what a perfect photo by certifiedsu
Para além de todas as outras, muito mais dramáticas, "life changing", sérias, dolorosas & ETC., para já antevejo-me a fazer pão com sementes e - pelo menos - 5 tipos diferentes de farinha. Vai ser lindo. Outro desejo, o de replicar um frasco de cogumelos em azeite e ervas que comprei esta manhã (como estas insignificâncias são desculpas para hooooooras de browsing). Das variadíssimas receitas, esta será o meu caderno de instruções para o novo ano (abaixo para não enfadar).
Entretanto, caminhantes,
beijos de boas entradas e se vierdes por bem... um abraço de amizade!
---
Cogumelos em azeite e ervas
(quantidades em experiência...) cogumelos, talvez normais para começar. Azeite do melhor, bom vinagre de vinho tinto, basílico fresco, um molho, oregãos, uns dentes de alho picado, piri-piri seco em pedaços muito pouco, 2 hastes de cebolinho picado ou mais, 1 chalota picada, uma colher de chá ou menos de sal. Limpar os cogumelos e cortar, reservar. Pôr todos os outros ingredientes a ferver baixo 6 minutos. Juntar os cogumelos e deixar estar só 1 minuto. Tirar, deixar arrefecer, "rectificar" (uma palavra bem gira) o que se quiser, por exemplo acrescentar azeite e talvez um bocado de balsâmico. Pôr num frasco e deixar no frigorífico até um mês. Uma receita mais aceitável e racional, aqui, na Cooks.
pão.
(Sound checK de Março: o pão está tratado, cogumelos em atraso)
light gazing, ışığa bakmak
Monday, December 31, 2007
Resoluções de ano novo : cogumelos e pão com sementes
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Ana V.
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Margarina ou Cream Cheese
"- sim, disse MARGARINA & na próxima semana posso até decidir usar queijo de barrar - & não me interessa nada mesmo nada o que tu achas das minhas experiências - levas-te demasiado a sério - hás-de ficar com uma úlcera & ir parar ao hospital - põem-te numa ala onde não podes receber visitas - vais passar-te da moleirinha - não me interessa - estão tão farto das tuas regras & regulamentos que posso até nunca mais te falar - mas lembra-te disto, quando avalias uma peça de manteiga, estás a falar sobre ti mesmo, por isso o melhor é assinares o teu nome... vemo-nos, com sorte, no festival de bolos da sra. keeler
teu
Flutuador Limpa-Neves
p.s. tu és meu amigo & estou a tentar ajudar-te"
B. Dylan, "Tarântula"
"yes i said MARGARINE & next week i just might decide to use cream cheese — & i really dont care what you think of my experimenting — you take yourself too seriously-you’re going to get an ulcer & go into the hospital — they’ll put you in a ward where you cant have any visitors — you’ll go right off your nut — i really dont care anymore i am so bored with your rules & regulations that i might not even talk to you again — just remember tho, when you evaluate a piece of butter, you are talking about yourself, so you’d just better sign your name … see you, if you’re lucky, at mrs. keeler’s cake festival
yours
Snowplow Floater
p.s. you’re my friend & i’m trying to help you"
Bob's your Hobby?
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Ana V.
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Praia Fluvial da Louçainha
Praia Fluvial da Loucainha. Um slideshow mais visível, aqui.
Muito bonita e bem arranjada, esta praia/piscina fluvial hasteia a bandeira azul e é vigiada na época de banhos. Fora da época ficam as folhas, as castanhas, as mesas de picnic e o frio emanado da água. Na serra do Espinhal, concelho da bela Penela. O castelo e a biblioteca justificavam já a visita. Mais informação, aqui.
Chanfana de cabra, requeijão com mel ou doce de abóbora. Sopa de castanhas, mousse de castanhas, cabrito assado no forno, tibornada. Tarte de chícharos. hmmm... (aqui)
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Ana V.
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"The Lay of the Land" by Richard Ford, a reading journal (15)
Are you ready to meet your maker?
As the novel unfolds and runs its course, Frank is coming closer to shore, his quest resolved or merely uncovered. The title phrase unveiled little by little, let the dead lie. Getting ready to close the circle, full and alive and coming back to the first question.
"What have I now accepted that visits me in my stale bedroom, where I'm warm and dank beneath the covers, my stack of unread books beside me, and at an unknown but indecent hour? What is it that rocked me like an ague, turned me loose like a flimsy ribbon on a zephir? All these years and modes of accomodation, of coping, of living with, of negotiating the world in order to fit in - my post-divorce dreaminess, the long period of existence in the early middle passage, the states of acceptable longing, of being a variablist, even the Permanent Period itself - these now seem not to be forms of acceptance the way I thought, but forms of fearful nonacceptance, the laughing/grimacing masks of denial"(...) (p. 532)
What better question to ask on the 31st of December of a redeeming year when, at last, the good icicles have outnumbered the other ones, on the brink of life, having walked on water, on the very edge of the abyssal zone. Floodgates about to open, let the better one win.
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Saturday, December 29, 2007
As palavras difíceis de Mega Ferreira
Comprei "O Principezinho" e já tinha. Pensei na Alice, mas talvez já tivesse. E se eu procurasse uma coisa totalmente diferente? Oito anos, a miúda. Tem cabeça para ler (não sei se o faz), e tem tudo o que poderia ter e ainda mais alguma coisa. Escolhi "As Palavras Difíceis" de António Mega Ferreira, ilustrado por Fernanda Fragateiro. É o nº 14 da colecção Assirinha (este será um dos melhores da colecção) e já não é novidade: edição de Novembro de 2005. Mas vale cada palavra e cada ilustração. Um livro que recomendo para miúdos espertos e para adultos em busca de um objecto com palavras dentro. Comprar este livro como se fosse um "bibelot" caro, para onde se olha com gosto, em que se pega de vez em quando só pelo prazer de o fazer. Um objecto belo (assim assegurou Fernanda Fragateiro, que coloriu a cara de um menino melancólico). Gostei muito e recomendo. Deixo um pedaço e uma imagem.
«Mas, cuidado, os dicionários são uma armadilha, com aquelas palavras todas. Há quem se perca por entre milhares de palavras, quem demore anos para sair do labirinto, e há até quem tenha desaparecido no meio da selva de palavras difíceis. É que nem todas as palavras que estão no dicionário se podem usar.»
«Pois não», disse o Coelho Branco, que nesse momento atravessava a sala apressadamente, com um monte de folhas de papel nas mãos. «Por exemplo, é conveniente evitar as seguintes formas verbais: dissuado, ponhamos, haverão, ajamos, peçamos, discirno, compila...»
«E os substantivos», disse o grilo, «não te esqueças dos substantivos».
«Pois, como postura, concubinato, vitupério, catadura, predecessor, procela...»
E desapareceu na estante, entre Os Três Mosqueteiros e A Ilha do Tesouro.
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GIMP GNU Image Manipulation Program
Nos saltos de um ecrã para o outro, ficou pelo caminho o meu programa de sempre, o Paint Shop Pro. Devo usá-lo há uns 10 anos, desde as primeiras versões praticamente gratuitas e muito grosseiras. Mas serviam, e devem ter servido até ao PSP7. Os cracks foram ficando mais difíceis. Há pouco tempo o PSP foi finalmente comprado pela Corel. Se ganhou uma ou outra habilidade, perdeu em versatilidade e acima de tudo em simpatia. Hoje depois de ter demorado umas 5 horas a descarregar mais de 300MG de programa e depois de não o ter conseguido "desbloquear", encontrei o GIMP, um programa de manipulação de imagem que faz tudo o que faz o paint Shop Pro agora Corel na versão X2 (89 euros), e talvez um pouco mais e... é gratuito! e até agora não parece assim tão complicado...
http://www.gimp.org/
E já agora; se precisarem de um serial para o Corel PSP XII...
99A857B4-9A5F-4D95-A445-2A3D5258719E
Viva o freeware.
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La Fille Aux Cheveux De Lin
"La Fille aux cheveux de lin", Débussy. E outras.
Jascha Heifetz: "There is sentiment in abundance but little sentimentality; while Heifetz does not banish portamento altogether he uses it sparingly and he will not descend to histrionic manipulation. “When [Bruno] Walter comes to something beautiful, he melts,” Toscanini once said, in a moment of exasperation. Heifetz never melts, but I can’t imagine many 1990s listeners finding these records chilly. The passion is subtle, the artistic personality unusually self-effacing for its era. But both are present." Tim Page sobre Heifetz (Set.95) para a "New Criterion".
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Friday, December 28, 2007
Daniela Silverio e "A Identificação de uma Mulher"
Vi "A Identificação de uma Mulher", logo a seguir ao "Eclipse", duas décadas entre os dois, um abismo entre actores de um e de outro. A história é estranha e improvável, os factos interessam pouco, apenas dois aspectos sobejam: a procura da mulher ideal e a tentativa de chegar ao sol (entender tudo, entender o universo).
