light gazing, ışığa bakmak

Monday, March 31, 2008

meatloaf

The first time I ran away from school I was ten. Two older guys talked me into it. They were brothers and they'd both been in and out of Juvenile Hall five times. They told me it would just be like taking a short vacation. So I went. We stole three bikes out of a back yard and took off for the Arroyo Seco. The bike I stole was too big for me so I could never sit up on the seat all the way. I pedalled standing.

We hid the bikes in a stand of Eucalyptus trees at the edge of the Arroyo and went down to the creek. We caught Crawdads with marshmallow bait then tore the shells off them and used their meat to catch more Crawdads. When lunch time came I had to share my lunch with the brothers because they'd forgotten to bring theirs. I spread the contents of the paper bag out on a big flat rock. A carrot wrapped in wax paper with a rubber band around it. A meatloaf sandwich. A melted bag of M and Ms. They ate the M and Ms first. Tore the package open and licked the chocolate off the paper. They offered me a lick but I declined. I didn't eat any of the meatloaf sandwich either. I always hated meatloaf. Especially cold and between bread.

In Motel Chronicles
Sam Shepard

Gosto mais disto do que da maior parte das coisas, e o pior é que não sei porquê. Mas tenho uma ideia.
E, em baixo, parte de uma entrevista (toda, aqui).


I wanted to ask you about your prose writing, which has developed in a way that’s parallel to your plays. Your later fiction pieces have been more honed, more refined, just as your plays have gotten more attentive to form and structure. Is that right?
Absolutely. It sounds ridiculous, but I'm self-taught. I learn everything by doing it. I wasn't born knowing how to write a play. You do it and hopefully you keep evolving. One really great thing happened was that I discovered Chekhov's short stories. I'm embarrassed to say I didn't really start reading them ‘til about 5 or 6 years ago. I'd always kind of dismissed Chekhov and didn't really know why. When I came upon the stories, and started really reading and studying them, I couldn't believe it. I read every single one.

What did you get out of them?
How as a craftsman he could apply himself with this dogged attention to detail and come up with these amazing things.

Portrait of the Artist: Sam Shepard and the Anxiety of Identity by John Blackburn

cultura às mãos de Zaha Hadid

Edifícios que não chegarão a Lisboa, o globo divide-se pelos vários gabinetes de arquitectos, sistemas solares, estrelas. Uma das estrelas, com projectos simultâneos em todos os continentes, é a iraquiana de nascimento e radiacada em Londres, Zaha Hadid. As formas fluidas de novas paisagens.

O Centro de Artes Performativas em Abu Dhabi, nos Emiratos Árabes Unidos: "In Hadid’s Performing Arts Centre concept, a 62 metre high building is proposed housing five theatres – a music hall, concert hall, opera house, drama theatre and a flexible theatre with a combined seating capacity for 6,300 – that’s 1,100 more than London’s Royal Albert Hall. The Centre may also house an Academy of Performing Arts." (mais, aqui)















E aqui, o projecto para o Museu de Arte Contemporânea de Cagliari, na Sardenha, em Itália. Os projectos culturais, aliás, são a maioria do trabalho de Hadid. Mais sobre este projecto, aqui.











O blogue, a ir seguindo.

"For an architect," she says, "everything connects. The design of a handbag, or furniture or cutlery [Hadid has recently produced designs for three] have their challenges, and they're fun to do. I'd love to get some designs into mass, low-cost production. I want to be able to touch everyone, not just the educated and cultural elite, with a little of what we can do. One of the things I feel confident in saying we can do is bring some excitement, and challenges, to people's lives. We want them to be able to embrace the unexpected." (daqui)

doze

12. Doze. Doze dias de ausência.
Quando abri os olhos à beira do segundo, tentei não pensar em ti.

Saturday, March 29, 2008

recomeçar

"(...)Penso no cérebro como o atlas vivo das grandes marchas do homem. Uma massa luminosa capaz de abranger os infinitos da mais impossível grandeza, do maior sempre maior ao mais ínfimo dos mais ínfimos, mas que se revolve ou se retém a um minúsculo sopro de pó; que se descodifica e resta neutro, terminado; que se recompõe e nos torna de novo vivos a um traço calculado da ciência.

Sinto-me tomado de gratidão. Isto de alguém se recomeçar assim depois de nulo é algo que deslumbra e ultrapassa."

De Profundis, Valsa Lenta
José Cardoso Pires

Esta janela viva para o mais profundo do cérebro aberta por Cardoso Pires deixa-me sem comentários. Paisagens; algumas que eu tinha imaginado, outras que descobri pela primeira vez. Do prefácio-carta inicial, adorei ler esta linha de João Lobo Antunes sobre o escritor: "V., que tem espírito geométrico, e não foi matemático porque não quis..."

Friday, March 28, 2008

fim de dia princípio de semana

Eyes still hurting from the afterglow of the lilly-white.
Stunned but ready. Foraging is over.

The infidelity check (reissued from July 31st 2003)

The quiet state of Kansas is not a liberal one. Life is comfortable and runs smooth, there is no big incentive to look further, it is so perfect already.

The state's most outstanding self-denial has been the controversy involving creationists and evolunionists. This is a local issue but I believe it falls under the same roof as the percentage of Americans who believe they have been abducted by aliens and the number of people who actually think that Neil Armstrong's walk on the moon was just a TV trick.

Topeka's daily newspaper, the Topeka Capital Journal, like any other newspaper or TV station on the planet, bears its share of responsiblity. Wanting to know what's going on in arts and culture (trying to defeat the notion that nothing goes on around here), I flipped through the newspaper's many pages and found nothing. No symphony concerts, no exhibitions, performing arts are just missing. Book reviews? Not really. It apparently has to do with the day of the week.

But I found fun headlines: "Fine furniture, family, make for fine life" and "Web site aims to catch spouses who cheat online". Life is still perfect, what a relief.


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Yesterday and today, a snapshot in time with a few of today's headlines:
US & World
US jets drop bombs in Basra
Consumer spending weak in February
Dean: Bickering Democrats may hurt party
Raul Castro: Cubans can have cell phones
Police close off Lhasa's Muslim quarter
North Korea tests short-range missiles
Strange
Man writes check on 2-ply toilet paper
Iowa county board OKs ghost hunters
Runaway SUV knocks man off his toilet
Woman crashes into water, saves coffee
Woman trying to help after crash bitten
Soap, undies stolen in odd home robbery

No dia em que o Correio da Manhã tiver uma secção chamada "Strange", aí sim, há razão para alarme.

uma das 3.835 razões por que eu sou uma péssima mãe



Ó mãe, hoje irritei-me. Estavamos na aula a falar e uma miúda candidata a MTV Barbie começou a dizer que gostava de peles, que os casacos de chinchila eram os melhores, que eram macios. Eu disse que tinha uma chinchila e descrevi como são mortas as chinchilas para fazer casacos. Já estava a ficar verde e com as mãos a suar... E ela disse "qual é o problema?", que odeia bichos e que por ela morriam todos, que são nojentos e mal cheirosos e que as chinchilas só servem é para fazer casacos. O que essa miúda precisava é que lhe metessem um sapo dentro da mochila... (eu, pois). Ou outro bicho qualquer. Hmmm... Lá na escola há muitas maria-cafés... O que é isso? Aquelas lagartinhas pretas que se enrolam... Essas são mesmo boas, podes apanhar uma mão cheia delas. Mas a escola tem câmaras por todo o lado, menos nas aulas e em certos ângulos. Vai ter de ser dentro da sala de aula! Vê lá... não sejas apanhada! (e já agora, não filmes com o telemóvel).

Thursday, March 27, 2008

ora cá vai

Para quem se aguentar até lá, esse distante fim-de-semana.



Salsa de laranja e abacate
O quê
: 2 abacates pequenos cortados aos bocados (assim), 1 cebola vermelha bem picada, 2 colheres de sopa de azeite, 1 malagueta fresca picada, 2 laranjas descascadas e cortadas em pedaços, 6 rabanetes cortados em fatias finas, 2 colheres de sopa de coentros picados.
Como: Misturar todos os ingredientes e acrescentar umas gotas extra de laranja e limão.

Esta salsa acompanha e molha qualquer carne grelhada que, idealmente tenha sido marinada numa mistura de 3 colheres de sopa de sumo de laranja e uma de sumo de limão, 1 dente de alho picado, meia colher de chá de pasta de chili, 1 colher de chá de mel e meia colher de chá de paprika fumada, 1 colher de chá de raspa de laranja, 1 colher de sopa de azeite e 1 colher de sopa de molho de soja. Marinada longa... de um dia para o outro. Bem com carne clara, porco ou aves.

Da cada vez melhor Blue Cooking, esta em formado de quase bolso, "prática e saudável" dizem eles, um tiro no porta-aviões digo logo eu. Neste caso, para quem gosta de boca doce.

enfim

Depois disto e daquilo, um dia de merda.

"The God Abandons Antony", Leonard Cohen em Lisboa

Um dos favoritos, Cavafy, na brisa de uma das minhas letras favoritas de Leonard Cohen. Afinal esta inspirada naquele: "The work of Cavafy has touched and influenced me for many years. Even as I write this, there is a picture of him above my desk." (Leonard Cohen) Em baixo, os dois, anunciando a vinda de Cohen a Lisboa no próximo dia 19 de Julho.

The God Abandons Antony
Constantine P. Cavafy (1911)

When suddenly, at the midnight hour,
an invisible troupe is heard passing
with exquisite music, with shouts --
your fortune that fails you now, your works
that have failed, the plans of your life
that have all turned out to be illusions, do not mourn in vain.
As if long prepared, as if courageous,
bid her farewell, the Alexandria that is leaving.
Above all do not be fooled, do not tell yourself
it was a dream, that your ears deceived you;
do not stoop to such vain hopes.
As if long prepared, as if courageous,
as it becomes you who have been worthy of such a city,
approach the window with firm step,
and with emotion, but not
with the entreaties and complaints of the coward,
as a last enjoyment listen to the sounds,
the exquisite instruments of the mystical troupe,
and bid her farewell, the Alexandria you are losing.


Alexandra Leaving
Leonard Cohen

Suddenly the night has grown colder.
The god of love preparing to depart.
Alexandra hoisted on his shoulder,
They slip between the sentries of the heart.

Upheld by the simplicities of pleasure,
They gain the light, they formlessly entwine;
And radiant beyond your widest measure
They fall among the voices and the wine.

