Thursday, September 30, 2010

mil folhas









quando no mesmo lugar há muitos andares de memória, fundidos uns nos outros, e em que o mais claro é o mais antigo. não é para mostrar, é para que eu possa ver.

cores da água

abertura

de manhã, e antes da abertura silenciosa das lojas que vi de uma cadeira de verga dourada mas já gasta, misturei-me com um grupo de japoneses saídos de um autocarro e em visita enfileirada às vistas impressas na brochura com caracteres lida provavelmente há meses em locais que eu gostaria de conhecer. a fila cedo se desfez, cada um entusiasmado com o seu palácio ou com aquela perspectiva e com eles tirei fotos das vistas, as minhas sem gente, as deles a sorrir para a máquina e para a família que os vai ver a sorrir no regresso. tentava perceber o que viam e se a língua e os edifícios quadriculados da sua origem alteram a paisagem nos olhos mas não percebi nada, o encontro foi demasiado breve. ou porque eu própria me distraí com as cores da água que corria numa fonte.

Wednesday, September 29, 2010

Johnny Guitar



“‘Aquele que por uma vez compreendeu o que é a recordação. mantém-se por toda a eternidade prisioneiro de um só e mesmo recordar”. A citação é de Kierkegaard, tem que ver com a diferença proposta por esse autor no Banquete, entre lembrar e recordar e servi-me dela há quarenta e muitos anos para defender que o cinema de Nick Ray é um cinema de recordação. Numa total solidão, em grandes planos, Johnny e Vienna ferem-se e desejam para lá de tudo encontrar e esquecer. Em completa imobilidade, a despropósito, Sterling Hayden diz: ”Don't go away”. Joan Crawford só e parada responde: ”I haven't moved”. A câmara é um microscópio que detecta a melodia do olhar escreveu Nick Ray. Ou a passagem para a metafísica. I haven't moved... em vagarosa frase.
Há as “mortes” de Vienna e Guitar já para aquém da cascata (outras tantas são também as passagens por ela) imobilizados na canção que sempre recordam, começando de servir outros cinco anos.
Rever as imagens do Johnny Guitar é rever a recordação delas. Para quem o vê pela primeira vez, é ainda de rever que se trata. Porque todos os personagens não fazem outra coisa.
E que revêem eles? Os cinco anos que não vemos, de que nada sabemos de certeza certa, que decorrem entre a saída de Guitar dum saloon e a sua entrada noutro, Os cinco anos que deram a Vienna a amargura, a Johnny o cansaço, ao Kid a desesperança, a Emma o recalcamento e o ódio, a Turkey o primeiro amor impossível e, consequentemente, a morte possível. Os cinco anos que fizeram aqueles olhos, aquelas vozes, aquele tempo, aquele espaço. Cada um os revê até morrer e os que sobrevivem (Vienna e Johnny) sabem que não revivem coisa diferente “wherever they go” “wherever they stand”.
Johnny Guitar é, um filme construído em flash-back sobre uma imensa elipse? Ou é uma imensa elipse construída sobre um flash que não pode come back? Ou será que é tudo a mesma coisa? “Só recordam aqueles que confidenciam, a recordação é uma arte que arranca da solidão e do silêncio”, escrevi há quarenta e muitos anos, sem ainda saber ler nem escrever. Hoje, que tinha obrigação de saber mais, só posso repetir que esta arte recordatória, este filme mítico, este filme-mito (tão, tão diferente da memória) arranca também daí: da solidão e do silêncio.
Trinta anos depois, ou quase - também - Nicholas Ray destruído, cego dum olho, com o cabelo todo branco, tão e tão magro, veio dizer-nos (We Can't Go Home Again) que ajudar-nos uns aos outros era a nossa única possibilidade de sobrevivência. Não se passa em vão tantas vezes debaixo daquela cascata. He hasn't moved. Percebam-no e amem-no os que também não.

João Bénard da Costa
(texto adaptado)
Cinemateca Portuguesa - Museu do Cinema
que tirei daqui.