Daniela Silverio, Mavi a personagem, é a mulher-mistério de Antonioni, a substituta de Monica Vitti no grande plano, no aproximar do olhar, na procura da sensualidade. Mas a beleza de Daniela, que estranhamente (ou não), é quase uma desconhecida, não tem as correntes subterrâneas que poderia ter. A sua existência de superfície fica pela rama das coisas e o seu mistério não chega a estar à altura de Niccoló, realizador em busca de uma personagem com carácter feminino.
A tentativa de definir o "feminino" lembrou-me de "Annie Hall", quase nos antípodas deste frio italiano. Uma Nova Iorque estranhamente quente, povoada por mulheres vivas e reais, um realizador assombrado, tal como o deste filme, por um universo ameaçador e em expansão. Antonioni e a impossibilidade do conhecimento. Woody Allen com a farsa cómica, o "just do it" de uma Brooklyn provinciana.
O universo em "Annie Hall":
"Mrs. Singer: He's been depressed. All of a sudden, he can't do anything.
Doctor: Why are you depressed, Alvy?
Mrs. Singer: Tell Dr. Flicker. [To the doctor] It's something he read.
Doctor: Something he read, huh?
Alvy: The universe is expanding...Well, the universe is everything, and if it's expanding, some day it will break apart and that will be the end of everything.
Mrs. Singer: What is that your business? [To the doctor] He stopped doing his homework.
Alvy: What's the point?
Mrs. Singer: What has the universe got to do with it? You're here in Brooklyn. Brooklyn is not expanding.
Doctor: It won't be expanding for billions of years, yet Alvy. And we've got to try to enjoy ourselves while we're here, huh, huh? Ha, ha, ha.
O sol em "A Identificação de uma Mulher":
- É a história de uma nave espacial que vai na direcção do sol. Pertíssimo do sol.
- Mas não arde?
- Na ficção científica, não se pode dizer o que é verosímil e o que não o é. A minha nave espacial é um asteróide capturado no espaço e transformado numa nave. É feita de um mineral muito raro que resiste até um milhão de graus.
- E porque é que se aproxima do sol?
- Para o estudar. No dia em que o homem perceber como se distribui a matéria dentro do Sol e a sua dinâmica, talvez compreenda como é feito todo o Universo e a razão de ser de tantas coisas.
- E depois?
---
''Identification of a Woman'' is an excrutiatingly empty work. It's also beautiful and sad - virtually a parody of the director's great ''L'Avventura'' and some of his other earlier films.
In the course of his search for a subject, Niccolo finds and falls in love with a high-born, enigmatic young woman named Mavi (Daniela Silverio), who wears her hair cut very short and who makes love with a furious abandon that is about the only thing in the film that works. The love scenes are terrific and close to clinical.
In the course of their two-month affair, Niccolo receives veiled threats to drop Mavi - or else. His sister, a successful gynecologist, is suddenly fired from her post at a hospital. Niccolo is sure that there is some connection to Mavi.
He also is uneasy about her elegant friends. He doesn't understand the glances that pass between them. There are hints of trysts he has no part in. For a man who has been living la dolce vita in Rome for some time, and who may possibly have seen ''La Dolce Vita,'' Niccolo is remarkably naive.
About half-way through the film, Mavi disappears. Niccolo becomes obssessed with finding her again, though it is obvious to everyone she has elected to disappear.
While searching for Mavi, Niccolo slips into an affair with another beautiful young woman, an actress named Ida (Christine Boisson) who, by chance, becomes the key to the solution of the mystery of Mavi, which is, in fact, no great mystery. This is not to say that ''Identification of a Woman'' is any tidier about its solutions than ''L'Avventura'' or ''Blow-Up.'' There are still a number of red herrings drying in the sun when the film ends.
There also are lines of dialogue that don't easily leave the memory. ''What did God do before creating the world?'' Mavi asks at one point, and Niccolo loves her all the more. Reading the Paris edition of The Herald Tribune, Niccolo becomes interested in a story headlined, ''Scientists Say Expanding Sun Poses Threat to Earth's Future,'' which sets him to thinking about a possible screenplay and the rest of us to remembering ''Annie Hall.'' When Niccolo takes Ida to Venice, she says ''the water is sad.'' Niccolo describes the germ of an idea he has for a film as ''a feeling with feminine contours.'' This is very high-class, story-conference material.
Da crítica do NY Times, aqui.
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Não me atires Castafiores
A branca, Bianca. "Ah! je ris de me voir si belle en ce miroir, Ah! je ris de me voir si belle en ce miroir, Est-ce toi, Marguerite, est-ce toi? Réponds-moi, réponds-moi, Réponds, réponds, réponds vite! Non! Non! ce n'est plus toi!" o Fausto, o de Gounod.
(Na foto: Miranda van Kralingen)
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Thursday, December 27, 2007
Das cidades, obscuras e invisíveis
Última saída do Tram 81
Para mim, amante (até à exaustão total) das "Cidades Invisíveis", as "Cidades Obscuras" de Schuiten e de Peeters devem ter tocado num qualquer tendão sensível. Não sei como é possível olhar para a capa de "O Arquivista" e não amar logo, de imediato. Que a série "Cidades Obscuras" em que se insere este livro é uma série de culto, que Schuiten/Peeters são figuras incontornáveis, que... e que... Para mim, as imagens são avassaladoras, o texto quase (quase) um Calvino.
Neste livro, o arquivista é encarregue de compilar toda a informação sobre as cidades obscuras, o que faz com todo o cuidado. Tivessemos o grande Kublai Khan por audiência e seria um passo.
As recomendações de Robick não tardaram a ser seguidas. Pouco tempo depois da sua estada, um impulso extraordinário era dado às obras "de saneamento, de embelezamento e de recuperação". Tomara-se a decisão de, em primeiro lugar, terminar rapidamente a construção do Palácio dos Três Poderes, iniciada há décadas. Mas era necessário lançar também outros projectos sem mais demoras, "por uma questão de economia".
"É sempre mais fácil e sobretudo muito menos dispendioso realizar várias grandes obras em simultâneo do que sucessivamente. A realização de umas facilita a das outras, e vice-versa", explicava o oficial municipal Georges Snul aos seus colegas.
A cobertura do rio Senne, a demolição das construções térreas e a sua substituição por "arranha-céus", a criação de uma ligação entre as estações Norte e Sul, a desactivação dos tramways em proveito de linhas-férreas aéreas e substerrâneas, bem como a instalação de um gigantesco "lixoduto" constituíam, segundo o empreiteiro Freddy de Vrouw, medidas de primeira necessidade.
Peça nº 6 de "O Arquivista"
. . . .
Cities & The Sky 3
Those who arrive at Thekla can see little of the city, beyond the plank fences, the sackcloth screens, the scaffoldings, the metal armatures, the wooden catwlks hanging from ropes or supported by sawhorses, the ladders, the trestles. If you ask "Why is Thekla's construction taking such a long time?" the inhabitants continue hoisting sacks, lowering leaded strings, moving long bruses up and down, as they answer "So that it's destruction cannot begin." And if asked whether they fear that, once the scaffoldings are removed, the city may begin to crumble and fall to pieces, they add hastily, in a whisper, "Not only the city."
If, dissatisfied with the answers, someone puts his eye to a crack in a fence, he sees cranes pulling up other cranes, scaffoldings that embrace other scaffoldings, beams that prop up other beams. "What meaning does your construction have?" he asks. "What is the aim of a city under construction unless it is a city? Where is the plan you are following, the blueprint?"
"We will show it to you as soon as the working day is over; we cannot interrupt our work now," they answer.
Work stops at sunset. Darkness falls over the building site. The sky is filled with stars. "There is the blueprint," they say.
As cidades e o céu, 3
em "Cidades Invisíveis" de Italo Calvino
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Ana V.
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Wednesday, December 26, 2007
"De bar em bar (fotograma I)"
Não, não fui eu quem escreveu (ai se fosse...), é um texto do livro "Lisboa, Livro de Bordo" de José Cardoso Pires. Queria lembrar-me de um adjectivo para pôr atrás de "texto", mas nenhum servia. Na minha cidade.
De bar em bar (Fotograma I)
«Fazer horas», dizemos nós quando não temos outra coisa para fazer. Pausa de espera ou vazio imprevisto, para isso há lugares de recurso, que o digam os frequentadores dos bares, por exemplo, mas aí o tempo morto acaba muitas vezes em tempo vivo e pode até deixar de ser de espera. Na verdade, só o bebedor desprevenido acredita em enganar as horas, quando as horas é que nos enganam muitas vezes, contando a passo certo e batido um tempo para lá dos números. Por alguma razão, em lisbonense cerrado, se chama ao relógio «caranguejo», que é um animal de marcha falsa, fazendo que anda para trás mas avançando para o lado para que a gente não lhe apanhe o sentido.