It's not a trick, your senses all deceiving,
A fitful dream, the morning will exhaust -
Say goodbye to Alexandra leaving.
Then say goodbye to Alexandra lost.

Even though she sleeps upon your satin;
Even though she wakes you with a kiss.
Do not say the moment was imagined;
Do not stoop to strategies like this.

As someone long prepared for this to happen,
Go firmly to the window. Drink it in.
Exquisite music. Alexandra laughing.
Your firm commitments tangible again.

And you who had the honor of her evening,
And by the honor had your own restored -
Say goodbye to Alexandra leaving;
Alexandra leaving with her lord.

Even though she sleeps upon your satin;
Even though she wakes you with a kiss.
Do not say the moment was imagined;
Do not stoop to strategies like this.

As someone long prepared for the occasion;
In full command of every plan you wrecked -
Do not choose a coward's explanation
that hides behind the cause and the effect.

And you who were bewildered by a meaning;
Whose code was broken, crucifix uncrossed -
Say goodbye to Alexandra leaving.
Then say goodbye to Alexandra lost.

Say goodbye to Alexandra leaving.
Then say goodbye to Alexandra lost.

Publicado também no livro de 2006, a ler, Book of Longing.

Coffee and Cigarettes de Cristi Puiu

No dia em que se anuncia o Indie Lisboa 2008, com destaque para o novo cinema romeno, aproveito para trazer uma curta-metragem de Cristi Puiu, "Coffee and Cigarettes".




"Coffee and Cigarettes" is a short film by young Romanian director Cristi Puiu. An old man meets his son at a fancy city café in what we assume is Bucharest. He is bringing coffee and cigarettes, a token for corruption. The difficulties of new times, leftovers from the old times.

I have seen the same disillusioned stare at Europe before, by Romanian cartoonists and other artists coming from old Eastern Bloc countries. There is a pervading feeling of disappointment; much was expected from the riches of the EU, from the eternal “Eldorado” of the West but, as re-unification happens, some groups remain critical of what they see as loss of identity, a price to pay for the facilitations of market economy. On the other side of the golden land of consumerism, work benefits disappear, culture is no longer subsidised, the welfare state is no longer viable while chronic problems, such as corruption – echoed in this short film – still thrive, as if nothing changed at all.

Another theme, more universal and less specific to Eastern bloc countries, is that of old age. Growing old today, whether in Romania or in any other part of the western world, is a hard and a lonely walk. I wonder what it will be like for us, generations of divorce, when our time comes and there is nobody to take care of, nobody to stay there the night, loneliness is only going to get worse.

I did enjoy the acting very much. Such a simple story, two people talking at a coffee table, and so much to take from what they say and the way they say it. A great short film, I cannot wait to see this Director's work in Lisboa next month.
- - -

"Quando ao Novo Cinema Romeno, Miguel Valverde explicou que a opção surgiu por «este ser um fenómeno emergente na Roménia e ao nível internacional», nomeadamente com a recente conquista da Palma de Ouro no Festival de Cannes pelo filme 4 meses, 3 semanas e 2 dias, do realizador romeno Cristian Mungiu.

Na programação do festival estarão 28 filmes de cineastas romenos, nomeadamente, de Cristi Puiu, Cristian Mungiu, Corneliu Porumboiu, Tomas Ciulei, Cristian Nemescu, Hanno Hoffer, Adina Pintilie e Paul Negoescu."
(
do SOL)

E quanto a portugueses, estou curiosa com a curta de Rui Xavier, recentemente premiado em Berlim, com "Superfície". Outro destaque do Festival, "Terra Sonâmbula", de Teresa Prata, aqui muito bem revisto por Jugu Abraham.

O Indie no YouTube.

Arredores de Albufeira...

... e a última vez que me distraio e deixo a máquina pôr a data em todo o lado.



Albufeira arredores

Ao som de Tyler Dow Bryant. (myspace here)

a ver e a ler

Rock n'Roll

Wednesday, March 26, 2008

mentes perigosas

"With all memory and fate driven deep beneath the waves, Let me forget about today until tomorrow. Hey! Mr. Tambourine Man, play a song for me." (Mr. Tambourine Man, Bob Dylan)

Mentes Perigosas retrata a realidade de uma professora colocada num liceu cujos alunos são considerados problemáticos ("os rejeitados do inferno"). Baseado na história verídica de LouAnne Johnson, o filme veio a servir de modelo a outros filmes baseados na mesma premissa: os adolescentes de zonas difíceis, que têm de sobreviver na selva urbana, são tão dignos de atenção e tão capazes de ser recuperados como quaisquer outros. Vítimas, mais do que criminosos, a violência de que se rodeiam e de que são rodeados é apenas a sua defesa, mas também um perpetuar da sociedade em que são obrigados a viver.

Como em todos os filmes do género, a professora tem de alterar profundamente a sua estratégia para conseguir sequer comunicar com um grupo de miúdos que vêm de diferentes minorias e que a chamam "white bread" (pão branco). A mudança mais visível é a visual: a professora aproxima-se dos valores da turma, vestindo o "uniforme" que julga cativar ou pôr mais à vontade a sua "audiência". Ao diferente aspecto físico, segue-se uma auto-caracterização de "durona", ensinando karaté e usando calão, semelhante à linguagem dos alunos. Tendo conseguido captar a atenção dos seus alunos, a professora tenta então mostrar-lhes algo de novo, abrir portas através da poesia, aliás um pouco à semelhança de outro filme de referência neste género, O Clube dos Poetas Mortos. A poesia é primeiro introduzida na aula através da canção "Mr. Tambourine Man" de Bob Dylan. Depois, recorrendo à promessa de chocolates e bolos, a professora lança uma espécie de concurso: quem conseguir encontrar ecos de Bob Dylan em poemas de Dylan Thomas é recompensado. Muito como no cinema, mas neste caso concreto também na vida real, estes esforços são recompensados e, no final do filme, tudo acaba bem e os miúdos redimem-se perante a professora e perante o público pedindo-lhe que fique na escola.

Na situação actual em que muitas questões se levantam sobre a violência nas escolas, este filme tem o demérito de colocar toda a responsabilidade pela reabilitação dos alunos numa única professora. O sistema falha redondamente, as famílias são inexistentes ou apenas mais uma fonte de problemas do que a sua resolução, o ambiente da escola é pouco propício ao ensino, os problemas sociais que causam a disfuncionalidade dos alunos são simplesmente aceites como inevitáveis. Partindo destes pressupostos, aceita-se claramente a ideia de que não há solução para a criminalidade na idade escolar, nem sequer para a criminalidade que rodeia a escola. Ponto de vista que funciona no cinema, mas funciona muito mal na realidade onde os olhos deveriam cair nas origens do problema e não apenas na excepção. A resolução de problemas graves através da poesia, por muito que eu goste pessoalmente de poesia, também me deixa um amargo de boca.

Outro aspecto que tem sido apontado por críticos mais próximos da realidade social que o filme retrata é o desajuste e um certo paternalismo nas escolhas poéticas da professora: dois consagrados homens da palavra, o melhor bardo Bob Dylan e o melhor poeta, Dylan Thomas, mas também duas figuras que supostamente pouco têm a ver com o enquadramento social do filme. Nem um nem outro representam minorias. A meu ver, uma crítica desajustada e pouco lógica (pela mesma ordem de ideias, apenas pintores marginais teriam lugar nas aulas de pintura de escolas de bairros problemáticos).

À parte as críticas mais ou menos pertinentes, e à parte o sucesso ou insucesso do filme, dos actores e do seu argumento, eu retiraria (aproveitaria) aquilo que é melhor no filme e que, ao mesmo tempo, lhe é completamente alheio: a letra de Bob Dylan e o poema de Dylan Thomas. A comparação de ambos, isto sim, vale pelo filme inteiro.

Do not go gentle into that good night
Dylan Thomas

Do not go gentle into that good night,
Old age should burn and rave at close of day;
Rage, rage against the dying of the light.

Though wise men at their end know dark is right,
Because their words had forked no lightning they
Do not go gentle into that good night.

Good men, the last wave by, crying how bright
Their frail deeds might have danced in a green bay,
Rage, rage against the dying of the light.

Wild men who caught and sang the sun in flight,
And learn, too late, they grieved it on its way,
Do not go gentle into that good night.

Grave men, near death, who see with blinding sight
Blind eyes could blaze like meteors and be gay,
Rage, rage against the dying of the light.

And you, my father, there on the sad height,
Curse, bless, me now with your fierce tears, I pray.
Do not go gentle into that good night.
Rage, rage against the dying of the light.

Let Me Die in My Footsteps
Bob Dylan

I will not go down under the ground
‘Cause somebody tells me that death’s comin’ ‘round
An’ I will not carry myself down to die
When I go to my grave my head will be high,
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
There’s been rumors of war and wars that have been
The meaning of the life has been lost in the wind
And some people thinkin’ that the end is close by
"Stead of learnin’ to live they are learning to die.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
I don’t know if I’m smart but I think I can see
When someone is pullin’ the wool over me
And if this war comes and death’s all around
Let me die on this land ‘fore I die underground.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
There’s always been people that have to cause fear
They’ve been talking of the war now for many long years
I have read all their statements and I’ve not said a word
But now Lawd God, let my poor voice be heard.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
If I had rubies and riches and crowns
I’d buy the whole world and change things around
I’d throw all the guns and the tanks in the sea
For they are mistakes of a past history.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
Let me drink from the waters where the mountain streams flood
Let me smell of wildflowers flow free through my blood
Let me sleep in your meadows with the green grassy leaves
Let me walk down the highway with my brother in peace.
Let me die in my footsteps
Before I go down under the ground.
Go out in your country where the land meets the sun
See the craters and the canyons where the waterfalls run
Nevada, New Mexico, Arizona, Idaho
Let every state in this union seep in your souls.
And you’ll die in your footsteps
Before you go down under the ground.

erótica

"Outrora (numa época em que a arte erudita era escassa), era talvez revolucionário e criativo interpretar obras de arte. Hoje já não é. Decididamente, hoje não precisamos de assimilar mais a Arte ao Pensamento, ou (pior ainda) Arte à Cultura.