Argentina:

para quem gosta de listas, como eu por vezes --assim na ilusão de iniciar uma nova ordem algures--, a lista de 15 escritores argentinos do El Pais, via Ler, via Salamandrine. conta a intenção ou, pelo menos, a esperança de que seja uma lista autêntica, se bem que a primeira frase, de si, não seja famosa ["La literatura argentina es más que Borges y Cortázar."] que saudade surda do país colorido que nunca visitei.

[para ver em conjunto: Eloisa Cartonera]

o resto

posso estar à espera mas acabo por não estar. logo no início de Os Emigrantes: "O resto, destrói-o a memória." --difícil não ouvir logo o ruído de motor em fundo, motor de locomotiva a carvão, pesado e ressonante, a destruição da minha.

vocabgrabber

vocabgrabbed algumas palavras de Heart of Darkness:
accurse hippo pilgrim steamboat amaze begrime snag ivory tenebrous upcountry rivet pug-nose manager helmsman commingle steam whistle station wilderness blank space shutter smash-up startle trade secret gingery riverside by hook or by crook sandpit pyjama tidal current bush river steamer there squirting screech steam pipe hand clapping greyness bewilder brooding see chap look drop shot fascinate sway splash around out immensity secretarial prevaricator supernatural being exasperate man sombreness sombre thieve gaberdine half-caste not trade good boiler intersperse like very lank nigger satiate savage frontal bone youthfully mumble whited sepulchre stillness rubbishy eldorado fusillade elephant-tusk teakwood say annoy shamefully pitiless all unappetizing muffle glance holy terror stretcher shoe lace overheat crawl offish impenetrable upkeep ship biscuit get stave in clear out but caliper knitter lightless squirt bank contemptibly inappreciable earth forest mess about suddenly pacifically devil lot know penetrable stroll inconceivable pinhead some said come black serviette imagine unsound particularized thumbed thing too look at glitter evanescence one laze white malevolently clinking talk brood though dismantle grass wistfulness spanner restraint rolling wave head amazing inscrutable silence iron collar and so on dominoes steam cipher martini fog seem so to speak pulsate patch abreast farcical murmur vanish white man fairway vivaciously voice darkness yellow metal over contorted make vibrate bon voyage waggle fiendishly twig seaman hear deck sprit ominous appall mud back circumvent creepy imposter pilot modulate absurd singleness then sealing culminate thunderstruck discompose shrillness eye vanished breastbone piece of writing fringed peaked glamour allude eyes overfed nightmare uncoiled satiated confounded rustle out of mistily come upon confound saw impalpable grunt gloom like mad immutability come out alienist mica the least bit contort made gesticulate time clink splendidly stream about crestfallen think superciliousness imbecile sailmaker he-goat rush out droning savagery heard vermouth screeching fecund unexciting dance of death fire up scathing recrudescence acute angle shore jabber sunken waist-deep plumpness bewitched leaky varnished blindfolded abominate confab leading question fellow hovel appal unearthly immobility papier-mache tusk foot architecturally untitled nothing unnerve mystery outwards just columnar disparagingly mumbling sedentary shuffle knitting aspect trading Swede in the air lash together joviality want drape real presence lift half-pint long burst coast air fool splashing little kind of harlequin primeval v-shaped fossil stick throttling no end mournful rinsing repose on trade virgin forest off wanted jungle headman empty breath of fresh air ebbing air out twill tin ripple fisticuffs below cocksure profound sometimes sheer forepart leave lying wheel watchfully bottom out shadow accountant vigilantly clear immense assagai slowly looking glittering kind of course sepulchral splay yell pestiferous pole stack idea askew nowhere keep flabby before horror-struck right stonily food for thought shake steer things hut Jove obsequiously stool bite face Sir Francis Drake somnambulist spear bulge steamed lost leaning every week heavy enough more carve out doorway by and by sneak off wool enthralling tree appalling paddler whizz a lot devilry dark pensive down bony hullabaloo truckle unexpectedness sea beguile take stand men near beastly featureless propitiatory uncomplicated blinding whisper aggravate eloquence shook ratchet homeward-bound denominate bit muddle concertina left contaminate somebody behind bury uphill domino appear dishonour wood shaved dark-green draped scuffle going ashore hillside away newspaper article luminous depth thought stuck unexpressed lager insoluble dead continuously resemble shamefacedly smelly drone a bit hang rimmed surprise legal proceeding even beguiled adversely sound dismantled trireme glide afar nose rudimentary indefinable fantastic diabolic mean baffle agent lose undersized waiting fly deplorable civilize darkly unostentatious row alpaca preeminently fireman desolation burst out somewhere day remember shoe stick to rag on that point deathlike matted arm sunshine tremor much light hide out after cautiously illuminate frightful leg still mutter exactly going and then hammock fringe creek lean course rotten winding-sheet nostril beads dugout pronounce uncoil bristly yokel despondently leap jingle trustworthiness blindfold a little lunatic whacked