou largo nomeados hoje e repetiria tudo, mesmo à margem do *Marquês de Pombal.

Thursday, April 23, 2009

Monserrate



mais fotos do Parque e Palácio de Monserrate, aqui.

tarde de calor

depois de passar por Estoi, a comparação com o Palácio de Monserrate era inevitável. ex-particular, adquirido pela Câmara, jardim-palco de fotos de casamento, abandonado durante muitos anos, todos os que me lembro, agora a ser recuperado. só que este não vai integrar nenhuma cadeia privada de hotéis, vai ser mesmo devolvido ao público. os valores do restauro têm tantos zeros que tenho de olhar de novo para o número. a biblioteca, que fotografei às escondidas, bem restaurada com fundos da EEA, noruegueses. o restauro em curso, um trabalho de qualidade que vale a pena ver enquanto vai sendo feito. para bisbilhotar mais tarde. em baixo, a bibioteca e a sala de música.

"Na quinta-feira passada, o dia 5 de Março, inaugurou-se a biblioteca do Palácio de Monserrate em Sintra, recuperada com fundos da EEA Grants." (...) "A recuperação da biblioteca faz parte de uma reabilitação total do interior do Palácio de Monserrate, possibilitada por uma contribuição de 750 mil euros pelo mecanismo financeiro europeu dos EEA Grants – maior parte suportado pela Noruega. As fachadas e coberturas do pálacio já foram recuperadas, entre 2001 e 2004, em resposta aos fortes apelos para a necessidade de travar a degradação de um dos mais notáveis exemplares do património romântico." (daqui)




mais fotos, aqui.

the electric car, BYD





"I didn't know how to drive before this job."

S. Pedro de Sintra

-


25 de abril

parece que há um cretino em santa comba que, no dia 25 de Abril, vai inaugurar a Praça oliveira salazar. como não chegasse a cretinice é ainda cobarde: em vez de assumir a provocação, diz que a data nem foi de propósito, foi só um atraso dos serviços. parece. em Lisboa inunda-se o Terreiro do Paço com 45 Jardins Portáteis de Leonel Moura. arte pública vs. cretinice pública. santa comba é um verdadeiro case study do formigueirinho português. para comprar hoje: a visão censurada. e este, via poesia-incompleta.

Guillermo Kuitca

da série Covent Garden, 2005.







Wednesday, April 22, 2009

idle

há certas picardias que me arreliam como picadinhas -
se dissesse de rabo na boca estaria a incorrer nelas
e corria às voltas, como os cães igualmente arreliados.

no dia da terra

subscrever a National Geographic Little Kids, ou N. G. Kids. já o fiz, em tempos, está na hora de reincidir.

as mulheres de Picasso

não as de carne, mas as de tinta. partindo de Goya, este Massacre na Coreia de 1951.

"aquilo é um telejornal travestido", check.

a entrevista toda, online na rtp. dúvidas?

ele escreve e eu leio

são as vantagens do google reader. este, ao que diz, foi escrito há mais tempo e surge no blogue porque não faz má figura. não há como acordar assim. aqui, só um excerto.

Da impossibilidade deste retrato
J. Saramago

"Que retrato de si mesmo pintaria Fernando Pessoa se, em vez de poeta, tivesse sido pintor, e de retratos? Colocado de frente para o espelho, ou de meio perfil, obliquando o olhar a três quartos, como quem, de si mesmo escondido, se espreita, que rosto escolheria e por quanto tempo? O seu, diferente segundo as idades, assemelhando a cada uma fotografias que dele conhecemos, ou também o das imagens não fixadas, sucessivas entre o nascimento e a morte, todas as tardes, noites e manhãs, começando no Largo de S. Carlos e acabando no Hospital de S. Luís? O de um Álvaro de Campos, engenheiro naval formado em Glasgow? O de\Alberto Caeiro, sem profissão nem educação, morto de tuberculose na flor da idade? O de Ricardo Reis, médico expatriado de quem se perdeu o rasto, apesar de algumas notícias recentes obviamente apócrifas? O de Bernardo Soares, ajudante de guarda-livros na baixa lisboeta? Ou um outro qualquer, o Guedes, o Mora, aqueles tantas vezes invocados, inúmeros, certos, prováveis e possíveis? Representar-se-ia de chapéu na cabeça? De perna traçada? De cigarro apertado entre os dedos? De óculos? De gabardina vestida ou sobre os ombros? Usaria um disfarce, por exemplo, apagando o bigode e descobrindo a pele subjacente, de súbito nua, de súbito fria? Cercar-se-ia de símbolos, de cifras da cabala, de signos horoscópicos, de gaivotas no Tejo, de cais de pedra, de corvos traduzidos do inglês, de cavalos azuis e jockeys amarelos, de premonitórios túmulos? Ou, ao contrário destas eloquências, ficaria\sentado diante do cavalete, da tela branca, incapaz de levantar um braço para atacá-la ou dela se defender, à espera de um outro pintor que ali fosse tentar o impossível retrato? De quem? De qual?