Hoje, a interpretação pressupõe a experiência sensorial da obra de arte, e parte daí. Mas isto não pode ser considerado um pressuposto. Pensemos na mera multiplicação das obras de arte que se oferece a cada um de nós, acrescentada aos sabores, odores e visões conflituosas do ambiente urbano que bombardeiam os nossos sentidos. A nossa é uma cultura baseada no excesso, na superprodução; a consequência é uma perda constante de acuidade da nossa experiência sensorial. Todas as condições da vida moderna - a sua plenitude material, a sua simples aglomeração - combinam-se para entupir as nossas faculdades sensoriais. E é à luz das condições dos nossos sentidos, das nossas capacidades (e não das de outra época), que a tarefa do crítico deve ser avaliada.

O que importa agora é recuperar os nossos sentidos. Devemos aprender a ver mais, ouvir mais, sentir mais.

Nossa tarefa não é descobrir o maior conteúdo possível numa obra de arte, muito menos extrair de uma obra de arte um conteúdo maior do que já possui. A nossa tarefa é reduzir o conteúdo para que possamos ver a coisa em si.

Hoje, o objectivo de todo o comentário sobre arte deveria visar tornar as obras de arte - e, por analogia, a nossa experiência - mais e não menos reais para nós. A função da crítica deveria ser mostrar como é que é, até mesmo que é que é, e não mostrar o que significa.

Em vez de uma hermenêutica, precisamos de uma erótica da arte."

Susan Sontag em Contra a Interpretação

Once upon a time (a time when high art was scarce), it must have been a revolutionary and creative move to interpret works of art. Now it is not. What we decidedly do not need now is further to assimilate Art into Thought, or (worse yet) Art into Culture.

Interpretation takes the sensory experience of the work of art for granted, and proceeds from there. This cannot be taken for granted, now. Think of the sheer multiplication of works of art available to every one of us, superadded to the conflicting tastes and odors and sights of the urban environment that bombard our senses. Ours is a culture based on excess, on overproduction; the result is a steady loss of sharpness in our sensory experience. All the conditions of modern life--its material plenitude, its sheer crowdedness--conjoin to dull our sensory faculties. And it is in the light of the condition of our senses, our capacities (rather than those of another age), that the task of the critic must be assessed. What is important now is to recover our senses. We must learn to see more, to hear more, to feel more.

Our task is not to find the maximum amount of content in a work of art, much less to squeeze more content out of the work than is already there. Our task is to cut back content so that we can see the thing at all.

The aim of all commentary on art now should be to make works of art--and, by analogy, our own experience--more, rather than less, real to us. The function of criticism should be to show how it is what it is, even that it is what it is, rather than to show what it means.

In place of a hermeneutics we need an erotics of art.

pp.4-14, here.

Tuesday, March 25, 2008

e ainda

now and always and again and again:

Bandit Blues Radio
100% Kick Ass Blues Rock Radio
The Rude Mood Station


First off let me say that you have great taste in music. Who is the Bandit? Well I won't reveal just who I am, but I will tell you that I reside in Wartrace, Tennessee and I am married, and have two boys and a dog, I also have to work for a living (Building Cars) and the internet and music are just hobbies of mine, so with that in mind the creation of Bandit Blues Radio was just a matter of time.

This site was created almost by accident! I was playing around with building websites just learning the IN's and Out's and while doing this I used to put 4 or 5 of my favorite CD's in the CD Player and push rotate, well this got tiresome so I started to put my mp3's on my computer but with only a 4 gig hard drive at the time it just wasn't working very well. Then one day a friend sent me a link to Live365.com and Bandit Blues Radio was born on Sept 16th, 2000.

I always wanted to work in the music industry, but never learned to play any instruments and I don't have a degree in any kind of mass media field so this really has fulfilled my desire of being in the music business, although it' not a big part of the music business it sure seams to work for me. Now we are one of the Top radio stations on Live365.com.

If you are considering making your own internet radio stream some words of experience would have to be don't give up, and prepare for lots of changes sometimes almost daily changes that will cause you to pull your hair out. Listeners come and go by the hundreds but your true audience will stay with you through the long haul and to always do it for the music because there isn't allot of money in this unless you have allot of money backing you!

("About the Bandit", from the Bandit Blues website)


Agora mesmo, Freddie King.

plums



This Is Just To Say
by william carlos williams

I have eaten
the plums
that were in
the icebox

and which
you were probably
saving
for breakfast

Forgive me
they were delicious
so sweet
and so cold



--
Mais, aqui.
Too inquisitive to find aromas in self-immersed constructions, I aim for the sweetness of drool.

marina de Albufeira



Marina de Albufeira

"Não dão liberdade aos arquitectos portugueses"
parte de uma entrevista do Arquitecto Tomás Taveira ao Mundo Universitário,
aqui na íntegra em .pdf. (Maio 2004)


Mundo Universitário Considera-se um provocador?

Tomás Taveira A provocação está na cabeça de cada um. O facto de eu fazer uma arquitectura não alinhada com o “nacional-fundamentalismo” gera uma reacção natural. As
pessoas normais e mesmo os intelectuais, estão pouco habituados a ter que “ler” objectos que não se enquadram no neo-racionalismo. Pior, objectos que os obrigam a estudar estética e filosofia o que é ainda extremamente difícil, para gente preguiçosa e tendenciosa. Tudo quanto parece diferente é tido como uma “provocação”, o que é manifestamente errado.

MU Nietzche definiu a arquitectura como “música parada no tempo”. Homem, músico, artista plástico e arquitecto, são um e todos o mesmo?

TT Não conheço essa afirmação, mas o homem não é unidimensional e por isso pode ter “descontinuidades” grandes. O facto de alguém ser um bom arquitecto não faz dele um artista. Já o facto de produzir arte, faz com que o arquitecto seja efectivamente um artista plástico, mas mais uma vez há que distingui-lo do “humano”. Há vários homens num só, assim como há vários arquitectos e artistas num só arquitecto.

MU Há uma cultura do risco nos seus projectos?

TT A estética que eu acredito ser a melhor para a construção dos objectos que devem povoar a cidade não é o Modernismo nem o neo-Racionalismo. É precisamente o contrário. É uma estética free style, neo-brutalista e expressionista. Os meus objectos distinguem-se e mostram uma clara rotura com o ambiente da criação arquitectónica portuguesa e não só.

MU Existe um tirania do “bom gosto” em Portugal?

TT O que existe é efectivamente uma marginalização nacional e internacional relativamente a todas as estéticas não modernistas. Quem não é seguidor de Keneth Frampton – o grande divulgador da ideia de que tudo quanto se faz deve ser modernista – não é publicado, não é convidado para concursos internacionais e não é convidado para dar aulas ou conferências em Universidades reconhecidas internacionalmente. Existe efectivamente uma tirania estética –
da qual apenas Frank Gehry se conseguiu libertar -, que em Portugal é mantida rigidamente pelos “polícias” culturais da Ordem dos Arquitectos e pelos cronistas do jornal Público. Assim destaco alguns nomes que têm dado cabo da hipótese da democracia chegar à arquitectura tais como o Manuel Graça Dias, a Ana Tostões, a Ana Vaz Milheiro, o João Rodeia (presidente
do IPPAR) e naturalmente a presidente da Ordem dos Arquitectos (Helena Roseta).

MU Em Lisboa, na altura do grande incêndio do Chiado, defendeu uma renovação total da zona. Não há um risco acrescido nesse tipo de intervenção urbanística?

TT Não tenho por hábito “pessoalizar” as minhas críticas. Muito menos quando está em causa um grande arquitecto [Siza Vieira], que honra tudo e todos. A minha ideia de cidade não conduz a que se abandonem as pré-existências ambientais, mas também não conduz a que haja relativamente a elas uma total subserviência como foi o caso do Chiado. Penso, que uma atitude mais “libertária”, mais inovadora e mais crítica, teria sido importante para manter a vitalidade
daquela área.

MU A Expo’ 98 foi uma oportunidade de renovação da cidade bem aproveitada?

TT Aí está um caso em que sou suspeito. Primeiro, porque o plano geral foi da autoria de um grande amigo e grande arquitecto, o Luís Vassalo Rosa. Segundo, porque eu próprio planeei a zona central. Contudo, a minha parte do plano foi totalmente vandalizada pelo Mega Ferreira
e seus sequazes e das suas intenções resta nada. Como ambiente geral penso que é uma área de
Lisboa onde não me desagradaria viver.

MU Frank Gehry para o Parque Mayer, Oscar Niemeyer como hipótese para a nova Sé de Lisboa. Falta visibilidade externa aos arquitectos portugueses?

TT Há uma tendência “bacoca” para convidar arquitectos estrangeiros. Começou com João Soares, que nada sabe de arquitectura, mas é verdade que eles podem ajudar a pôr Portugal no mapa. Bilbau não “existia” antes de Frank Gehry ter construído o Museu Guggenheim. Por analogia pode pensar-se que os arquitectos estrangeiros podem fazer obras que espantem, porque lhes dão toda a liberdade. A verdade é que aos portugueses não dão liberdade nenhuma.
Muito pelo contrário. Eu, por exemplo, estou há 20 anos à espera que me aprovem um projecto no Areeiro e dez à espera que me aprovem um projecto no Saldanha.

MU Existe ainda algum sonho, obra ou projecto que gostasse de concretizar?

TT Tenho efectivamente vários sonhos e projectos que gostaria de concretizar em plena liberdade, como sejam o acabar a Marina de Albufeira, a malha 5 da Alta de Lisboa (Zona
Central), assim como o seu Centro Cívico e Cultural. Gostaria ainda de participar activamente na construção da nova cidade de Sesimbra.

MU Incomodam-no as críticas, o uso pejorativo da expressão “Taveirada”?

TT Este tipo de expressão tem dois tipos de entendimento. Uma que de facto pode ser entendida como “pejorativa” e será usada por mentes doentias, mas que sentem apesar de tudo a diferença da minha arquitectura face à “outra”, que nem sequer vêem. Outro entendimento pode ser o da comunicação mais fácil entre gente normal, que para mostrar que algo é diferente lhes chama “Taveiradas”. Há assim uma parte genuína e outra doente...

MU Qual é a sua opinião acerca da qualidade do ensino da arquitectura em Portugal?

TT Naturalmente a pior. Não há democracia nas escolas e existe mesmo uma hegemonia – comandada pela escola do Porto. – que impõe que só se ensine uma “estética”. Nem sequer duas. No fundo existe apenas uma escola, já que em todas se ensina sempre a mesma arquitectura,
sem crítica. Isto reflecte-se nas publicações e nas exposições onde as diferentes obras parece serem feitas pelo mesmo arquitecto. Em Portugal todos fazem a mesma arquitectura, para mostrarem subserviência face à Ordem [dos arquitectos]. Vivem num “guetto de Varsóvia”
arquitectónico.