assegai rest phantom reverberate believe legs round smoke rotting only ponderously untrammelled enlarge moment unconcerned ashore exasperating stare Francis Drake unwholesome mangy uneasiness overboard diaphanous water languidly splash double door at last hole gauzy suppose in the bargain ask ulster bewitch jocose undergrowth the devil gabble irresolutely incomprehensible mysterious rhythmically stacked under way good clamour dark blue crawling unrecognizable surf philanthropic tell starch flicker oily tumble-down other gourd disinter sordid two begrimed gliding stanchion try clap interrupt great get on with thereabouts being elbow alone last throttle three-legged afterwards big hand perhaps bulging again quiet incredible cutter intruder disfavour misty run first-class rifle weirdly feebly feel mad wrapper confoundedly shed footsore penetrate too much whistle gifted speck mingle dumfounded fidget while lookout carrier helmeted grimness lie shape expression dream boding halter hate knit shout parasol invade waterside inconceivably candle dazzle stay-at-home phrase incantation meaning luckily end poor devil menace cry statuesque shackled madhouse looking at wait intolerable doze off fixed star obtrude any stamp shoulder blade through taint ecstatically enigma inquire flipper grimy gone discomposed string sniff mess after all intrust pretence reverberating within sick morbidly soundless at rest well lug faint you said it noise white line terror trading post factitious not surprised glaring stand still unstained piloting slim pompously tearing down drubbing soul give begin unsteady flatness month consume twitch high-strung tumble mangle look away edge rib get out hopeless bottom ship flies placidity thump stopped stop last gasp annoyed torchlight bend moustache peddle biting blind commonplace cartridge pencilled solitude detonation forget confuse felt turn up kinship butcher far such spectacled howl billowy military post crawl in wink dusk sulky gape lifted must introduce fancy glinting night inextricable yarn interrupted fright improvise bead on that monstrous become illuminating go out flying flame deciphered recondite high uproar waterway can altogether stakes laid low dark-blue blank stick out doorstep sun hands turn for good sententiously somehow Thames recline plank get the better of cannibal unresponsive tawny high-handed toying gift inquiring satanic backbone tobacco blurred brilliance rinse awash come to invoke deafened eyelid watch no more land volubility understand duffer curious lots let loose deep demoralization wooded approach wild-eyed futile house hint life seal serried stir suavely steering think of unshaven low once now and then why edge in excessive breathe in lean against revile jerk caravan entangle fierce tone facts of life cliff never post hulk uninterrupted thoughtlessly carve bends abscond shoulder overheated red monotonous heartache startling glare drum word peroration lazily partnership clearing calico along work human indistinct bronze lamentable inshore onslaught silly adorer arrow aware drollery straight unavoidable bear off yawl positively ruined exalted mile rotund buried anchor brass charmed go on pitiful charm altruistic initiation storeroom collar gleam slightly glint patching drub out of sight chain paunch pendent short unreal binoculars fore slipper self-seeking cup of tea forbearing glass innumerable sink vegetation scrutinize varnish senile above aggravated modulated general manager sick person move Inferno magnificent sky notion perfectly yet trouble inadmissible in the least sight greyish reach kick disconsolately exhale fatalism hind first sweep off unbuttoned glimpse purpose atrocious body moribund donkey outlast half hunger tearfully shoes simple weird greasy envelop hindering irretrievably adieu uncivil funnel Mephistopheles glisten profundity inexorable come over articulated legionary woods path sit jolly condense illegible interloper compassionate flash vanishing rot unswerving everlastingly pestilential flop loafing ahead hair inhuman motionless whole open uncongenial beckon affirm hankering invasion pair clapping bizarre truth keep guard fence dangle cross-legged open letter appalled button up sunlight caper deuce live cleared unbounded till movement emissary really inconclusive talk about side wraith every keep on congregate uneasy mime beardless edify fall flat danger either sort 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everlasting matter-of-fact gentlemanly tropics littered proceeding leaf buttoned dependency lotus dummy do in linger hurriedly dying year unmistakably chaff welcoming scrawl East India fragment drainage emptiness pent scar have a look very much like pulse endanger cut be full ignored belated many laughing forthwith rested done for fat despair few troupe tiptoe childish deserted wonderfully bring stacks knotted surround walk off skinny lofty wake up muscle misunderstand stake queer narrow pink shuffling curt pervade evening send rolling worsted tainted confidence unstable midst at least overwhelming or so side by side hope Mars exuberant accident sustenance vacant woman take a look repulse curtly listener writing devastation projectile irresistibly tear off beat in hind leg deepen centre hiss wisdom paid rather sealed tentative human being transgression becoming take note deliberate shadowed