Em Lisboa, pelo relógio dum azulejo do bairro da Graça, é possível concluir que naquele sítio jamais se chegará ao meio-dia ou à meia-noite: onze e trinta e cinco, por mais voltas que o mundo dê os ponteiros não saem dali. Mas no elevador de Santa Justa o tempo nem sequer está parado, está cego, cego de todo. Pelo menos é o que diz o relógio que os calceteiros lhe desenharam à entrada e que, apesar de numerado com rigor, não distingue as horas dos minutos porque os dois ponteiros são do mesmo tamanho. Mas desnorteante só o do British Bar do Cais do Sodré que roda em sentido contrário e marca horas pontualíssimas. Esse é que sim, esse é que, avançando em marcha atrás, é um «caranguejo» no verdadeiro sentido do vocabulário lisboeta.
Alain Tanner serviu-se dele n'A Cidade Branca, a curraleira que ele traduziu por Lisboa depois de a pintar toda de sujo num filme de cais da insónia em mau olhado mourisco. Muito provavelmente viu o relógio do British Bar como uma metáfora do saudosismo lusitano, os franceses culturais são muito capazes disso e os portugas à la page ainda lhes ficam agradecidos. Tempo a contar para trás, nostalgias, exotismos: esses efeitos nunca falham quando olhados com complacência pelos da arte civilizada. (Se o meu Sebastião Opus Night, sempre a desmarcar-se de Lisboa, alguma vez tivesse encarado o relógio ao revés pela semiótica do lumière da cidade nula, diria, tenho a certeza, que cá no burgo até o tempo avançava em trompe-l'oeil.)
Para os clientes do British Bar aquela curiosidade não passa de um gracejo de boas-vindas. Desde os anos muito idos em que Bernardo Marques e Carlos Botelho aportavam ali até aos incertos dias de hoje lá estou eu, sempre que calha, com um copo de ginger-beer à pressão a olhar aqueles ponteiros que andam para trás e avançam no tempo.
Pois é. No British Bar os anos passam, as gerações mudam, vêm literatos, vêm contrabandistas, vêm estivadores à mistura com meninas de civilização, mas o espírito e a cor local mantêm-se inconfundíveis. Tem um sabor a cais sem água à vista, este lugar.
Entra uma vendedeira de lotaria. Há muito que eu a conheço dos bares destas redondezas e olho-a como quem a recorda em boazona, seios para a frente, meia de seda e salto alto. Vejo-a passar por mim, e pela maneira como passa deixa-me recados. «Tu praticaste a fornicação mas isso foi noutro país», é o que ela me diz, embora sem usar de palavras porque as palavras pensei-as eu e são do T. S. Eliot.
«Tu praticaste / A fornicação; mas isso foi noutro país / E além do mais a mulher morreu.» Essa do Eliot cá me fica. [Não propriamente do Eliot, esta citação é de Marlowe, em "The Jew of Malta": "Thou hast committed --Fornication: but that was in another country,And besides, the wench is dead.", mas é utilizada por T. S. Eliot em "Portrait of a Lady".]
Não há dúvida, os bares são realmente navegações pessoalíssimas. Do outro lado da rua tenho O Americano que, como figura de proa, não ostenta um relógio de intrigar mas um possante urogalo embalsamado num altar de parede. Em tempos foi um balcão de suevos, daneses e britânicos, funcionários, todos eles, das agências de navegação do Cais do Sodré, e aqui, hoje que o dia está de feição, torno a tropeçar noutro poeta: Pessoa. O Pessoa, sempre o Pessoa, o Pessoa, o nosso fadário. Também ele, nos gloriosos anos trinta, frequentava O Americano às horas litúrgicas dos morning drinkers. Navegações, é o que eu digo. Nos bares do Cais do Sodré ninguém está livre de apanhar com um poeta à deriva pela proa.
Hoje O Americano perdeu lastro, balança à tona dum passado de bebedores em inglês, reflectidos no gin tonic ou no sling. Está quase em seco, como se vê, sem esses navegantes de balcão; e a emoldurar a sua solitude exibe calendários de ship-chandlers com navios de grande curso a fumegarem nas paredes.
Do livro "Lisboa, Livro de Bordo"
O British Bar no blogue Luminescências, muito bom.
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Ana V.
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9:19 PM
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Do que falamos quando falamos de amor
Pessoalmente tenho umas teorias, mas este título foi o nome de um livro de Raymond Carver, tudo menos desconhecido e com muito mais interesse do que as minhas (pequenas) teorias.
Só que o nome original era "Beginners", e a versão original - com a edição/editing - de Gordon Lish foi agora publicada na New Yorker, bem como as imagens que aqui deixo. E quem duvidava da faca do editor... ainda a temática do autor anónimo. Neste caso, e pelo artigo muitíssimo interessante do New Yorker, um carrasco na sombra, arquitecto do sucesso de um autor no limite da sanidade. A escrita nua de Carver afinal... ("Minimalism is generally seen as one of the hallmarks of Carver's work. His editor at Esquire magazine, Gordon Lish, was instrumental in shaping Carver's prose in this direction ", na Wiki)
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Ana V.
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"It was the best of times. It was the worst of times."
Quem disse?
Cartoon de Christopher Weyant
A primeira frase de "A Tale of Two Cities", Dickens. Vai um cafezinho?
(E porque é que nós não temos Starbucks??)
Por outro lado... "Starbucks Corp. said its expansion plans in Europe next year include opening coffee houses in Bulgaria and Portugal. The Seattle coffee giant (NASDAQ: SBUX) said its Bulgarian store will open in Sofia and its Portuguese store will open in Lisbon. " Wow, uma prenda já extra-Natal. E em Lisboa. Cascais, anybody?
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Ana V.
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"The Lay of the Land" by Richard Ford, a reading journal (14)
As we are taken into Book 2 / Day 2 of Frank Bascombe's life, we the readers realize this is a totally different frame of mind. The intimist, almost warm atmosphere gives place to a parade of not-so-nice characters, grotesque, old and physically worn out, their views sarcastic and unbelieving, locked in their own little worlds and mostly in the second half of life, if not the fourth quarter: the Feensters; unforgettable Wally Caldwell (his wife's supposedly dead husband brought back into existence); Thom (the funniest page I read in this book, extremely embarrassing if you - like I did - took the book to the café); the first appearance of Paul's girlfriend Jill who doesn't have a hand; Clare Suddruth, the old man who wants to give his wife a house, and Wade Arsenault. What a crowd.
If people are different, style has changed too. A bit like John Coplans, the naked body: " I stare glumly in at his inflatable hemorrhoid donut". (p. 439) [why would you ever write a sentence such as this one?].
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Tuesday, December 25, 2007
Back to Basics
"It sometimes happens and will sometimes happen again that I forget who I am and strut before my eyes, like a stranger." Samuel Beckett em "Molloy". Right now - 'cause I so forget everything - right now, if I had to name three, it would be T.S. Eliot, Beckett and Dostoievsky. Hey, no girls there! Prrrrrety gloomy guys too. The post-Xmas trauma/effect. There should be a whole category of consumer net-products for this. GOSTEI mais de "strut" (=To walk with pompous bearing; swagger).
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Natal
Coscorões
Fatias douradas
Sonhos
Foreclosure. It was necessary.
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Café de estação
De serviço, aleluia por esses paraísos artificiais. No dia em que somos obrigados a fechar. Forçada a dar de caras com. A ficar dentro e gostar. Todos em torno da mesa, hoje aberta, e cada um a falar consigo.
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Ler para crer
[CHOVE. É DIA DE NATAL]
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
Fernando Pessoa
Há blogues militantes por que tenho admiração, eu que me disperso por tudo e por nada. Este poema que eu desconhecia do Fernando Pessoa (dogma?) foi publicado / postado no blogue "Ler Para Crer" que iniciou no dia 7 de Novembro uma série de posts, todos com poemas de Natal de autores de língua portuguesa. Esta colectânea estendeu-se até hoje, dia de Natal. Uma excelente ideia que, a mim pessoalmente, serviu para eu conhecer mais um poema do Pessoa.
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Ana V.
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Monday, December 24, 2007
Noite de Natal na baixa do Porto
A minha cidade é a melhor do mundo. Mas porque é que a Rua do Ouro
não pode ser mais como a Rua de Santa Catarina?
Em andamento, numa noite de Natal, na baixa do Porto.
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'Twas the night before Christmas (for my son)
por Clement Clark Moore
'Twas the night before Christmas, when all through the house
Not a creature was stirring, not even a mouse;
The stockings were hung by the chimney with care,
In hopes that St. Nicholas soon would be there;
The children were nestled all snug in their beds,
While visions of sugar-plums danced in their heads;
And mamma in her 'kerchief, and I in my cap,
Had just settled down for a long winter's nap,
When out on the lawn there arose such a clatter,
I sprang from the bed to see what was the matter.
Away to the window I flew like a flash,
Tore open the shutters and threw up the sash.
The moon on the breast of the new-fallen snow
Gave the lustre of mid-day to objects below,
When, what to my wondering eyes should appear,
But a miniature sleigh, and eight tiny reindeer,
With a little old driver, so lively and quick,
I knew in a moment it must be St. Nick.