MU Há pouca continuidade entre o ensino universitário e as perspectivas profissionais? Em todos os ramos?

TT As oportunidades de trabalho em Portugal são muito poucas para os jovens arquitectos. Só se salvam os que se “deitam” disciplinadamente com a Ordem, mas mesmo assim não há lugar para todos. Restam as afinidades electivas, as cunhas, os lobbies e a sorte.

Hoje ouve-se... Júlio Resende



Quarteto Júlio Resende.

Uma das mais importantes forças da nova geração de músicos Portugueses, o
pianista Júlio Resende, foi inicialmente orientado por um dos mais significativos
pedagogos do Jazz nacional, Zé Eduardo, prosseguindo os seus estudos com Rodrigo
Gonçalves e Pedro Moreira, outro grande pedagogo português. Resende tem também
um background na Música Clássica mas cedo descobriu que não ficava satisfeito em
ser apenas um intérprete de peças musicais em que não pudesse improvisar. Decidiu
então estudar e trabalhar com os melhores mestres do Hot Clube, New School for
Jazz and Contemporary Music, a Berklee College of Music, e a Bill Evans Academy
entre o tempo que passou na Université de St. Denis em Paris. “Da Alma” (“From the
Soul”) é o primeiro disco de Júlio Resende e é uma estreia muito promissora.
Enraízado na tradição, mas com uma abordagem criativa, aberta e moderna, a sua
música é brilhante, colorida, sedutora, intrincada e bela. Resende tem um talento
natural para a melodia. “Da Alma” apresenta duas configurações do seu quarteto: João
Custódio, contrabaixo em todos os temas, Alexandra Grimal (saxofonista parisiense,
que prova que a presença feminina também no Jazz instrumental se exige) e Zé Pedro
Coelho a dividirem o lugar de saxofonista tenor (que partilham em “Jinha”) e João
Lobo e João Rijo a dividirem a cadeira de baterista. Tal como Júlio Resende, todos
estes músicos são muito jovens e talentosos. Digamos que o “futuro” do Jazz em
Portugal é agora feito “presente” com este disco – “Da Alma”


Texto incluído no presskit que pode ser consultado no site do Quarteto,
por ocasião do lançamento do disco "Da Alma".


Este grupo tirei-o da portuguesa Clean Feed Records, uma das cinco melhores editoras de jazz do mundo ( já pela terceira vez) e a editora tirei-a do Mais Cedo, na TSF. Pescadinhas de rabo na boca. Comprar o disco, aqui.

E em inglês, taken from the Cleanfeed Records website:
One of the most significant forces in the new generation of jazz musicians in Portugal, pianist Júlio Resende was initially taught by one of the leading Portuguese jazz pedagogues, Zé Eduardo, and then followed by Rodrigo Gonçalves and Pedro Moreira. Resende had a classical background, but soon he found out he was not satisfied to play compositions he could not improvise over. He decided to study and work with the best masters from the New School for Jazz and Contemporary Music, the Berklee College of Music, and the Bill Evans Academy, in between spending time at the Université de St. Denis in Paris. “Da Alma” (“From the Soul”) is the first title he has recorded under his name and it is a promising debut. Rooted in the bop tradition, but with a creative, open, andmodern approach, the music is bright, full of color, seductive, and sometimes exquisite. Resende has a strong flair for melody. Here we have two configurations of his quartet: João Custódio (double bass) a constant member, Alexandra Grimal and Zé Pedro Coelho alternating on the tenor saxophone (both on “Jinha”), and João Lobo and João Rijo taking shifts on the drum set. Like Resende, all of them are young and talented improvisers. The future of jazz in Portugal will come from here.

Sunday, March 23, 2008

salada de verdes

Para memória futura, mas esta não fui eu, foram eles.




Salada doce de espinafres e arugula
O quê: arugula e espinafres, pêra às fatias, pequenas, queijo em pedaços ou tiras, mel às camadas.
Mais nada.

Saturday, March 22, 2008

completion and connection, Paul Neagu



(Before anything I would like to thank Silvia for the comment on my Antony Gormley post. )Paul Neagu was born in Romania in 1938 and died in London in 2004. From his body of work, I have chosen the Hyphen pieces for their striking first impression and for the implications in meaning and the written word. Neagu has been considered the most important Romanian artist since Brancusi.

"Hyphen, from the Greek 'hyph' hen," means "under one" or "into one," that is, "together." The hyphen is a connector, linking elements usually thought of as antithetical and irreconcilable It thus accomplishes a kind of miracle, bringing together what ordinarily seems to exist autonomously and apart, and creating something new in the process. Indeed, it has been argued that such a seemingly absurd process is creativity in dialectical action: things that don't seem meant to work together unexpectedly do so, to the enlightenment and benefit of everyone, What seemed unnatural and impossible suddenly becomes normal and predictable.

But Paul Neagu's hyphen raises an important question: does the hyphen force the union, as it were, or does it merely propose and suggest its possibility? Does it express the wish for togetherness or its reality? Does the hyphen acknowledge an inherent tendency to unity among incommensurate things - but not necessarily its realization does the hyphen convey the actuality and durability of unity? Neagu's hyphen construction is intriguing by reason of its absurdity. On the one hand, it is a convincing unity - a kind of occult balance - of ostensibly incongruous parts: three legs curving toward the ground and ending in clawlike points, support a large rectangle. On the other hand, the discrepancy between the parts is glaring, to the extent that we feel the construction is about to fail apart or lose its balance arid collapse - that it is all too tentative. And yet it is stable enough, however much it stands precariously on tiptoe, like a bizarre ballet dancer poised to spring - the elongated third leg, attached to the center of one side of the rectangle, is a kind of leap of faith in itself - and however tense the relationship between its parts.


The beginning of an interesting article on Neagu's Hyphens,"Paul Neagu's Hyphen Sculptures" by Donald Kuspit.









An obsession for the Hyphen shape: "Influenced in part by Cubism, Marcel Duchamp and Brancusi, these geometric, skeletal forms in materials ranging from wood to steel suggest completion as well as connection. The bold visual language of each sculpture is cyclical and self-sufficient, while simultaneously providing a platform for further possibility. A natural tension exists in the dramatic, precarious balance of the anatomical constructions, for they seem to stand not as results of logic, but as a scaffold of symbolism." (from here)

Neagu himself has stated about the hyphen: "Hyphen is my recurrent instrument of work as the plough is for the farmer. Conceptually it relates the essence of the earth to the body of man and to the ideas of the harvest’" (from here).

"Sooner or later, anyone approaching Paul Neagu’s sculpture is bound to experience the challenge of his Hyphens. The prototype resembled an unconventional workbench or an easel for making objects or drawings. It was first exhibited in 1975 at the Museum of Modern Art in Oxford, where it generated much attention and curiosity. After that, the artist’s destiny changed. As if obsessed with the idea of his Hyphen being analogous to creation, he re-created the image in hundreds of drawings and scores of sculptural variations. For more than three decades, Neagu returned tirelessly to the theme of the three-legged table. His early variations, which were made in wood, show evident phallic properties. Using a subtle, playful approach, he alludes to the simple idea of the phallus as a coupling feature, a hyphen between two material entities.", from here.

Completion and connection. On and off.

Friday, March 21, 2008

Os 10 melhores livros ilustrados para crianças de 2007

A lista é do New York Times: Every Friday de Dan Yaccarino; Jabberwocky, ilustrado por Christopher Myers; The Arrival por Shaun Tan; First the Egg, ilustrado por Laura Vaccaro; Not a Box, ilustrado por Antoinette Portis; 600 Black Spots, ilustrado por David A. Carter; The Frog Who Wanted to See the Sea, ilustrado por Guy Billout; The Wall, ilustrated by Peter Sis; Old Penn Station, ilustrado por William Low; The Invention of Hugo Cabret, ilustrado por Brian Selznick.

De todos, tenho apenas The Arrival / Lá où vont nos pères, um livro muito bom, ainda por trazer ao blogue. O 600 Black Dots fez-me descobrir David A. Carter e os seus livros pop-up, muito bons, engenheiros do papel. A ter, definitivamente, o livro de Brian Selznick. A preto e branco, como gosto, tenho a certeza de já ter visto outras imagens deste ilustrador, não sei onde. Absolutamente apontado e sublinhado na lista de compras.







Um slideshow a ver, aqui.

""The Invention of Hugo Cabret," by Brian Selznick, is a more-than-500-page doorstopper, representing mutt fiction at its muttiest. The novel thrillingly blends elements of detective fiction, 19th-century orphan literature, story within a story, biography, graphic novel, comic strip, flip book, old black-and-white movie, and magic show. It is filled with the ticking of numerous machines, from automatons to movie projectors, from clocks to locks. It's a story about connections, dreams, loss, and art. It features one-eyed heroes, villains who smell "slightly of cabbages," and young pickpockets - and it all takes place in Paris."

Também no New York Times, aqui.

"The Invention of Hugo Cabret" ganhou também o prémio Caldecott 2007, atribuído ao melhor livro ilustrado para crianças. O seu público são crianças de 7/8 anos, mas não há limite de idade. E aqui, uma excelente, excelente review de Pedro Moura.

Em português é que ainda não, mas pode-se sempre comprar o "Emigrantes"/"The Arrival" de Shaun Tan por cerca de 22 euros, até porque recebeu o prémio europeu correspondente, o prémio de Fauve d'Or, de Angoulême. E porque é um livro muito bonito, para pequenos e graúdos. A editora é a Barbara Fiore Editora, de Espanha. Bastará ver o pequeno catálogo 2008 desta Editora para percebermos a diferença entre o mercado português e o espanhol. Digamos que o português não fica tão bem no retrato.

morning in the burned house

Just something I like.

Morning in the Burned House
Margaret Atwood

In the burned house I am eating breakfast.
You understand: there is no house, there is no breakfast,
yet here I am.

The spoon which was melted scrapes against
the bowl which was melted also.
No one else is around.

Where have they gone to, brother and sister,
mother and father? Off along the shore,
perhaps. Their clothes are still on the hangers,

their dishes piled beside the sink,
which is beside the woodstove
with its grate and sooty kettle,

every detail clear,
tin cup and rippled mirror.
The day is bright and songless,

the lake is blue, the forest watchful.
In the east a bank of cloud
rises up silently like dark bread.

I can see the swirls in the oilcloth,
I can see the flaws in the glass,
those flares where the sun hits them.