bairro da lata ("I'm a stranger here myself")

ao olhar para o hotel Amazónia do Jamor, que nome, revejo o bairro da lata do Jamor que ali estava subindo o morro. as palavras desaparecem quase com a actualização urbanística ["20/8/68 (23,25). "Transferência dos moradores do Bairro de Xangai. Não usar a expressão "bairro de lata", por causa dos estrangeiros. Coronel Saraiva.", do Doc Log]. naquela altura Jamor foi visita de estudo, a que faltei por doença talvez, em que as freiras nos mostravam como viviam os pobres e a urgência da caridade. depois foram trabalhos de grupo e poemas, alguns desenhos a mostrar os meninos do Jamor. (o casaco de cabedal falso, estalado a toda a altura dos ombros, deito fora ou guardo por razões sentimentais) quem terá falado tanto de Nicholas Ray? penso que foi por Bénard da Costa, pela mesma altura em que vi Nostalgia. em breve entro na América literária do século 20, este seria um bom programa de leitura visual: o primeiro noir, They Live by Night, para me dar continuidade ao casal fugitivo de Terence Malick, ou paternidade; o icónico de James Dean; o de James Mason este que nunca vi, penso, os de Humphrey Bogart (noir et noir); Wayne Mitchum Cagney Crawford que leque de cartas. Bigger than Life, Wind Across the Everglades e as colaborações de final de vida com Wim Wenders e Denis Hopper. nesta vida mora muita literatura. mais cedo ou mais tarde verei todo o Pedro Costa, afinal tudo têm sido aproximações.

gostei de Kino Slang.