More rapid than eagles his coursers they came,
And he whistled, and shouted, and called them by name;
"Now, Dasher! now, Dancer! now, Prancer and Vixen!
On, Comet! on Cupid! on, Donder and Blitzen!
To the top of the porch! to the top of the wall!
Now dash away! dash away! dash away all!"
As dry leaves that before the wild hurricane fly,
When they meet with an obstacle, mount to the sky,
So up to the house-top the coursers they flew,
With the sleigh full of toys, and St. Nicholas too.
And then, in a twinkling, I heard on the roof
The prancing and pawing of each little hoof.
As I drew in my hand, and was turning around,
Down the chimney St. Nicholas came with a bound.
He was dressed all in fur, from his head to his foot,
And his clothes were all tarnished with ashes and soot;
A bundle of toys he had flung on his back,
And he looked like a peddler just opening his pack.
His eyes -- how they twinkled! his dimples how merry!
His cheeks were like roses, his nose like a cherry!
His droll little mouth was drawn up like a bow,
And the beard of his chin was as white as the snow;
The stump of a pipe he held tight in his teeth,
And the smoke it encircled his head like a wreath;
He had a broad face and a little round belly,
That shook, when he laughed like a bowlful of jelly.
He was chubby and plump, a right jolly old elf,
And I laughed when I saw him, in spite of myself;
A wink of his eye and a twist of his head,
Soon gave me to know I had nothing to dread;
He spoke not a word, but went straight to his work,
And filled all the stockings; then turned with a jerk,
And laying his finger aside of his nose,
And giving a nod, up the chimney he rose;
He sprang to his sleigh, to his team gave a whistle,
And away they all flew like the down of a thistle.
--
(and for the others... the parodies, especial atenção para o redneck Xmas)
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A caminho da meia noite, hoje cozinha-se em família
... e embrulham-se as últimas prendas. As gerações e a campainha a tocar,alguém que traz um tabuleiro de filhoses, boas festas. Árvore feita, lareira acesa, talheres e pratos a postos para mais logo, um exército pacífico. Na corrida ao jantar, uma passagem - a última - pela mercearia do bairro, aquilo que me esqueci ou que afinal não chegou. Saudade infinita dela, que nos apegava à vida e que dançava sozinha nas festas, saudade de todos os que já jantaram connosco e hoje se sentam apenas à mesa da memória. O calor dos natais por vir e das prendas por dar e dos beijos que ainda guardo na boca. Para ti.
Como há um ano, mas tão longe que nem me vejo, deixo por aqui um doce.
Açúcar na boca, mel na vida.
Tarte de maçã
Ingredientes: 1/2 chávena de sumo de maçã, 1/2 chávena de açúcar amarelo, 4 colheres de sopa de manteiga sem sal à temperatura ambiente, 4 maçãs Granny Smith, sem casca e cortadas em fatias finas, 2 colheres de sopa de amido de milho, 2 bases de tarte congeladas (ou já feitas) e duas colheres de chá de canela. 1 chávena de nozes partidas.
Fazer: Ligar o forno a 180º. Juntar o sumo de maçã, o açúcar e a manteiga. Juntar as maçãs, a canela, as nozes e o amigo de milho. Colocar uma das bases de tarte numa tarteira e encher com a mistura. Cortar a segunda base de tarte em fitas e entrelaçá-las por cima da tarte. Levar ao forno 55 minutos ou até dourar. Polvilhar com canela. (talvez tirar o sumo ou reduzir)
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Bullets Over Broadway
...ou a arte pela arte questionada.
Sheldon Flender: Let's say there was a burning building and you could rush in and you could save only one thing: either the last known copy of Shakespeare's plays or some anonymous human being. What would you do?
Cheech: Olive, I think you should know this: you're a horrible actress.
Em "Bullets Over Broadway", de Woody Allen.
W. Allen fala sobre este filme aqui, aqui, aqui e aqui.
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Sunday, December 23, 2007
Jardins de Serralves
Domingo de Inverno, de manhã. Nos jardins de Serralves, o ar estava tão límpido.
Jardim de Serralves
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Booze
A collection of woes.
Depression is a common cause of alcoholism as the depressed person seeks a way out of their problems or a relief from insomnia. Unfortunately, alcohol is itself a depressant, so the problem is only compounded.
Alcoholism is a disorder that produces many similar signs and symptoms required for diagnosis of Major Depression. Although alcohol often initially causes a “good mood,” alcohol is a depression-causing drug.
While no studies have shown that depression actually causes alcoholism, the two disorders are commonly seen in the same patients at the same time. Thirty to fifty percent of alcoholics, at any given time, are also suffering from major depression
Alcoholism is a multifaceted disease closely related to depression. Although some people drink to manage their mood, alcohol itself is a known depressant.
In the co-morbid relationship between alcohol addiction and depression, it seems that depression is the primary disorder.
Alcholism is under-identified in persons with depression. Alcoholism significantly increases resource utilization and negative outcomes in persons with depression.
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Saturday, December 22, 2007
"The Lay of the Land" by Richard Ford: a reader's journal (13)
On survival
My wishes for this Season, the Xmasey Season, the best-wishy, the warm-hearted, mulled wine and eggnoggy. Sometimes cruel, sometimes generous. If we are able to elude the sarcastic underlying streak, we could even take this for what it says (still the words of a man searching for meaning).
"(...) banish fear, think that instead of having suffered error and loss, he's survived them (but won't survive them indefinitely), that today could be the first day of his new life, then he'd be fine. In other words, accept the Permanent Period as your personal savior and act not as though you're going to die tomorrow but - much scarrier - as though you might live." (p.423)
(Norwegian Butter Cookies, survival weapons)
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Um martini comestível
É disto que se fazem muitos blogues, este também em dias de correria. Dave Arnold do Instituto Culinário Francês foi desafiado e conseguiu construir um martini comestível, introduzindo gin e vermouth dentro de um paralelipípedo de pepino... por aspiração.
O vídeo (irritavelmente com um anúncio antes da imagem final), aqui. Para quem não tem mais nada que fazer, mas não deixa de ser fantástico.
Até aqui, a alternativa era usar gelatina para criar cocktails que se comem. A pensar...
"You have every reason to throw a party. There are signs of diplomatic progress in North Korea, America's Team is undefeated, and both the Sex Pistols and Spice Girls are getting back together (though not to form one band). But the best reason of all is to show off edible cocktails", do "Los Angeles Times", aqui. Galeria de imagens, aqui.
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Friday, December 21, 2007
"O sangue, o mar, a mulher" em Nosferatu de F.W. Murnau
Noite de cinema e de memória na mesa de luz: "Nosferatu", um dos meus filmes preferidos, introduzidos por João Bénard da Costa num texto publicado pela Cinemateca. Este texto faz parte de um pequeno volume dedicado a Murnau e publicado, por ocasião de uma retrospectiva, em 1989. E uma worddie play que encontrei escrita a lápis num pedaço de papel dentro desse mesmo livro. Suponho que seja de um grande amigo de então, Henrique C.
"Mesa em café vertical, absinto, sinto
Círculo tangente, evidente que sente
Os glóbulos oculares
Tange o alaúde secular no cérebro
Globular
"Mater!" do início e do fim, traduz-me
Água. Vento - alimento."
Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens
1922
Nosferatu, o vampiro
um texto de João Bénard da Costa (1989)
"O sangue, o mar, a mulher. Em torno destas três imagens se articula a primeira das múltiplas adaptações para o cinema da célebre novela de Bram Stoker e do celebérrimo Conde Drácula. A primeira, e seguramente (mau grado os muitos e admiráveis Dráculas futuros, de Tod Browning, a Terence Fischer e Paul Morrisey) a mais bela, um dos mais belos filmes de todos os tempos. Aqui Drácula chama-se Orlok, e é Nosferatu, o não-morto, aquele cujo nome ressoa como um grito de ave de rapina e que tem o poder de obscurecer as imagens.