I can't see my own arms and legs
or know if this is a trap or blessing,
finding myself back here, where everything

in this house has long been over,
kettle and mirror, spoon and bowl,
including my own body,

including the body I had then,
including the body I have now
as I sit at this morning table, alone and happy,

bare child's feet on the scorched floorboards
(I can almost see)
in my burning clothes, the thin green shorts

and grubby yellow T-shirt
holding my cindery, non-existent,
radiant flesh. Incandescent.

ver as vistas em Silves

Prova de que os meus planos não funcionam, mas que os acontecimentos servem perfeitamente. Ia para ver o castelo e subir a Monchique: nem uma coisa nem outra. A metros do Castelo estava o pequeno cansado e demos a volta, evitei o percurso normal e apanhei vielas. Tanto melhor, a cor vermelha de Silves é arrasadora. O Museu fechado, a Casa da Cultura Árabe em local incerto, a Fábrica do Inglês fechada, se é que estava, e o restaurante marisqueira Casa Velha por onde pararam os dois forasteiros era sofrível. Mas o acepipe era divino. Rodelas de cenoura em azeite, muito alho e coentros, as azeitonas no mesmo acrescentado de colorau. Olhei para o pratinho e pensei que o resto ia condizer, e logo a seguir lembrei-me que por vezes lembramos sítios pelas coisas mais marginais. Foi o caso. De toda a refeição paga, valeu o pratinho. Já cá tinha estado há quase vinte anos, a impressão tinha sido a mesma. Uma mesa de ingleses, ao lado, aproveitava a sabedoria de forasteiros mais avisados e pedia peixe grelhado. Não há que enganar depois de lhe olhar para as guelras. Na distância uma colina com um moinho de vento. Apanhei uma qualquer banda a passar, falei com um homem gentil que preparava telas dentro da sua casa de janela aberta, e descobri o antigo posto do dragão que guardava a entrada da vila. Já não está lá, mas em Silves continuam a coexistir mouros e cristãos, uma sociedade tranquila e civilizada, com bárbaros de outros tempos. Ao contrário das construções, as que se desfazem em poeira vermelha, infinitamente mais interessante do que as mais recentes, o tecido humano ganha com conhecimentos mais largos, como sempre, em todo o lado. E o folar de Olhão ainda a falhar. Mas se não o encontrar, faço-o.



Silves, Algarve

gosto de ti

Gosto, gostamos, de quê? Na sexta-feira apropriada em que é suposto estarmos a gostar de qualquer coisa que não existe, dizem que é fé. Digo que é amor-próprio, sobrevivência, medo da morte, o cliché. Nem sei, nem poderia saber, nem sequer quereria saber os mistérios da fé. Mas a empatia, essa gosto de fatiar. Gostamos de nos ver em olhos alheios, gostamos de nos ouvir e que nos ouçam. Não gostamos de nada senão de nós. E depois de umbigo, depois da sobrevivência própria, por vezes há a empatia. Tal e qual como a descreveu JMV em comentário ao meu post sobre o filme "The Lovebirds": "Ou seja, a faculdade (que é às vezes também uma generosidade) de ver pelo ponto de vista do outro, de dar ao outro a possibilidade de ver ao nosso lado o que, do nosso ponto de visionamento, podemos ver, sentir e ser.." (Obrigada pelo comentário JMV, com o qual concordo em absoluto). Repudiando espelhos: "gostar de ti", dele, dela, daquilo, olhar por olhos alheios custa. E às vezes não.

Thursday, March 20, 2008

If I Forget Thee, Oh Earth, by Arthur C. Clarke

1917-2008

"Arthur C. Clarke, "Tallish, bespectacled, rather big-eared and increasingly thin on top, he tended to be described by his friends as a beaming and highly articulate shambles of a chap, a man to whom convention meant very little. Yet his mind was like a razor. Unlike earlier writers on space travel, his imagination and creativity sprang, not from fantasy, but from sharp scientific and technical insight, unfettered by the arbitrary limitations of the perceptions of his time. Clarke's amazing career was possible largely because he was never, in any ordinary sense, quite a part of this world. Indeed he chose to live in Sri Lanka, to some extent at least, because it helped him neutralise the influence of western culture. "
Todo o artigo no Guardian,
aqui.

If I Forget Thee, Oh Earth
By Arthur C. Clarke

When Marvin was ten years old, his father took him through the long, echoing corridors that led up through Administration and Power, until at last they came to the uppermost levels of all and were among the swiftly growing vegetation of the Farmlands. Marvin liked it here: it was fun watching the great, slender plants creeping with almost visible eagerness toward the sunlight as it filtered down through the plastic domes to meet them. The smell of life was everywhere, awakening inexpressible longings in his heart: no longer was he breathing the dry, cool air of the residential levels, purged of all smells but the faint tang of ozone. He wished he could stay here for a little while, but Father would not let him. They went onward until they had reached the entrance to the Observatory, which he had never visited: but they did not stop, and Marvin knew with a sense of rising excitement that there could be only one goal left. For the first time in his life, he was going Outside.

There were a dozen of the surface vehicles, with their wide balloon tires and pressurized cabins, in the great servicing chamber. His father must have been expected, for they were led at once to the little scout car waiting by the huge circular door of the airlock. Tense with expectancy, Marvin settled himself down in the cramped cabin while his father started the motor and checked the controls. The inner door of the lock slid open and then closed behind them: he heard the roar of the great air pumps fade slowly away as the Pressure dropped to zero. Then the "Vacuum" sign flashed on, the Outer door parted, and before Marvin lay the land which he had never yet entered.

He had seen it in photographs, of course: he had watched it imaged on television screens a hundred times. But now it was lying all around him, burning beneath the fierce sun that crawled so slowly across the jet-black sky. He stared into the west, away from the blinding splendor of the sun-and there were the stars, as he had been told but had never quite believed. He gazed at them for a long time, marveling that anything could be so bright and yet so tiny. They were intense unscintillating points, and suddenly he remembered a rhyme he had once read in one of his father’s books:

Twinkle, twinkle, little star, How I wonder what you are.

Well, he knew what the stars were. Whoever asked that question must have been very stupid. And what did they mean by "twinkle"? You could see at a glance that all the stars shone with the same steady, unwavering light. He abandoned the puzzle and turned his attention to the landscape around him.

They were racing across a level plain at almost a hundred miles an hour, the great balloon tires
sending up little spurts of dust behind them. There was no sign of the Colony: in the few minutes
while he had been gazing at the stars, its domes and radio towers had fallen below the horizon. Yet there were other indications of man’s presence, for about a mile ahead Marvin could see the
curiously shaped structures clustering round the head of a mine. Now and then a puff of vapor
would emerge from a squat smokestack and would instantly disperse.

They were past the mine in a moment: Father was driving with a reckless and exhilarating skill as if-it was a strange thought to come into a child’s mind-he were trying to escape from something. In a few minutes they had reached the edge of the plateau on which the Colony had been built. The ground fell sharply away beneath them in a dizzying slope whose lower stretches were lost in shadow. Ahead, as far as the eye could reach, was a jumbled wasteland of craters, mountain ranges, and ravines. The crests of the mountains, catching the low sun, burned like islands of fire in a sea of darkness: and above them the stars still shone as steadfastly as ever.

There could be no way forward-yet there was. Marvin clenched his fists as the car edged over the slope and started the long descent. Then he saw the barely visible track leading down the mountain-side, and relaxed a little. Other men, it seemed, had gone this way before.

Night fell with a shocking abruptness as they crossed the shadow line and the sun dropped below
the crest of the plateau. The twin searchlights sprang into life, casting blue-white bands on the
rocks ahead, so that there was scarcely need to check their speed. For hours they drove through
valleys and past the foot of mountains whose peaks seemed to comb the stars, and sometimes they emerged for a moment into the sunlight as they climbed over higher ground.

And now on the right was a wrinkled, dusty plain, and on the left, its ramparts and terraces rising mile after mile into the sky, was a wall of mountains that marched into the distance until its peaks sank from sight below the rim of the world. There was no sign that men had ever explored this land, but once they passed the skeleton of a crashed rocket, and beside it a stone cairn surmounted by a metal cross.

It seemed to Marvin that the mountains stretched on forever: but at last, many hours later, the range ended in a towering, precipitous headland that rose steeply from a cluster of little hills. They drove down into a shallow valley that curved in a great arc toward the far side of the mountains: and as they did so, Marvin slowly realized that something very strange was happening in the land ahead.

The sun was now low behind the hills on the right: the valley before them should be in total
darkness. Yet it was awash with a cold white radiance that came spilling over the crags beneath
which they were driving. Then, suddenly, they were out in the open plain, and the source of the
light lay before them in all its glory.

It was very quiet in the little cabin now that the motors had stopped. The only sound was the faint whisper of the oxygen feed and an occasional metallic crepitation as the outer walls of the vehicle radiated away their heat. For no warmth at all came from the great silver crescent that floated low above the far horizon and flooded all this land with pearly light. It was so brilliant that minutes passed before Marvin could accept its challenge and look steadfastly into its glare, but at last he could discern the outlines of continents, the hazy border of the atmosphere, and the white islands of cloud.

And even at this distance, he could see the glitter of sunlight on the polar ice.

It was beautiful, and it called to his heart across the abyss of space. There in that shining crescent were all the wonders that he had never known-the hues of sunset skies, the moaning of the sea on pebbled shores, the patter of falling rain, the unhurried benison of snow. These and a thousand others should have been his rightful heritage, but he knew them only from the books and ancient records, and the thought filled him with the anguish of exile.

Why could they not return? It seemed so peaceful beneath those lines of marching cloud. Then
Marvin, his eyes no longer blinded by the glare, saw that the portion of the disk that should have been in darkness was gleaming faintly with an evil phosphorescence: and he remembered. He was looking upon the funeral pyre of a world -upon the radioactive aftermath of Armageddon. Across a quarter of a million miles of space, the glow of dying atoms was still visible, a perennial reminder of the ruinous past. It would be centuries yet before that deadly glow died from the rocks and life could return again to fill that silent, empty world.

And now Father began to speak, telling Marvin the story which until this moment had meant no
more to him than the fairy tales he had once been told. There were many things he could not
understand: it was impossible for him to picture the glowing, multicolored pattern of life on the
planet he had never seen. Nor could he comprehend the forces that had destroyed it in the end,
leaving the Colony, preserved by its isolation, as the sole survivor. Yet he could share the agony of those final days, when the Colony had learned at last that never again would the supply ships come flaming down through the stars with gifts from home. One by one the radio stations had ceased to call: on the shadowed globe the lights of the cities had dimmed and died, and they were alone at last, as no men had ever been alone before, carrying in their hands the future of the race.