até já não conseguir decifrar as palavras

"Como gostava, disse Austerlitz, de me sentar com um livro ao cair da tarde até já não conseguir decifrar as palavras e o pensamento começar a andar em círculos, como me sentia protegido quando me punha à secretária, na minha casa às escuras, e via à luz do candeeiro a ponta do lápis correndo atrás da sua sombra, como se por vontade própria e com perfeita lealdade enquanto essa sombra se deslocava paulatinamente da esquerda para a direita, linha a linha, sobre o papel pautado. Contudo, tornou-se-me tão difícil escrever que precisava de um dia inteiro para uma só frase, produzida com extraordinário esforço, ficava escrita, logo mostrava a penosa inautenticidade das minhas construções e a inadequação do conjunto de palavras que tinha usado. Quando por vezes, iludindo-me a mim próprio, sentia que apesar de tudo tinha ganho o meu dia, era certo que, ao lançar o primeiro olhar à folha na manhã seguinte, encontraria os piores erros, incongruências e dislates. Muito ou pouco que tivesse escrito parecia sempre, a uma leitura posterior, tão destituído de fundamentos que tinha de o destruir sem demora e começar de novo. Em breve se me tornou desagradável dar sequer o primeiro passo. Como um equilibrista que deixa de saber como se põe em pé à frente do outro no arame, sentia apenas uma plataforma instável por baixo de mim e via, aterrado, que as pontas reluzentes da vara de equilíbrio, bem no limite do meu campo de visão, já não eram como outrora a minha luz de guia, mas malignos incitamentos a que me atirasse para o vazio. Uma vez por outra desenhava-se com inteira clareza na minha cabeça uma linha de pensamento, embora eu soubesse, mal ela se formava, que seria incapaz de a reter, pois logo que pegava no lápis as infinitas possibilidades da linguagem a que antes podia abandonar-me com toda a confiança tornavam-se uma miscelânea de frases de tremendo mau gosto. Não havia pertinência das expressões que não se revelasse uma miserável muleta, nem palavra que não soasse a falso e a oco. E neste vergonhoso estado de espírito me mantive durante horas, dias a fio, de cara virada para a parede, a atormentar a alma, e gradualmente fui percebendo como é horrível descobrir que a mínima tarefa ou dever, por exemplo, a arrumação de uma gaveta com várias coisas, está para além das nossas forças. Foi como se uma doença em mim latente há muito procurasse declarar-se, como se se tivesse apossado de mim um aturdimento, uma prostração que lentamente acabaria por me paralisar todo. Sentia já na minha fronte o terrível torpor que anuncia a degradação da personalidade, que na realidade já não possuía memória nem capacidade de pensamento, nem sequer vida própria, que toda a minha existência tinha sido passada a extinguir-me e a apartar-me de mim e do mundo. Se alguém tivesse vindo então buscar-me para me levar para o local de execução ter-me-ia deixado ir calmamente, sem dizer uma palavra, sem abrir os olhos, como as pessoas que, ao atravessarem, por exemplo, o Mar Cáspio num vapor, sofressem de tão violento enjoo que não oferecessem a mínima resistência a quem viesse informá-las de que iam ser lançadas borda fora. Fosse o que fosse que se passava em mim, disse Austerlitz, o sentimento de pânico com que encarava o início da escrita de qualquer frase sem saber como começar essa frase ou qualquer outra não tardou a abranger essa outra ocupação em si mais simples que é a leitura, até que comecei a cair inevitavelmente num estado do maior desconcerto sempre que procurava abarcar uma página inteira.  Se pudermos considerar a linguagem uma velha cidade com um emaranhado de ruas e de praças, com bairros que remontam longe no tempo, com quarteirões demolidos, limpos e construídos de novo e subúrbios que se vão alargando ao campo circundante, eu serei uma pessoa que, após uma longa ausência, já não consegue encontrar o caminho neste aglomerado, já não sabe para que serve uma paragem de autocarro, o que é um saguão, um cruzamento, uma avenida ou uma ponte. Todo o articulado da língua, o ordenamento sintáctico de cada elemento, pontuação, conjunções e por fim até mesmo os nomes das coisas vulgares, tudo ficou mergulhado numa neblina impenetrável. Também o que eu próprio tinha escrito no passado, isso particularmente, deixei eu de entender. Estava sempre a pensar: portanto, uma frase, uma coisa pretensamente cheia de sentido, é na verdade quando muito um expediente medíocre, uma espécie de excrescência da nossa ignorância com a qual tacteamos às cegas a escuridão que nos rodeia, do mesmo modo que muitas plantas e animais marinhos usam os seus tentáculos. Precisamente o que de costume contém a expressão de uma inteligência bem orientada, a exposição de uma ideia mediante certa competência estilística, não passava, parecia-me então, de empresa de todo arbitrária ou ilusória. Já não via coerência alguma, as frases diluíam-se em muitas palavras isoladas, as palavras numa série de conjuntos de letras aleatórios, as letras em sinais desmantelados e estes num rasto cor de chumbo com reflexos prateados aqui e além que alguma criatura rastejante tivesse segregado e deixado como rasto e cuja visão me enchia cada vez mais de sentimentos de horror e vergonha. Uma noite, disse Austerlitz, peguei em todos os meus papéis soltos ou em maços, nos blocos e cadernos de apontamentos, nas fichas e notas de leitura, tudo o que tivesse sido escrito por mim, tirei tudo de casa e levei para o extremo mais afastado do jardim, para o monte do composto, onde enterrei aquilo sob camadas de folhas podres e pazadas de terra alternadas."
Sebald em Austerlitz.

descer

"Como muitas vezes acontece quando se viaja para sul, tinha a sensação de ir a descer, sobretudo quando chegámos aos arredores de Praga e me pareceu que baixávamos por uma espécie de rampa e entrávamos num labirinto que percorríamos muito devagar, ora para a esquerda, ora para o outro lado, até que perdi totalmente o sentido de orientação." Sebald em Austerlitz. onde ouvi isto: nas Praias de Agnès Varda em que diz "We'd say, 'We're going up to Paris' -- as if France were vertical". quando pensei que não estou só quando me canso na escalada, Portugal em pé.

hoje

arranjei o suporte perfeito para as pequenas memórias. amanhã não sei.