Antes de retomarmos o fio à meada (fio que passa pelo sangue, o mar, a mulher) alguns dados históricos. Albin Grau, grande pintor alemão, e autor dos décors e guarda-roupa do filme, parece ter sido o inventor do nome Nosferatu e da ideia geral do filme que se afasta bastante do romance de Bram Stoker (contou, mas não deve ser verdade, que ele próprio tinha conhecido em Praga um homem que presenciara a abertura de um caixão contendo um desses "untote" (não mortos) de que fala o filme). Henrik Galeen, realizador dinamarquês radicado na Alemanha onde um ano antes de Nosferatu, co-realizara com Wegner O Golem foi o autor do argumento, o único que escreveu, seguindo muito de perto o estilo do célebre Carl Meyer. E Murnau com a sua paixão pelos décors naturais filmou praticamente tudo (à excepção dos interiores) nos locais da acção: Lubeck e Wismar, cidades medievais do norte da Alemanha, para as sequências da terra de Hutter, nos Cárpatos para a terra do Vampiro, no Castelo Oravsky na Eslováquia para o castelo do conde (quem quiser ler o admirável Murnau de Lotte Eisner, encontrará a indicação precisa de todos os locais). Nada é "maquette" ou "décor" como nos filmes tipidamente expressionistas, ou em Fritz Lang. Como notou Balasz o caminho para o sobrenatural passa pelo natural. E o filme foi feito com actores muito pouco conhecidos e com uma obscura vedeta de "music-hall" (Max Schrek) no papel do Conde. E aí há quem desconfie: diz-se que Max Schrek apenas emprestou o nome ao assombroso personagem, assombrosamente interpretado e que por trás da máscara se esconde outra pessoa. "Ninguém" - escreve um pouco fantasiosamente o crítico surrealista francês ado Kyrou - "conseguiu jamais desvendar a identidade desse extraordinário actor que uma caracterização genial tornou para sempre desconhecido. Houve várias suposições, houve até quem dissesse que era o próprio Murnau. Quem se esconde atrás do personagem de Nosferatu? Nosferatu em pessoa?" Seja como for, Klaus Kinski, Nosferatu para Herzog, disse ter visto o filme mais de 50 vezes quando preparou o papel e continua a não perceber como é que um corpo era capaz de tanto, como eram possíveis aqueles movimentos, aqueles gestos.
Podemos voltar ao filme. E começar pelo sangue. Das imagens ele está ausente, mas tudo o que está entre elas e nelas é de sangue que nos fala. O sangue é a vida dirá Renfield que antes preveniu Huter de que a viagem lhe custaria algum suor e talvez um pouco de sangue. E o sangue é a alma de Nosferatu, por oposição à terra em que o vampiro se transforma durante o dia. Da terra vêm os ratos, a peste, a morte. Do sangue, a vida, o amor, a comunicação (a simbologia do sangue na sua ilustre genealogia judaico-cristã daria, à luz deste filme, para página e páginas de conversa). Ligando-a agora aos pontos de partida e de chegada acolhidos, recordemos que é através do sangue que se estabelece a misteriosa comunicação (dos santos? dos demónios?) entre o "nome que ninguém pronuncia" e Ellen, esse duplo de Nosferatu, aquela que não precisou de atravessar a ponte para que os fantasmas viessem ao seu encontro. Quando Hutter se corta e tem lugar o primeiro cerimonial do sangue (em "off") não vemos o vampiro a beber, mas Ellen levanta-se da cama, nas pontas dos pés, caminhando (muito antes de Renfield) ao encontro do Mestre.E no duplamente obscuro plano do seu encontro final com o Conde, a um cando da imagem, já chamada a mais erótica de toda a história do cinema, pelo seu sangue (o sangue puro) morre Nosferatu, sem escutar os avisos do discípulo. O plano do galo é o do orgasmo-vida-morte. É a troca do sangue, é o sinal de passagem e pouco perdemos (porque já lá está) que a censura da época tenha proibido a transmutação de Ellen em novo Nosferatu.
O mar - não se está a pensar no espaço do navio dos mortos e na fabulosa viagem de que ninguém se salva, como Nosferatu nos famosos "contra-plongé" contra as velas. A partir da "noite de núpcias" (baptismo de sangue) de Hutter (e aproveita-se para sublinhar como Hutter é femininamente retratado)) intervem nas transições entre o "cá" e o "lá" os célebres e imitadíssimos planos de ondas a rebentarem de Murnau sem função aparente e servindo cmo o arquétipo dos "raccords": elemento de ligação e comunicação de tudo a culminar num dos mais belos e insólitos planos deste filme: sentada num banco, entre cruzes, Ellen espera, prevê e revê. A imagem mais surreal da história do cinema? E no famoso plano em que o mar (navio, Nosferatu) entra na cidade e dela se apossa.
A Mulher - não é preciso ser-se muito sabido em símbolos para se saber que o sangue e o mar são outros nomes dela. Desde o início (plenos de felicidade familiar) que aquele ser habitado invoca o que vai acontecer. Astruc disse em relação a todo o filme o que é particularizável nesses planos: "Um horror sem nome espreita na sombra, por detrás desses personagens tranquilos , instalado a um canto do enquadramento, como um caçado à espera da presa". Esse horror sem nome são, nesses planos, as flores (ligar ao tema central posterior do personagem do professor, das plantas carnívoras e ao incrível plano do grifo) e aos gatos (prenúncio dos lobos e cavalos "do lado de lá da ponte"). Depois, através dela tudo se comunica, culminando no seu apelo (ele vem, tenho de ir com ele) pronunciador e paralelo do de Renfield, no plano subjectivo em que se vêem na rua os caixões (cortados pelas traves da janelas donde vê) ou nesse outro inadjectivável, em que abre a janela e, de braços também abertos, se oferece ao mestre, cuja sombra, depois, percorrerá lentamente o seu corpo.
Muito mais que do medianeiro Hutter a viagem é dela, sendo pois no seu espaço que através do seu corpo se entrevê (as casas vistas para além das janelas) que Nosferatu ganha a imagem (no espelho) e perde a sombra (o fumo dos pés).
O espaço não dá para mais e ainda quase nada se disse da portentosa riqueza deste filme único."
E aqui, de Michael Koeller, em Senses of Cinema.
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Grey on Brown
Se há animal que eu detesto são as traças. Mais ainda quando cegas e embriagadas à luz. Daí o choque supremo... Desde os dezanove, primeiro casamento (Alas!) que tenho uma estreita madeixa cinzenta em local conspícuo da cabeça. Ontem, ensonada, descobri novos desenvolvimentos. Em breve, terei cabeça de traça.
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1:08 PM
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Thursday, December 20, 2007
Quarenta anos de Richard Serra
"Sequence" (2006)
"'Sequence' is probably best described as two different spirals connected. At both ends you have the choice of entering through one of two openings. One will lead you to the containment of an interior space; the other will direct you into a seemingly endless path between two leaning walls. You cannot recollect of reconstruct a definite memory of the curvilinear path that connects one spiral to the other, nor of the interior spaces of the two spirals. You cannot map the piece after you've walked it."
Foi no MOMA, em Nova Iorque, este Verão, que estiveram em exposição quarenta anos de Richard Serra, considerado um dos maiores artistas norte-americanos da actualidade. Para mim, que perdi a exposição in loco, fica a exposição online, perfeita. "Sequence" é uma das três obras comissionadas para esta exposição.
40 anos de Richard Serra no Museum of Modern Art de Nova Iorque.
Página de Richard Serra na PBS, com imagens, texto e vídeos
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11:52 PM
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"The Lay of the Land" by Richard Ford: a reader's journal (12)
Happiness (2)
"Life (...), real life, is different and can't even be appraised as simply "happy", but only in terms of "Yes, I'll take it all, thanks," or "No, I believe I won't." Happy, as my poor father used to say, is a lot of hooey. Happy is a circus clown, a sitcom, a greeting card. Life, though, life's about something sterner. But also something better. A lot better. Believe me." (p. 380)
I could probably bring other quotes from different authors, all of them searching for happiness the elusive definition, flick of the light instant. Frank sought it as everybody else does, and got it, a few "one shiny moment(s)", that he can now look back into. A man about to die.
Interesting to compare and contrast with an earlier moment of happiness.
And I guess I could make these words mine.
Other reading journals: an index
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5:50 PM
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Wednesday, December 19, 2007
Proof of Life on Earth
By newly found (by me) Roz Chast, thanks Chris. Girrrly, girrrly, but I like it all the same.
(click on the image to enlarge)
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10:12 PM
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A respiração luminosa de Tokihiro Sato
Twenty year old photos but still befitting my "Breath" (Respiração) tab.
Breathing to live, alive, my precious breath.
Tokihiro Sato has taken dozens of photographs in the series "Breathing Shadows" using mirrors and repeating the exposure as often as needed for the shadowy effect, another labor of obsession, aren't they all.
Photo-Respiration #1 - 1988
Photo-Respiration #21 - 1989
Photo-Respiration #22 - 1989
Photo-Respiration #25 - 1989
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6:02 PM
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TAGS A arte pela arte, Respiração
Molloy em Kertész
"Then I went back into the house and wrote, It is midnight. The rain is beating on the windows. It was not midnight. It was not raining." S. Beckett em "Molloy" introduzindo "Liquidation", um romance de Imre Kertész, o livro que se segue. Como se dúvidas sobre Beckett houvesse.
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2:23 PM
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bolasbolasbolas
Isto é como os testes de escolha múltipla das revistas femininas + ninguém tem nada com isso + dá uma trabalheira do caraças + sei lá, quebra-me o ritmo "cultural"...
Mas sendo a MAD; lá tem de ser.
a) 5 bens materiais QUE TIVESTE NO PASSADO.
Já não os tens e sentes saudades ou nostalgia por eles.
1. Os meus LPs.
2. O Nostalgia, o True West e o Picasso a pintar à luz, em cassetes vídeo.
3. Umas calças a imitar pele de cobra.
4. Os meus 15 anos (esta se calhar não vale)
5. Uma mini-saia às pregas de xadrez vermelha de quando eu tinha 3 anos.
b) 5 bens materiais QUE POSSUIS ACTUALMENTE
que mais gostas e sem os quais não consegues viver.