Then had followed the years of despair, and the long-drawn battle for survival in this fierce and
hostile world. That battle had been won, though barely: this little oasis of life was safe against the worst that Nature could do. But unless there was a goal, a future toward which it could work, the Colony would lose the will to live, and neither machines nor skill nor science could save it then.

So, at last, Marvin understood the purpose of this pilgrimage. He would never walk beside the
rivers of that lost and legendary world, or listen to the thunder raging above its softly rounded hills. yet one day-how far ahead?-his children’s children would return to claim their heritage. The winds and the rains would scour the poisons from the burning lands and carry them to the sea, and in the depths of the sea they would waste their venom until they could harm no living things. Then the great ships that were still waiting here, on the silent, dusty plains could lift once more into space, along the road that led to home.

That was the dream: and one day, Marvin knew with a sudden flash of insight, he would pass it on to his own son, here at this same spot with the mountains behind him and the silver light from the sky streaming into his face.

He did not look back as they began the homeward journey. He could not bear to see the cold glory of the crescent Earth fade from the rocks around him, as he went to rejoin his people in their long exile.

Este conto, parte de uma colecção de 23 livros, 1442 páginas, de Arthur C. Clarke, para fazer o download gratuito, aqui. (Em .pdf, cerca de 3Mb.)

Este conto na wiki.
My own reading.


Pouco típico de Clarke, este conto espelha o pessimismo da II Guerra, da Guerra Fria e do medo do confronto nuclar que assombraram a humanidade na segunda parte do século XX. Um pessimismo que Clarke não manteve, como nem poderia manter.

SPECTRUM: At one point, it had seemed that we were dangerously close to annihilating human beings on Earth through a nuclear war. While the specter of a nuclear holocaust has dimmed somewhat, newer nuclear threats (Iran, North Korea) haven’t eliminated it completely. Do you think the human race will survive the nuclear threat? Or are we bound to self-destruct?

CLARKE: I have often described myself as an optimist. I used to believe that the human race had a 51 per cent chance of survival. Since the end of the Cold War, I have revised this estimate to between 60 and 70 per cent. I have great faith in optimism as a philosophy, if only because it offers us the opportunity of self-fulfilling prophecy.

A entrevista inteira, de Outubro de 2007, aqui.

ouvido na rádio

Quando a lenha arde nas lareiras, no Natal, com as prendas, confortável, é sobro, não é de plástico. Eram árvores e vieram de algum lado.

Wednesday, March 19, 2008

andorinhas

Estação de serviço de Grândola (ou seria Alcácer?), debaixo de águas mil, ainda em Março, quatro ninhos de andorinhas. Os pássaros a esvoaçar, fugindo à chuva. Esvoaço também para Sul, onde encaixo na paisagem como uma luva, a lavar os olhos. Amanhã ou depois Monchique, talvez, que ainda não me cansei de serranias. As Caldas e a Fóia. Porco em molho de amêndoa ou cabrito com canela na Quinta de São Bento. Missão complementar: encontrar um Folar de Olhão. E outra: aperfeiçoar a arte da Margarita. Pintar ovos, brincar aos mouros na serra e inventar histórias encantadas. (Mãe, porque é que os mouros tiveram de ir embora? Why they couldn't share?) O que nos liga às coisas, hoje em estado doce-mel, às pessoas.


"“De resto, a desmemória não só o isolou da realidade objectiva, como o destituiu, pode dizer-se, de sentimentos. Perdeu os estímulos de aproximação porque, sem a consciência da identidade que nos posiciona e nos define num framework de experiências e de valores, ninguém pode ser sensível à valia humana do semelhante. As suas virtudes ou os seus males só podem ser reconhecidos como significantes sentimentais em contraponto com a consciência da nossa identidade, isto é, com a tradição da comunicação que praticamos com a sociedade e com a nossa memória cultural. A ele tal coisa estava-lhe vedada, memória onde tu já ias. Daí a total indiferença em que navegava à tona das comoções e dos afectos, uma indiferença extrema que, sucedesse o que sucedesse , não o levava a perturbar nem ao de leve a disciplina do ambiente. Na verdade, não sabia de todo onde se encontrava, a razão era essa.”(José Cardoso Pires in De Profundis, Valsa Lenta)
À gossip, que me deixou a pensar nisto desde dia 7.

the hacker's guide to quicktime

Just a thought...

os ovos não contritos



A minha religiosidade morreu à nascença, mas são estes os Feriados que temos - celebrar a morte dolorosa e sanguinolenta de - felizmente existem "tradições" paralelas e muito mais agradáveis do que não comer carne, fazer penitência e autoflagelação, esperar quatro horas por um almoço de família, ir à missa, ver qualquer um dos filmes sobre Cristo ou sobre os cristãos a serem devorados pelos romanos... Uma delas são os ovos de Páscoa a fazer a delícia de comerciantes e crianças e é esta a "tradição" que decidi escolher. Sábado, e quem sabe Domingo, vou espalhar dezenas de ovos e coelhos de chocolate pela casa para o meu miúdo encontrar. Sei que o vou ver feliz (e que se lixem as contrições).

Tuesday, March 18, 2008

The Chinese Master Spy

Nada como dantes. Um convite à leitura da nova BD de Fernando Relvas, novíssima pois podemos ler à medida que é feita (em Flash e numa placa Wacom). Só no fim sairá em papel, mas como promete o artista, nem é a mesma coisa. Uma história a seguir, aqui deixo apenas o início para atiçar a vontade.

Chinese Master Spy
de Fernando Relvas







O blogue da história, Chinese Master Spy, aqui.
O blogue de Fernando Relvas,
aqui.
E a editora de Fernando Relvas, onde se podem comprar os seus livros,
aqui.
Pela Honra da Nossa Prima, um download gratuito, em .pdf.

The Lovebirds: Lisboa fora de horas de Bruno Almeida

Fui ver o filme de Bruno Almeida de que falam entusiasmadamente todos os semanários e saí de lá como se tivesse tomado um duche fresco: limpei-me de grandes produções, de melodramatismo, de lições morais, de gente bonita e perfeita, da moralidade americana. Saí do cinema tendo estado em Lisboa, revisitei partes da minha vida. Ruas e pessoas.



Ver um filme e pensar sobre ele obriga quase sempre a um bem ou mal, ou se gosta ou não, o filme é bom ou não presta, crítica negativa-positiva. Este filme desorienta demais para que se possa encaixá-lo nesta lógica. No caso de Lovebirds gostei mais do que desgostei, mas não posso dizer que isto é um filme, no sentido que normalmente damos à palavra filme. Não há uma narrativa, há várias fragmentadas que nada têm em comum a não ser a cidade de Lisboa. Os personagens nunca se encontram e dizer que o ponto comum é o amor é forçar um título ao patchwork: afinal há alguma coisa que não fale de amor?



Gostei em Lovebirds da fragmentação levada ao extremo: é curioso o sentimento de se estar a ver uma obra de outra pessoa. Pela película passam muitos outros momentos da história do cinema, uma espécie de tributo a outros realizadores, outros momentos. O arqueólogo obsessivo respirava Tarkovski, o jantar de amigos saiu de Woody Allen, o taxista em movimento pela cidade dialoga com Taxi Driver, o filme todo fala com um dos meus filmes favoritos de sempre, Nova Iorque Fora de Horas. Só não consegui encontrar a fonte de um Joaquim Almeida que se esconde, em cuecas, nos corredores de um hotel fino, mas estou certa que essa referência existe, mais do que uma, provavelmente humor britânico. Este jogo de espelhos, este puzzle, desconcertante para muitos espectadores, estou certa, foi para mim fonte de um enorme prazer.



Dos muitos actores que dão corpo e rosto aos personagens da minha Lisboa nocturna, não gostei do outro arqueólogo, o da biblioteca, que estragou com os seus pontapés no inglês uma cena que seria quase Shakespeariana. A caracterização também não ajudou, diga-se. Gostei muito: da sempre lindíssima Ana Padrão, uma actriz perfeita, representação perfeita. Esta mulher noutro local "limpava" a maior parte das actrizes holywoodescas (este sempre o consolo português). Gostei muito: do russo Dmitry Bogomolov. Um taxista memorável, um dos quadros mais bem conseguidos do filme quando se senta no quarto da prostituta momentos antes de a matar, um trabalho de actor memorável, de longe o melhor do filme. Bogolov, professor em Lisboa, tem de partir, é demasiado bom para ficar por cá. O trabalho de adereços feito no quarto da brasileira é muito bom, a boneca, os bibelots. Eu gostava de ter feito esse trabalho, quem decorou o quarto cor de rosa está de parabéns. Rogério Samora: perfeito, muito bom como sempre, embora tenha um quase anti-papel, o actor cobarde, metalinguagem, meta-diálogos, meta-personagem. E o melhor de tudo (à laia de Óscar vai para), o actor de si mesmo Fernando Lopes. Ele e os seus vícios, palavras, fumo, ele o motivo para ir ao cinema e ver Loverbirds, porque ninguém deveria perder os minutos que Fernando Lopes passa em frente à câmara, o que pode dizer e o que fala. Para além de excelente. (Visto que este momento me deu uma vontade indomável de ver todos os filmes que Fernando Lopes fez até agora, onde está O Delfim, esgotado na Fnac, desaparecido de todo o lado em que se vende cinema. Porque é que tenho que gramar com o maior lixo americano, o mais rasca e medíocre que qualquer teenager borbulhento e descerebrado faz numa garagem com a câmara que recebeu o Natal passado, e não posso ver os filmes de Fernando Lopes? Porque é que posso "levar" com toda a obra de um tal Nicholas Spark e não encontro em nenhuma, repito nenhuma livraria, a obra completa de José Cardoso Pires? Desabafos, desabafos por um país ainda soterrado numa interioridade saloia.)



É verdade que Lovebirds é muito o meu cinema. Não posso dizer que se trata de um filme, é mais uma colagem. Não posso dizer que é um filme muito bom, embora tenha momentos quase perfeitos. Lovebirds é a minha cidade, é o sujo de Lisboa, as ruas por onde passei, as memórias que tenho. Lovebirds é a família da personagem de Ana Padrão, as miúdas lindas, a avó desdentada. É um filme naíve e pretencioso, bonito e escavacado. Assim vive a cidade imutável face ao rio.