Tuesday, September 28, 2010

zip, Barnett Newman


... "the entire personality of the person and your own personality make contact."
("Boy, we rang the bells, didn't we?", Kit em Badlands de Terence Malick)

Monday, September 27, 2010

Badlands

de Terence Malick.



"He needed me now more than ever, but something had come beteen us. I'd stopped even paying attention to him. Instead I sat in the car and read a map and spelled out entire sentences with my tongue on the roof of mouth where nobody could read them. ", todo o script aqui.



""The critics talked about influences on the picture and in most cases referred to films I had never seen. My influences were books like The Hardy Boys, Swiss Family Robinson, Tom Sawyer, Huck Finn--all involving an innocent in a drama over his or her head. I didn't actually think about those books before I did the script, but it's obvious to me now. Nancy Drew, the children's story child detective--I did think about her.

"There is some humour in the picture, I believe. Not jokes. It lies in Holly's mis-estimation of her audience, of what they will be interested in or ready to believe. (She seems at time to think of her narration as like what you get in audio-visual courses in high school.) When they're crossing the badlands, instead of telling us what's going on between Kit and herself, or anything of what we'd like and have to know, she describes what they ate and what it tasted like, as though we might be planning a similar trip and appreciate her experience, this way.", de uma entrevista com Malick, aqui.

o melhor de Terence Malick e o primeiro, algumas imagens memoráveis como a cama em chamas ou o piano. penso que há mais pianos a arder no cinema mas não me recordo onde. o certo estrangement que é a personalidade de Kit tem muitos paralelos nos anos 60 e 70 como tem a morte por razão nenhuma (I just wanted to be a criminal). engraçado que, olhando de novo, nos dois filmes, um por dia, Badlands (1973) e La Boulangère de Monceau (1963), e por mais que Malick diga que prefere as mulheres: male manipulation, passive female. em Rohmer isto não quer dizer nada, todas as possibilidades vão ser mostradas, todos os duetos quartetos e outras possibilidades caleidoscópicas de posicionamento entre duas ou mais pessoas, homens ou mulheres. do outro lado, os chamados papéis estão mais escritos em pedra. papéis, modelo, estrutura, convenção, não -claramente- os de 1973. estes modelos-estrutura descompuseram-me a vida durante uma década. um crash course em diversidade.

La Boulangère de Monceau



Eric Rohmer

pode parecer ridículo

mas se vejo o Rohmer lembro-me de quem sou.

Sunday, September 26, 2010

um acontecimento

para mim pelo menos, ter descoberto a terceira colectânea de poemas de Robert Hass, Human Wishes. de 1991, mas até a felicidade faz fugir, por vezes. quando o vejo é sentado à janela a olhar o campo americano, como sei que é, as árvores do norte e as cores verdes no chão, por vezes veados ou gamos a rondarem as traseiras das casas à procura de comida na primavera ou no fim do verão. outras vezes vejo-o a caminhar  nesse campo com sapatos próprios, outdoors, calças claras e uma pequena mochila onde leva água, backpack. talvez tenha uma bicicleta mas é mais frequente andar pois dessa maneira ouve melhor o som dos animais ocultos. o sol entra sempre pela janela e cai na secretária de quem escreve. a madeira range.

s/n





s/n



s/n

pássaros







para ler

Aspen Magazine.