De uma pessoa que se chamou Fernando Pessoa começa a ter justificação o que de Camões já se sabe. Dez mil figurações, desenhadas, pintadas, modeladas, esculpidas, acabaram por tornar invisível Luís Vaz, o que dele ainda permanece é o que sobra: uma pálpebra caída, uma barba, uma coroa de louros. É fácil de ver que Fernando Pessoa também vai a caminho da invisibilidade (...) Há razões para pensar que a língua é, toda ela, obra de poesia."

Tuesday, April 21, 2009

o meu coração é árabe


neste caso não o livro de Adalberto Alves, mas o arroz doce da Beira Interior do chefe Silva. alterado, que dez gemas é quase pornografia culinária.


o quê: 2 chávenas de água, uma pitada de sal, 1 pau de canela (chinesa), 1 casquinha de limão. 1 chávena de arroz, neste caso o arroz para arroz doce da saludães, 3 chávenas e meia de leite, 3 gemas, 1 chávena de açúcar e canela para decorar.

como: ferver a água, com o sal, o limão e o pau de canela, juntar o arroz e deixar cozer até absorver toda a água. juntar o leite e deixar ferver 10 minutos para abrir. juntar o açúcar e deixar cozer mais 10 minutos, sempre em lume moderado. mexer as gemas num prato à parte e juntar depois às gemas duas ou mais colheres de arroz, mexendo sempre. retirar o arroz do lume e juntar os ovos em fio, sempre a mexer. voltar ao lume até obter a consistência desejada. mexer no fundo e não deixar ferver.  colocar logo nos pratos e decorar.

engraçado engraçado é a wiki portuguesa dizer que é um prato português e brasileiro. os mexicanos têm um excelente. os alemães reclamam a sua origem. os chineses têm uma versão, no Paquistão e na Índia faz-se este arroz, com passas e pistachios. no Havai com leite de coco. e um clássico da cozinha espanhola, como estaria no México de outro modo...  arroz con leche, postres de la abuela, com canela e limão, tal e qual como o nosso. em árabe, mulhammar, com açafrão e cardamomo. roz bi laban, no egipto com os mesmos ingredientes. na cozinha como nas línguas indo-europeias, acho eu.

for lemon:
Sweet Rice

what: 2 cups of water, a bit of salt, 1 stick of cinnamon, 1 lemon peel, 1 cup of rice of a rounder shape variety, 3 cups and a half of milk, 6 egg yolks, 1 cup of sugar and cinnamon for decoration.

how: boil the water with the salt, lemon and cinnamon stick. add the rice and let cook until it absorbs all the water. add the milk and let boil for 10 minutes. add the sugar and boil for another 10 minutes, always over a slow fire. on the side, stir the egg yolks and add two spoonfuls of of hot rice mixture. then pour the yolks into the rice very slowly, always stirring and keep mixing until it reaches the desired consistency, but not for long. before it cools off, pour onto plates or a platter and decorate.

there is hardly any Portuguese dessert without eggs, all sorts of shapes out of eggs and sugar. foreigners often find our desserts excessively sweet and a bit repetitive. nacionals are crazy for them. this recipe, from the central inland part of the country is the same as my great grandmother's recipe, although she was from a different area, closer to Lisbon.

 
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