Um grupo de umas dez raparigas entraram na sala do cinema já o filme tinha começado. Sentaram-se aos risinhos e nem sequer estavam já na primeira adolescência. Levantaram-se a meio e voltaram à sala, em fila. No fim, interpelavam as pessoas, perguntando-lhes se tinham percebido o filme. Assustador como o espectador jovem português, habituado a gerações de Scary Movies, está viciado em vacuidades. Bruno de Almeida, que viveu vinte anos em Nova Iorque, aprendeu a re-ver Lisboa e foi por essa minha Lisboa revisitada que lhes disse que sim, tinha percebido bem o filme.



Homepage de Lovebirds, aqui.
E aqui, o trailer.

Monday, March 17, 2008

Os nus de Egon Schiele (2)

Fascínio infinito pelos nus, mais pelos de traço marcado, como estes:
inaugurando Schiele na coluna lateral esquerda, para ficar durante algum tempo.



O abraço (dos amantes), Die Umarmung (Die Liebenden), 1917

A galeria de origem aqui, um verdadeiro Museu Schiele online. A ver.

Hoje a ouvir-se... Eddie Boyd



No KMG Radio Network. Eddie Boyd, nascido numa plantação no Mississipi, migrou para Chicago, capital do Blues. Em tournée na Bélgica e cansado da discriminação racial americana, resolveu ficar. Mais tarde instalou-se na Finlândia onde permaneceu até morrer em 1994.

OMO

Andei por aqui às voltas com a ideia do limite da crueldade, de nosso lado "negro", instintos primitivos e outros que tais. Se calhar nada é tão romântico nem tão interessante como "the darker side of us". Se calhar estava já tudo explicado pela sociologia e pelas teorias de grupo, pela antropologia e pela psicologia. Talvez a originalidade que seria necessária para a crueldade instintiva do nosso lado negro (à Poe) se fique por Poe. Os comuns assassinos das notícias são tão pouco originais como uma qualquer dona de casa dos anúncios do OMO.

Friday, March 14, 2008

mais tempo...



... para as minhas manias: 2 putos, 4 t-shirts brancas e 4 marcadores para t-shirt. Esperando que o meu, em vésperas dos quatro anos, consiga escrever o nome dele por baixo do desenho.

a boneca rainha de Carlos Fuentes

La muñeca reina
The Doll Queen

de Carlos Fuentes

I

Vine porque aquella tarjeta, tan curiosa, me hizo recordar su existencia. La encontré en un libro olvidado cuyas páginas habían reproducido un espectro de la caligrafía infantil. Estaba acomodando, después de mucho tiempo de no hacerlo, mis libros. Iba de sorpresa en sorpresa, pues algunos, colocados en las estanterías más altas, no fueron leídos durante mucho tiempo. Tanto, que el filo de las hojas se había granulado, de manera que sobre mis palmas abiertas cayó una mezcla de polvo de oro y escama grisácea, evocadora del barniz que cubre ciertos cuerpos entrevistos primero en los sueños y después en la decepcionante realidad de la primera función de ballet a la que somos conducidos. Era un libro de mi infancia -acaso de la de muchos niños- y relataba una serie de historias ejemplares más o menos truculentas que poseían la virtud de arrojarnos sobre las rodillas de nuestros mayores para preguntarles, una y otra vez, ¿por qué? Los hijos que son desagradecidos con sus padres, las mozas que son raptadas por caballerangos y regresan avergonzadas a la casa, así como las que de buen grado abandonan el hogar, los viejos que a cambio de una hipoteca vencida exigen la mano de la muchacha más dulce y adolorida de la familia amenazada, ¿por qué? No recuerdo las respuestas. Sólo sé que de entre las páginas manchadas cayó, revoloteando, una tarjeta blanca con la letra atroz de Amilamia: Amilamia no olbida a su amigito y me buscas aquí como te lo divujo.

Y detrás estaba ese plano de un sendero que partía de la X que debía indicar, sin duda, la banca del parque donde yo, adolescente rebelde a la educación prescrita y tediosa, me olvidaba de los horarios de clase y pasaba varias horas leyendo libros que, si no fueron escritos por mí, me lo parecían: ¿cómo iba a dudar que sólo de mi imaginación podían surgir todos esos corsarios, todos esos correos del zar, todos esos muchachos, un poco más jóvenes que yo, que bogaban el día entero sobre una barcaza a lo largo de los grandes ríos americanos? Prendido al brazo de la banca como a un arzón milagroso, al principio no escuché los pasos ligeros que, después de correr sobre la grava del jardín, se detenían a mis espaldas. Era Amilamia y no supe cuánto tiempo me habría acompañado en silencio si su espíritu travieso, cierta tarde, no hubiese optado por hacerme cosquillas en la oreja con los vilanos de un amargón que la niña soplaba hacia mí con los labios hinchados y el ceño fruncido.

Preguntó mi nombre y después de considerarlo con el rostro muy serio, me dijo el suyo con una sonrisa, si no cándida, tampoco demasiado ensayada. Pronto me di cuenta que Amilamia había encontrado, por así decirlo, un punto intermedio de expresión entre la ingenuidad de sus años y las formas de mímica adulta que los niños bien educados deben conocer, sobre todo para los momentos solemnes de la presentación y la despedida. La gravedad de Amilamia, más bien, era un don de su naturaleza, al grado de que sus momentos de espontaneidad, en contraste, parecían aprendidos. Quiero recordarla, una tarde y otra, en una sucesión de imágenes fijas que acaban por sumar a Amilamia entera. Y no deja de sorprenderme que no pueda pensar en ella como realmente fue, o como en verdad se movía, ligera, interrogante, mirando de un lado a otro sin cesar. Debo recordarla detenida para siempre, como en un álbum. Amilamia a lo lejos, un punto en el lugar donde la loma caía, desde un lago de tréboles, hacia el prado llano donde yo leía sentado sobre la banca: un punto de sombra y sol fluyentes y una mano que me saludaba desde allá arriba. Amilamia detenida en su carrera loma abajo, con la falda blanca esponjada y los calzones de florecillas apretados con ligas alrededor de los muslos, con la boca abierta y los ojos entrecerrados porque la carrera agitaba el aire y la niña lloraba de gusto. Amilamia sentada bajo los eucaliptos, fingiendo un llanto para que yo me acercara a ella. Amilamia boca abajo con una flor entre las manos: los pétalos de un amento que, descubrí más tarde, no crecía en este jardín, sino en otra parte, quizás en el jardín de la casa de Amilamia, pues la única bolsa de su delantal de cuadros azules venía a menudo llena de esas flores blancas. Amilamia viéndome leer, detenida con ambas manos a los barrotes de la banca verde, inquiriendo con los ojos grises: recuerdo que nunca me preguntó qué cosa leía, como si pudiese adivinar en mis ojos las imágenes nacidas de las páginas. Amilamia riendo con placer cuando yo la levantaba del talle y la hacía girar sobre mi cabeza y ella parecía descubrir otra perspectiva del mundo en ese vuelo lento. Amilamia dándome la espalda y despidiéndose con el brazo en alto y los dedos alborotados. Y Amilamia en las mil posturas que adoptaba alrededor de mi banca: colgada de cabeza, con las piernas al aire y los calzones abombados; sentada sobre la grava, con las piernas cruzadas y la barbilla apoyada en el mentón; recostada sobre el pasto, exhibiendo el ombligo al sol; tejiendo ramas de los árboles, dibujando animales en el lodo con una vara, lamiendo los barrotes de la banca, escondida bajo el asiento, quebrando sin hablar las cortezas sueltas de los troncos añosos, mirando fijamente el horizonte más allá de la colina, canturreando con los ojos cerrados, imitando las voces de pájaros, perros, gatos, gallinas, caballos. Todo para mí, y sin embargo, nada. Era su manera de estar conmigo, todo esto que recuerdo, pero también su manera de estar a solas en el parque. Sí; quizás la recuerdo fragmentariamente porque mi lectura alternaba con la contemplación de la niña mofletuda, de cabello liso y cambiante con los reflejos de la luz: ora pajizo, ora de un castaño quemado. Y sólo hoy pienso que Amilamia, en ese momento, establecía el otro punto de apoyo para mi vida, el que creaba la tensión entre mi propia infancia irresuelta y el mundo abierto, la tierra prometida que empezaba a ser mía en la lectura.

Entonces no. Entonces soñaba con las mujeres de mis libros, con las hembras -la palabra me trastornaba- que asumían el disfraz de la Reina para comprar el collar en secreto, con las invenciones mitológicas -mitad seres reconocibles, mitad salamandras de pechos blancos y vientres húmedos- que esperaban a los monarcas en sus lechos. Y así, imperceptiblemente, pasé de la indiferencia hacia mi compañía infantil a una aceptación de la gracia y gravedad de la niña, y de allí a un rechazo impensado de esa presencia inútil. Acabó por irritarme, a mí que ya tenía catorce años, esa niña de siete que no era, aún, la memoria y su nostalgia, sino el pasado y su actualidad. Me habla dejado arrastrar por una flaqueza. Juntos habíamos corrido, tomados de la mano, por el prado. Juntos habíamos sacudido los pinos y recogido las piñas que Amilamia guardaba con celo en la bolsa del delantal. Juntos habíamos fabricado barcos de papel para seguirlos, alborozados, al borde de la acequia. Y esa tarde, cuando juntos rodamos por la colina, en medio de gritos de alegría, y al pie de ella caímos juntos, Amilamia sobre mi pecho, yo con el cabello de la niña en mis labios, y sentí su jadeo en mi oreja y sus bracitos pegajosos de dulce alrededor de mi cuello, le retiré con enojo los brazos y la dejé caer. Amilamia lloró, acariciándose la rodilla y el codo heridos, y yo regresé a mi banca. Luego Amilamia se fue y al día siguiente regresó, me entregó el papel sin decir palabra y se perdió, canturreando, en el bosque. Dudé entre rasgar la tarjeta o guardarla en las páginas del libro. Las tardes de la granja. Hasta mis lecturas se estaban infantilizando al lado de Amilamia. Ella no regresó al parque. Yo, a los pocos días, salí de vacaciones y después regresé a los deberes del primer año de bachillerato. Nunca la volví a ver.