1. AH! Portátil.
2. Carro
3. Portátil e carro.
4. Portátil e carro.
5. Portátil e carro (querem o quê, é a verdade).
c) 5 bens materiais QUE PENSAS EM ADQUIRIR
nos próximos 5 anos.
1. A série Rabbit do John Updike
2. Uma tablete de chocolate negro do Corallo.
3. Uma maneira de carregar o portátil no carro
4. O Rendez-Vous de Paris
5. 3 frascos de extracto de amêndoa
d) 5 bens materiais QUE GOSTASTE DE OFERECER
a cinco pessoas diferentes.
1. Muitos beijos
2. Vinagre balsâmico
3. Um ano de escola
4. Bolachas de chocolate (esta é batota, foi com os beijos!)
5. Uma viagem.
e) 5 bens materiais QUE SONHAS EM TER
mas que sabes não vir a adquirir.
1. Não sei coisa nenhuma, sei lá agora: um veleiro.
2. Um rancho no Wyoming
3. Uma Harley e calças de cabedal
4. Um Black Hawk
5. Um Blackberry
E os cinco que se seguem: Marés, crisruas, Annna, Kiki e Jorge
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The Hollow Men, T.S. Eliot
Just because.
Kurtz no "Apocalipse Now" lendo...
The Hollow Men
T. S. Eliot
"Mistah Kurtz - he dead"
"A penny for the Old Guy",
I
We are the hollow men
We are the stuffed men
Leaning together
Headpiece filled with straw. Alas!
Our dried voices, when
We whisper together
Are quiet and meaningless
As wind in dry grass
Or rats' feet over broken glass
In our dry cellar
Shape without form, shade without colour,
Paralysed force, gesture without motion;
Those who have crossed
With direct eyes, to death's other Kingdom
Remember us—if at all—not as lostViolent souls, but only
As the hollow men
The stuffed men.
II
Eyes I dare not meet in dreams
In death's dream kingdom
These do not appear:There, the eyes are
Sunlight on a broken column
There, is a tree swinging
And voices are
In the wind's singing
More distant and more solemn
Than a fading star.
Let me be no nearer
In death's dream kingdom
Let me also wear
Such deliberate disguises
Rat's coat, crowskin, crossed staves
In a field
Behaving as the wind behaves
No nearer—
Not that final meeting
In the twilight kingdom
III
This is the dead land
This is cactus land
Here the stone images
Are raised, here they receive
The supplication of a dead man's hand
Under the twinkle of a fading star.
Is it like this
In death's other kingdom
Waking aloneAt the hour when we are
Trembling with tenderness
Lips that would kiss
Form prayers to broken stone.
IV
The eyes are not here
There are no eyes here
In this valley of dying stars
In this hollow valley
This broken jaw of our lost kingdoms
In this last of meeting places
We grope together
And avoid speech
Gathered on this beach of the tumid river
Sightless, unless
The eyes reappear
As the perpetual star
Multifoliate rose
Of death’s twilight kingdom
The hope only
Of empty men.
V
Here we go round the prickly pear
Prickly pear prickly pear
here we go round the prickly pear
At five o’clock in the morning.
Between the idea
And the reality
Between the motion
And the act
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom
Between the conception
And the creation
Between the emotion
And the response
Falls the Shadow
Life is very long
Between the desire
And the spasm
Between the potency
And the existence
Between the essence
And the descent
Falls the Shadow
For Thine is the Kingdom
For Thine is
Life is
For Thine is the
This is the way the world ends
This is the way the world ends
This is the way the world ends
Not with a bang but a whimper.
A ver: de Chris Marker, "Owls at Noon".
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Tuesday, December 18, 2007
Os Lavores EXtremos de Freddie Robbins
Encontrei-a no MAD (!), Museum of Arts and Design de Nova Iorque, parte de uma exposição que decorreu no Verão passado, "Radical Lace and Subversive Knitting" (rendas radicais e tricot subversivo). Freddie Robbins, modeladora de tricot, um novo campo saído da sala caseira para galerias e museus.
"Craft Kills" (2002)
"- How would you describe your position within the world of knitting?
- I would like to be thought of as the anarchic knitter, the knitter who deals with issues as opposed to fashion or function. " (de uma entrevista, aqui).
"Billy Wool" (2001)
"Headlong" (2002)
"Skin A Good Thing to Live in" (2002)
E o "Artist's Statement":
"My studio practise questions conformity and notions of normality, and intersects the categorisation of art and craft. I use knitting to explore pertinent contemporary issues of the domestic, gender and the human condition. I find knitting to be a powerful medium for self-expression and communication because of the cultural preconceptions surrounding it. My work subverts these preconceptions and disrupts the notion of the medium being passive and benign. My ideas are expressed through an exploration of the human form."
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TAGS A arte pela arte
Mike Mitchell ou Sir Mike de Madison
Mike Mitchell desenhava aos 6 anos. Vivia em Modesto no Norte da Califórnia. Mais tarde mudou para Chicago e aí frequentou a American Academy of Art. Trabalha agora para a Ravensoft e trabalha em free lance. Eu, em Lisboa, vejo o seu trabalho. E para saltar do Deviant Art para a "Illustration Now" da Taschen, quantas milhas vão?
- What inspires you to do your illustration? Does it come easy or is it a constant push to stay motivated?
- It’s a constant push. I am lucky to have friends who are extremely talented and can kick my ass in all kinds of ways. They are very supportive, and in a way, they make me feel bad about my own skill. I think its a great way to go about it though, as soon you are comfortable with where you are, you stop improving. So I don’t mind feeling like I still have a long ways to go.
(in AI, link below)
http://www.sirmikeofmitchell.com/
http://sirmikeofmitchell.com/sirmitchell/index.html
My Space
Deviant Art , Deviant Art Gallery
Mike's job at Ravensoft
Amateur Illustrator Interview
Blogspot
Flickr
---
Amateur Illustrator Art and Illustration Community
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"The Lay of the Land" by Richard Ford: a reader's journal (11)
Love as communication
...Which view I share at present. Could be the outcome of many miscommunication years or
the consequence of e-smooching. But it's where I stand these days.
Ford/Frank will give us his take on love, contradictory and candid at times, mostly sarcartic, much like anybody else. This is not a love novel, none of Ford's books are. Love is what got lost in suburban America. The love that is - is a tame affair, a matter of furniture arranging, co-existence, peaceful disposition of days and the writing of a coherent line of words that accounts for the agreement at the base of the relationship. We are made to be together, but we can never be together. The best deal possible comes by communicating: if there is enough of an honest exchange, then nothing more could be asked for. When the big D day comes, we are all alone.
I don't exactly believe this, or at least I live as if I didn't. "Let’s not worry about what tomorrow will amass. Fill my cup again, this night will pass, alas." (Rubaiyat, Omar Kayyam) Frank Bascombe, sitting heavily on his "Permanent Period" will not for his life fill his cup. Happy for sipping.
"It's the kind of shock that makes you realize that life only happens to you and you alone, and that any concept of togetherness, intimacy, union, abiding this and abiding that is a hoot and a holler into darkness." (p. 336)
"Which is to say we practiced the sweet legerdemain of adulthood shared. We formally renounced our unmarried personalities. We generalized the past in behalf of a sleek second-act mentality that stressed the leading edge of life to be all life was. We acknowledged that strong feelings were superior to original hapiness, and promissed never to ask the other if she or he really, really, really loved him or her, in faith that affinity was love, and we had affinity. We stressed nuance and advocated that however we seemed was how we were. We declared we were good in bed, and that lack of intimacy was usually self-imposed. (...)
In other words, we put in practice what the great novelist said about marriage (though he never quite had the genome for it himself). "If I should ever marry", he wrote, "I should pretend to think just a little better of life than I do." In Sally's case and mine, we thought a lot better of life that we ever imagined we could. In the simplest terms, we really, really loved each other and didn't do a lot of looking right or left - which, of course, is the first principle of the Permanent Period." (p.340-341)
On another hand, set of cards, this is the "stuff" you muse about at the beginning of your second.
Because after that, well, love gets beat up pretty hard.
Other reading journals: an index
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In English
Just for the heck of it. Why don't we use Alice for the Bible. Quoting would be sooo much lighter.
In an Alice state of mind, this morning.
"`Have you guessed the riddle yet?' the Hatter said, turning to Alice again.
`No, I give it up,' Alice replied: `that's the answer?'
`I haven't the slightest idea,' said the Hatter.