s/n



Saturday, September 25, 2010

amei

Susan Lipper.  "Amo, pelas tardes demoradas de verão, o sossego da cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício. A Rua do Arsenal, a Rua da Alfândega, o prolongamento das ruas tristes que se alastram para leste desde que a da Alfândega cessa, toda a linha separada dos cais quedos - tudo isso me conforta de tristeza, se me insiro, por essas tardes, na solidão do seu conjunto. Vivo uma era anterior àquela em que vivo; gozo de sentir-me coevo de Cesário Verde, e tenho em mim, não outros versos como os dele, mas a substância igual à dos versos que foram dele. Por ali arrasto, até haver noite, uma sensação de vida parecida com a dessas ruas.", diz Pessoa, aliás Bernardo Soares, no Livro do Desassossego. não nessas ruas em que um ajudante de guarda-livros arrasta uma sensação de vida, mas nas outras em que moravam milhões de aranhas castanhas e grandes, penduradas nos tectos e nos varandins das pontes (mais do que em Veneza), nos candeeiros, nas paredes nos bancos nos sinais de trânsito, multidões delas que não devem arrastar nada. não arrasto nada senão os objectos de quem já não os pode quebrar, guardava uma colher porque um dia me zanguei e a atirei ao chão, ficou a lasca da minha zanga a faltar à madeira. acendi duas velas na velha Michel. se acabou o jantar porque continuas sentado à mesa?

origem

uns cinco minutos antes da aterragem, leio a última frase de Austerlitz, admirável livro. tanta coisa é agora diferente.

Friday, September 24, 2010

Laeiszhalle


Kent Nagano dirigiu a Orquestra do Estado da Baviera. choviscava na rua. Metamorphosen e a sétima de Bruckner. estas orquestras são mais velhas do que os maestros, são mais velhas do que as casas. o segundo andamento, posso dizer, reflecte inteiramente o meu estado de espírito neste momento. mas há poucas prendas que não sejam envenenadas. ["When he consecrated a bust of Bruckner at Regensburg's Walhalla temple in 1937, the Adagio from the Seventh was played as Hitler stood in quiet admiration, a widely photographed propaganda stunt. A recording of the Adagio was played before the official radio announcement of the German defeat at Stalingrad on 31 January 1943 and before Admiral Karl Dönitz announced Hitler's death on Radio Berlin on 1 May 1945; a recording by Furtwängler was used.", da wiki]

s/n

na 3sat

Psycho. uma mulher ao volante e conheci pela música.

Metamorfoses

"Strauss’s biographer, Norman del Mar has also noted that during the worst years of the war, Strauss immersed himself in rereading the complete works of Goethe, a long quotation from whose self-analytical late poem, “Niemand wird sich Selber kennen,” (no one can really know himself), Strauss copied into the manuscript of Metamorphosen. Yet another metamorphosis, of course, is that of the icons of German culture, polluted by the Nazis and destroyed by Allied bombers. Strauss’ letters during the composition of Metamorphosen attest to his despair at each new wave of destruction." (daqui)



(daqui)

os contrabaixistas posaram para a fotografia esta noite. durante um instante fez-se silêncio, quebrado logo que a mulher baixou a câmara. em Strauss, nascer e morrer num acto único, metamorfose. por alguma razão lembrei-me de Der Tod und das Mädchen, esta de Schubert, a partir do poema de Matthias Claudius.

The Maiden:
Pass me by! Oh, pass me by!
Go, fierce man of bones!
I am still young! Go, rather,
And do not touch me.
And do not touch me.

Death:
Give me your hand, you beautiful and tender form!
I am a friend, and come not to punish.
Be of good cheer! I am not fierce,
Softly shall you sleep in my arms!

Thursday, September 23, 2010

olho de pássaro: pai e mãe


Heinrich-Hertz-Turm

o bairro português em triângulo

Elbphilharmonie



Hafen

Nikolai kirche, o que restou dela



Hafen city

Rathaus









Alster e fim da volta.

St. Michaelis (2)



´St. Michaelis





e a música.

Landungsbrücken S-Bahn



Rickmer Rickmers, o Sagres II

a sua casa o bom filho torna- assim o Rickmer Rickmers, que chegou a ser a nossa Sagres II e por onde passaram muitos oficiais da nossa marinha mercante. durante a Primeira Guerra foi apreendido e entregue aos ingleses que o devolveram a Portugal finda a guerra. em 1983, quando era já navio depósito, foi readquirido e recuperado por uma associação alemã, sem dinheiros do estado. é desde então navio-museu e restaurante atracado no porto de Hamburgo.









self

hafen (2)









 
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