`Nor I,' said the March Hare. "
(Alice's Adventures in Wonderland, Lewis Caroll)
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Monday, December 17, 2007
O escritor anónimo ou "A Viagem de Inverno" de Georges Perec
Iniciada na leitura de "Bucareste" de Chico Buarque e das ansiedades do seu escritor anónimo compulsivo, o "chato", li por acaso "A Viagem de Inverno" de George Perec, um dos eleitos, que navega nas mesmas águas, a puxar menos o riso e o calor do corpo. Esta criatura mitológica que me tinha passado despercebida agrada-me bastante, ao contrário da famigerada "mão de deus", que tende a enfastiar-me (virar a página mais depressa): o super escritor, um tipo desconhecido e misterioso, que escapa por entre os dedos analíticos de Vincent, personagem-detective em busca do Graal das letras. Com jeito, vamos dar novamente à mão divina, mas nem quero abrir essa possibilidade. Pelo menos em Buarque, o autor anónimo escreve a metro, um pobre diabo engravatado, encafuado atrás de uma secretária e de uma obsessão pelas palavras. Graças a deus...
"A Viagem de Inverno" foi traduzida para português por José Lima e publicada na excelente revista de contos "Ficções", a nº 7. Em inglês pode ser lida livremente online, aqui. E aqui deixo se não todo, quase todo...
---
A Viagem de Inverno
Georges Perec
(1979)
Na última semana de Agosto de 1939, enquanto os rumores de guerra invadiam Paris, um jovem professor de letras, Vincent Degraël, foi convidado a passar alguns dias numa propriedade nas proximidades do Havre que pertencia aos pais de um dos seus colegas, Denis Borrade. Na véspera da partida, quando explorava a biblioteca dos anfitriões à procura de um daqueles livros que há muito nos propusemos a ler, mas que geralmente só teremos tempo de folhear distraidamente ao canto da lareira antes de nos chamarem para sermos o quarto jogador na mesa de bridge, Degraël encontrou por acaso um pequeno volume intitulado A Viagem de Inverno, cujo autor, Hugo Vernier, lhe era absolutamente desconhecido, mas cujas primeiras páginas lhe causaram uma impressão tão forte que ele mal se deu ao trabalho de se despedir do amigo e dos pais dele, antes de subir para o ler no quarto.
A Viagem de Inverno era uma espécie de narrativa escrita na primeira pessoa, e situada numa região semi-imaginária, cujos céus pesados, florestas sombrias, colinas moles e canais cortados por comportas esverdinhadas evocavam com uma insistência insidiosa as paisagens da Flandres ou das Ardenas. O livro dividia-se em duas partes. A primeira, mais curta, retraçava em termos sibilinos uma viagem de tom iniciático, em que cada etapa era assinalada por um revés, e ao fim do qual o herói anónimo, um homem que tudo levava a crer que fosse jovem, chegava à margem de um lago mergulhado numa bruma espessa; esperava-o aí um passador, que o conduzia a uma ilhota escarpada no meio da qual se elevava uma construção alta e sombria; (...)
A segunda parte constituía só por si cerca de quatro quintos do livro e percebia-se rapidamente que a breve narrativa que a precedia não passava de um pretexto circunstancial. Era uma longa confissão de um lirismo exacerbado, entremeada de poemas, de máximas enigmáticas, de sortilégios blasfemos. Assim que começou a lê-la Vincent Degraël teve uma sensação de mal-estar que lhe foi impossível definir precisamente, mas que se foi acumulando à medida que ia passando as páginas do volume com uma mão cada vez mais trémula: era como se as frases que tinha diante dos olhos se lhe tornassem de súbito familiares, irresistivelmente se pusessem a recordar-lhe qualquer coisa, como se à leitura de cada uma delas viesse impor-se, ou antes sobrepor-se, a recordação ao mesmo tempo precisa e indefinida de uma frase que seria quase idêntica e que ele teria já lido algures; era como se aquelas palavras, mais ternas que carícias ou mais pérfidas que venenos, essas palavras ora límpidas ora herméticas, obscenas ou calorosas, cintilantes, labirínticas, e oscilando continuamente como a agulha enlouquecida de uma bússula entre uma violência iluminada e uma serenidade fabulosa, desenhassem uma configuração confusa onde dir-se-ia descobrir-se a esmo Germain Nouveau e Tristan Corbière, Villiers e Banville, Rimbaud e Verhaeren, Charles Cros e Léon Bloy.
Vincent Degraël, cujo campo de interesses cobria precisamente estes autores - preparava há anos uma tese sobre "a evolução da poesia francesa dos parnasianos aos simbolistas" - pensou a princípio que realmente podia ter já lido aquele livro ao sabor de alguma pesquisa, depois, e mais plausivelmente, que era vítima de uma ilusão de dejá vù pela qual, como quando o simples gosto de um trago de chá nos conduz repentinamente a Inglaterra trinta anos antes, bastara um nada, um som, um cheiro, um gesto - talvez o momento da hesitação que denotara antes de retirar o livro da estante onde estava colocado entre Verhaeren e Vielé-Griffin, ou então a maneira ávida como tinha percorrido as primeiras páginas - para que a lembranºa falaciosa de uma leitura anterior viesse sobrepôr-se e perturbar, até tornar impossível, a leitura que agora fazia. Mas em breve a dúvida deixou de ser possível e Degraël teve de render-se à evidência: talvez a memória lhe pregasse uma partida, talvez não passasse de um acaso que Vernier desse a impressão de ir buscar a Catulle Mendès o seu "único chacal rondando os sepulcros de pedra", talvez se pudesse tomar em consideração os encontros fortuitos, as influências assumidas, as cópias inconscientes, a busca do pastiche, o gosto das citações, as coincidências felizes, talvez se pudesse considerar que expressões como "o voo do tempo", "névoas de inverno", "obscuro horizonte", "vaporosas fontes", "luzes incertas dos bosques bravios" pertencessem de pleno direito a todos os poetas e que por consequência fosse também normal encontrá-las tanto num parágrafo de Hugo Vernier como nas estrofes de Jean Moréas, mas era absolutamente impossível não reconhecer, palavra a palavra ou quase, simplesmente ao acaso da leitura, aqui um fragmento de Rimbaud ("Via francamente uma mesquita no lugar de uma fábrica, uma escola de tambores feita por anjos") ou de Mallermé ("o inverno lúcido, estação da arte serena"), ali Lautréamont ("Olhava num espelho aquela boca mortificada pela minha própria vontade"), Gustave Kahn ("Deixa expirar a canção... o meu coração chora / Um bistre rasteja em torno das claridades. Solene / O silêncio subiu lentamente, atemoriza / Os ruídos familiares do vago pessoal") ou, ligeiramente modificado, Verlaine ("no interminável enfado da planície, a neve luzia como areia. O céu estava cor de cobre. O comboio deslizava como um murmúrio..."), etc.
Eram quatro horas da manhã quando Degraël acabou a leitura de Viagem de Inverno. Tinha identificado uns trinta empréstimos. Havia certamente outros. O livro de Hugo Vernier parecia não ser mais do que uma prodigiosa compilação de poetas de finais do século XIX, um centão desmesurado, um mosaico em que a bem dizer cada peça era obra de outro. Mas no próprio momento em que se esforçava por imaginar este autor deconhecido que pretendera beber nos livros de outros a própria matéria do seu texto, em que tentava formar uma visão de conjunto deste projecto insensato e admirável, Degraël sentiu nascer nele uma suspeita perturbante: acabava de se lembrar que ao tirar o livro da estante, tinha reparado maquinalmente na data, movido pelo reflexo do jovem investigador que nunca consulta uma obra sem anotar os dados bibliográficos. Talvez se tivesse enganado, mas estava mesmo convencido de que tinha lido: 1864. Verificou, o seu coração em sobressalto. Tinha lido bem: o que significava que Vernier tinha "citado" um verso de Mallarmé com dois anos de antecipação, plagiado Verlaine dez anos antes das suas Ariettes Oubliées, escrito como Gustave Kahn cerca de um quarto de século antes dele! O que queria dizer que Lautréamont, Germain Nouveau, Rimbaud, Corbière e muitos mais não passavam de copistas de um poeta genial e ignorado que, numa única obra, tinha conseguido reunir a própria substância de que iriam alimentar-se depois dele três ou quatro gerações de autores!
(...)
Colocado como professor em Beauvais, Vincent Degraël consagrou a partir de então todo o seu tempo livre à Viagem de Inverno.
Algumas investigações mais profundas nos diários íntimos e na correspondência da maior parte dos poetas de finais do século XIX persuadiram-no rapidamente de que Hugo Vernier conhecera, no seu tempo, a celebridade que merecia: notas como "recebi hoje uma carta de Hugo", ou "escrevi uma longa carta a Hugo", "li V.H. a noite inteira", ou ainda o célebre "Hugo, apenas Hugo" de Havercamp, não se referiam de modo nenhum a "Victor" Hugo, mas sim a este poeta maldito cuja obra breve tinha aparentemente incendiado todos aqueles que a tiveram na mão. Contradições manifestas que a crítica e a história literária nunca tinham nunca podido explicar encontravam deste modo a única solução lógica, e foi evidentemente pensando em Victor Vernier e ao que deviam a Viagem de Inverno, que Rimbaud tinha escrito "Eu é um outro" e Lautréamont "A poesia deve ser feita por todos e não por um".
Mas quanto mais ele fazia realçar o papel preponderante que Hugo Vernier deveria vir a ocupar na história literária da França do final do século passado, menos habilitado se mostrava a fornecer provas tangíveis para tanto: pois que nunca conseguiu ter na mão um exemplar da Viagem de Inverno. O que ele consultara tinha sido destruído - juntamente com a casa - nos bombardeamentos do Havre; o exemplar depositado na Biblioteca Nacional não estava lá quando o requisitou e foi só após demoradas diligências que conseguiu saber que o livro, em 1926, tinha sido enviado a um encadernador que nunca o recebera. Todas as pesquisas que mandou fazer a dezenas e centenas de bibliotecários revelaram-se inúteis, e Degraël em breve se convenceu de que os quinhentos exemplares da edição tinham sido deliberadamente destruídos precisamente por aqueles que nele se tinham inspirado directamente.
Sobre a vida de Hugo Dernier, Vincent Degraël não apurou nada ou quase nada. Por uma notazinha inesperada, descoberta numa obscura Biografia dos homens notáveis da França do Norte e da Bélgica (Verviers, 1882), ficou a saber que nascera em Vimy (Pas-de-Calais) em 3 de Setembro de 1836. Mas o registo civil da municipalidade de Vimy tinha sido queimado em 1916, assim como as duplicatas registadas na perfeitura de Arras. Aparentemente, nunca foi exarada nenhuma certidão de óbito.
Durante cerca de trinta anos, Vincent Degraël esforçou-se em vão por reunir as provas da existência deste poeta e sua obra. Quando morreu, no hospital psiquiárico de Verrières, alguns dos seus antigos alunos empreenderam a tarefa de ordenar o imenso volume de documentos e de manuscritos que ele deixava: entre eles figurava um volumoso álbum encadernado em tela negra, e em cujo rótulo, em caligrafia esmerada, se lia A Viagem de Inverno: as primeiras oito páginas reconstituíam a história destas vãs investigações; as trezentas e noventa e duas seguintes estavam em branco.
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Ana V.
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Góis
Gois, sede de concelho com o mesmo nome constituído por cinco freguesias (Alvares, Cadafaz, Colmeal, Góis e Vila Nova do Ceira). A vila onde Manuel Santos faz garrafas com escadas no interior, tudo aqui, no Blogóis. E a Transerrano, claro.
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Ana V.
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O Eclipse
Em noite gélida de quase Natal, diria que a escolha entre três paraísos perfeitos seria fácil: debaixo das cobertas com o "Eclipse", a expressão muda de Monica Vitti e as palavras vazias de Alain Delon, Piero, personagem oco na cidade deserta de Antonioni.
"The films of Michelangelo Antonioni are aesthetically complex - critically stimulating though elusive in meaning. They are ambiguous works that pose difficult questions and resist simple conclusions. Classical narrative causalities are dissolved in favour of expressive abstraction. Displaced dramatic action leads to the creation of a stasis occupied by vague feelings, moods and ideas. Confronted with hesitancy, the spectator is compelled to respond imaginatively and independent of the film. The frustration of this experience reflects that felt in the lives of Antonioni's characters: unable to solve their own personal mysteries they often disappear, leave, submit or die. The idea of abandonment is central to Antonioni's formal structuring of people, objects, and ideas. He evades presences and emphasises related absences. His films are as enigmatic as life: they show that the systematic organisation of reality is a process of individual mediation disturbed by a profound inability to act with certainty.", de um artigo sobre Antonioni no site por excelência do cinema, Senses of Cinema, escrito por James Brown.
Os filmes de Antonioni escapam os críticos e esgotam as críticas. "O Eclipse" agride com os seus contrastes e com a câmara presa ao rosto de Vittoria (Monica Vitti). O muito ou o nada que a impelem e que é impossível traduzir, simplesmente porque cada um de nós está encerrado dentro do seu próprio invólucro. A multidão da Bolsa e as ruas desertificadas. A mãe de Vittoria, contexto quase paisagístico de uma história que não serve qualquer propósito, e Piero, momento alto de um caracter sem história, sem densidade, sem fundo e sem consequência: as minhas impressões à superfície.
Antonioni fez alguns dos melhores filmes que já foram feitos na história do cinema, um pouco esquecido pelo que hoje se chama "cinema" mas que se limita a distribuir chupa-chupas e laranjada, o "Eclipse" é aquilo que o cinema poderia ter sido e não foi. Talvez daqui a um século se apague a chama do consumo, talvez volte a revolução, depois de todos nos termos gasto em sessenta por cento do tempo útil de vida em espaços acondicionados em centro comerciais. Talvez seja possível um novo Antonioni.
Para contar a história e dar os créditos, para contextualizar e um ensaio muito bem escrito sobre este filme, sugiro o site da Criterion, aqui. Fico-me sem mais para dizer, tão silenciosa quanto os sete minutos finais do filme, a rua deserta, o contorno exacto dos objectos à luz. Um final provocatório e genial, que foi cortado por vezes nos Estados Unidos, por - para eles - não fazer sentido, para mim das imagens mais fortes que já vi no cinema.
"Antonioni seemed to open up new possibilities with every movie. The last seven minutes of “L’Eclisse,” the third film in a loose trilogy he began with “L’Avventura” (the middle film was “La Notte”), were even more terrifying and eloquent than the final moments of the earlier picture. Alain Delon and Ms. Vitti make a date to meet, and neither of them show up. We start to see things — the lines of a crosswalk, a piece of wood floating in a barrel — and we begin to realize that we’re seeing the places they’ve been, empty of their presence. Gradually Antonioni brings us face to face with time and space, nothing more, nothing less. And they stare right back at us. It was frightening, and it was freeing. The possibilities of cinema were suddenly limitless." (Scorcese no artigo que indico em baixo)
"(...) a multiplication of perspectives that suggests a narrative equivalent to Cubism" (daqui); como Godard, o fio da narrativa não será o mesmo. A narrativa intromete-se na vida e questiona-a, o tempo é de dentro para fora e o espaço inóspito, um palco para o homem só que fala consigo próprio. O diálogo desejado que legitimaria, mais uma vez, a breve existência. Depois de Nietsche, os anos sessenta, e depois disso estamos nós, esquecidos e entretidos com os nossos gadgets.
O cinema como arte: "There will always be those who scoff at the idea of cinema as a form of art." (no NY Times), "In the cinema, as in the other arts, this is the most delicate moment - the moment when the poet or writer makes his first mark on the page" (o próprio Antonioni).
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Antonioni no "They Shoot Pictures, Don't They?"
"The Man Who Set Film Free", um artigo de Martin Scorcese sobre Antonioni no NY Times
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Saturday, December 15, 2007
"The Lay of the Land" by Richard Ford, a reading journal Index
Reading "The Lay of the Land" by Richard Ford I ended up with so many reading journals that an index became necessary. And here it is.
1 - Settling down with Frank Bascombe: the geography of the Land
2 - "The Lay of the Land", a title exposed
3 - Character vs. Author
4 - Descriptive greens: the pastel stains of Autumn
5 - Character building: Clarissa
6 - Happiness
7 - Marriage, the writer's wink
8 - Wondering, inner ramblings
9 - "(Why do so many things happen in cars? Are they the only interior life left?)"
10 - Sea-Clift's Elmer Fudds
11 - Love as communication
12 - Happiness (2)
13 - On survival
14 - Book 2: A Parade of human weaknesses
15 - Are you ready to meet your maker?
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Ana V.
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Bottle II, Margaret Atwood
"Bring your ear down closer. Put your hand over the other ear. Think of seashells. There. Now you can hear me. (...)
How did it come to this? My present arachnid state, I was young once, I was beautiful, I was sought after. I had picturescque robes and exceptional talents. I uttered portents in caves: there were lineups, there were waiting lists for them. How did I come to be so tiny, so translucent, so wispy, so whisperey? How did I come to be shut up inside this bottle? It's an unsual story, an incredible story, a story that could not take place today. I'm not sure I still believe myself, though I'll tell it to anyone who'll lend an ear.
Right now that means you. I am not a curio, my friend. Or rather I am a curio, but you'd have to say the curio, the best one of all. Only the very curious acquire curious like this. And you are a curious person, you look into the medicine cabinets in the bathrooms of people you hardly know, you're an avid listener, you're driven to listen, you'll listen to anything. I understand you: I too was curious once, like you. We are both the kind of person who takes the corks out of bottles. Not bottles of wine: bottles of sand."
By the Canadian Margaret Atwood, excerpt of "Bottle II" in "The Tent" (2006)
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Havia tempos que a queria pôr aqui, desconcertante, a desconcertar-me as contas. Demasiado feminina, demasiado quebrada, demasiado pensada, demasiado realista, demasiado sem sentido ou consentida. O que eu possa dizer está errado, porque o que ela diz foge das palavras. Searching for HER-self.
homepage, na Ramdom House, online, youtube interview
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Ana V.
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