II

Y ahora, casi rechazando la imagen que es desacostumbrada sin ser fantástica y por ser real es más dolorosa, regreso a ese parque olvidado y, detenido ante la alameda de pinos y eucaliptos, me doy cuenta de la pequeñez del recinto boscoso, que mi recuerdo se ha empeñado en dibujar con una amplitud que pudiera dar cabida al oleaje de la imaginación. Pues aquí habían nacido, hablado y muerto Strogoff y Huckleberry, Milady de Winter y Genoveva de Brabante: en un pequeño jardín rodeado de rejas mohosas, plantado de escasos árboles viejos y descuidados, adornado apenas con una banca de cemento que imita la madera y que me obliga a pensar que mi hermosa banca de hierro forjado, pintada de verde, nunca existió o era parte de mi ordenado delirio retrospectivo. Y la colina... ¿Cómo pude creer que era eso, el promontorio que Amilamia bajaba y subía durante sus diarios paseos, la ladera empinada por donde rodábamos juntos? Apenas una elevación de zacate pardo sin más relieve que el que mi memoria se empeñaba en darle.

Me buscas aquí como te lo divujo. Entonces habría que cruzar el jardín, dejar atrás el bosque, descender en tres zancadas la elevación, atravesar ese breve campo de avellanos -era aquí, seguramente, donde la niña recogía los pétalos blancos-, abrir la reja rechinante del parque y súbitamente recordar, saber, encontrarse en la calle, darse cuenta de que todas aquellas tardes de la adolescencia, como por milagro, habían logrado suspender los latidos de la ciudad circundante, anular esa marea de pitazos, campanadas, voces, llantos, motores, radios, imprecaciones: ¿cuál era el verdadero imán: el jardín silencioso o la ciudad febril? Espero el cambio de luces y paso a la otra acera sin dejar de mirar el iris rojo que detiene el tránsito. Consulto el papelito de Amilamia. Al fin y al cabo, ese plano rudimentario es el verdadero imán del momento que vivo, y sólo pensarlo me sobresalta. Mi vida, después de las tardes perdidas de los catorce años, se vio obligada a tomar los cauces de la disciplina y ahora, a los veintinueve, debidamente diplomado, dueño de un despacho, asegurado de un ingreso módico, soltero aún, sin familia que mantener, ligeramente aburrido de acostarme con secretarias, apenas excitado por alguna salida eventual al campo o a la playa, carecía de una atracción central como las que antes me ofrecieron mis libros, mi parque y Amilamia. Recorro la calle de este suburbio chato y gris. Las casas de un piso se suceden monótonamente, con sus largas ventanas enrejadas y sus portones de pintura descascarada. Apenas el rumor de ciertos oficios rompe la uniformidad del conjunto. El chirreo de un afilador aquí, el martilleo de un zapatero allá. En las cerradas laterales, juegan los niños del barrio. La música de un organillo llega a mis oídos, mezclada con las voces de las rondas. Me detengo un instante a verlos, con la sensación, también fugaz, de que entre esos grupos de niños estaría Amilamia, mostrando impúdicamente sus calzones floreados, colgada de las piernas desde un balcón, afecta siempre a sus extravagancias acrobáticas, con la bolsa del delantal llena de pétalos blancos. Sonrío y por vez primera quiero imaginar a la señorita de veintidós años que, si aún vive en la dirección apuntada, se reirá de mis recuerdos o acaso habrá olvidado las tardes pasadas en el jardín.

La casa es idéntica a las demás. El portón, dos ventanas enrejadas, con los batientes cerrados. Un solo piso, coronado por un falso barandal neoclásico que debe ocultar los menesteres de la azotea: la ropa tendida, los tinacos de agua, el cuarto de criados, el corral. Antes de tocar el timbre, quiero desprenderme de cualquier ilusión. Amilamia ya no vive aquí. ¿Por qué iba a permanecer quince años en la misma casa? Además, pese a su independencia y soledad prematuras, parecía una niña bien educada, bien arreglada, y este barrio ya no es elegante; los padres de Amilamia, sin duda, se han mudado. Pero quizás los nuevos inquilinos saben a dónde.

Aprieto el timbre y espero. Vuelvo a tocar. Ésa es otra contingencia: que nadie esté en casa. Y yo, ¿sentiré otra vez la necesidad de buscar a mi amiguita? No, porque ya no será posible abrir un libro de la adolescencia y encontrar, al azar, la tarjeta de Amilamia. Regresaría a la rutina, olvidaría el momento que sólo importaba por su sorpresa fugaz.

Vuelvo a tocar. Acerco la oreja al portón y me siento sorprendido: una respiración ronca y entrecortada se deja escuchar del otro lado; el soplido trabajoso, acompañado por un olor desagradable a tabaco rancio, se filtra por los tablones resquebrajados del zaguán.

-Buenas tardes. ¿Podría decirme...?

Al escuchar mi voz, la persona se retira con pasos pesados e inseguros. Aprieto de nuevo el timbre, esta vez gritando:

-¡Oiga! ¡Ábrame! ¿Qué le pasa? ¿No me oye?

No obtengo respuesta. Continúo tocando el timbre, sin resultados. Me retiro del portón, sin alejar la mirada de las mínimas rendijas, como si la distancia pudiese darme perspectiva e incluso penetración. Con toda la atención fija en esa puerta condenada, atravieso la calle caminando hacia atrás; un grito agudo me salva a tiempo, seguido de un pitazo prolongado y feroz, mientras yo, aturdido, busco a la persona cuya voz acaba de salvarme, sólo veo el automóvil que se aleja por la calle y me abrazo a un poste de luz, a un asidero que, más que seguridad, me ofrece un punto de apoyo para el paso súbito de la sangre helada a la piel ardiente, sudorosa. Miro hacia la casa que fue, era, debía ser la de Amilamia. Allá, detrás de la balaustrada, como lo sabía, se agita la ropa tendida. No sé qué es lo demás: camisones, pijamas, blusas, no sé; yo veo ese pequeño delantal de cuadros azules, tieso, prendido con pinzas al largo cordel que se mece entre una barra de fierro y un clavo del muro blanco de la azotea.



III

En el Registro de la Propiedad me han dicho que ese terreno está a nombre de un señor R. Valdivia, que alquila la casa. ¿A quién? Eso no lo saben. ¿Quién es Valdivia? Ha declarado ser comerciante. ¿Dónde vive? ¿Quién es usted?, me ha preguntado la señorita con una curiosidad altanera. No he sabido presentarme calmado y seguro. El sueño no me alivió de la fatiga nerviosa. Valdivia. Salgo del Registro y el sol me ofende. Asocio la repugnancia que me provoca el sol brumoso y tamizado por las nubes bajas -y por ello más intenso- con el deseo de regresar al parque sombreado y húmedo. No, no es más que el deseo de saber si Amilamia vive en esa casa y por qué se me niega la entrada. Pero lo que debo rechazar, cuanto antes, es la idea absurda que no me permitió cerrar los ojos durante la noche. Haber visto el delantal secándose en la azotea, el mismo en cuya bolsa guardaba las flores, y creer por ello que en esa casa vivía una niña de siete años que yo había conocido catorce o quince antes... Tendría una hijita. Sí. Amilamia, a los veintidós años, era madre de una niña que quizás se vestía igual, se parecía a ella, repetía los mismos juegos, ¿quién sabe?, iba al mismo parque. Y cavilando llego de nuevo hasta el portón de la casa. Toco el timbre y espero el resuello agudo del otro lado de la puerta. Me he equivocado. Abre la puerta una mujer que no tendrá más de cincuenta años. Pero envuelta en un chal, vestida de negro y con zapatos de tacón bajo, sin maquillaje, con el pelo estirado hasta la nuca, entrecano, parece haber abandonado toda ilusión o pretexto de juventud y me observa con ojos casi crueles de tan indiferentes.

-¿Deseaba?

-Me envía el señor Valdivia. -Toso y me paso una mano por el pelo. Debí recoger mi cartapacio en la oficina. Me doy cuenta de que sin él no interpretaré bien mi papel.

-¿Valdivia? -La mujer me interroga sin alarma; sin interés.

-Sí. El dueño de la casa.

Una cosa es clara: la mujer no delatará nada en el rostro. Me mira impávida.

-Ah sí. El dueño de la casa.

-¿Me permite?...

Creo que en las malas comedias el agente viajero adelanta un pie para impedir que le cierren la puerta en las narices. Yo lo hago, pero la señora se aparta y con un gesto de la mano me invita a pasar a lo que debió ser una cochera. Al lado hay una puerta de cristal y madera despintada. Camino hacia ella, sobre los azulejos amarillos del patio de entrada, y vuelvo a preguntar, dando la cara a la señora que me sigue con paso menudo:

-¿Por aquí?

La señora asiente y por primera vez observo que entre sus manos blancas lleva una camándula con la que juguetea sin cesar. No he vuelto a ver esos viejos rosarios desde mi infancia y quiero comentarlo, pero la manera brusca y decidida con que la señora abre la puerta me impide la conversación gratuita. Entramos a un aposento largo y estrecho. La señora se apresura a abrir los batientes, pero la estancia sigue ensombrecida por cuatro plantas perennes que crecen en los macetones de porcelana y vidrio incrustado. Sólo hay en la sala un viejo sofá de alto respaldo enrejado de bejuco y una mecedora. Pero no son los escasos muebles o las plantas lo que llama mi atención. La señora me invita a tomar asiento en el sofá antes de que ella lo haga en la mecedora.

A mi lado, sobre el bejuco, hay una revista abierta.

-El señor Valdivia se excusa de no haber venido personalmente.

La señora se mece sin pestañear. Miro de reojo esa revista de cartones cómicos.

-La manda saludar y...

Me detengo, esperando una reacción de la mujer. Ella continúa meciéndose. La revista está garabateada con un lápiz rojo.

-...y me pide informarle que piensa molestarla durante unos cuantos días...

Mis ojos buscan rápidamente.

-...Debe hacerse un nuevo avalúo de la casa para el catastro. Parece que no se hace desde... ¿Ustedes llevan viviendo aquí...?

Sí; ese lápiz labial romo está tirado debajo del asiento. Y si la señora sonríe lo hace con las manos lentas que acarician la camándula: allí siento, por un instante, una burla veloz que no alcanza a turbar sus facciones. Tampoco esta vez me contesta.

-...¿por lo menos quince años, no es cierto...?

No afirma. No niega. Y en sus labios pálidos y delgados no hay la menor señal de pintura...

-...¿usted, su marido y...?

Me mira fijamente, sin variar de expresión, casi retándome a que continúe. Permanecemos un instante en silencio, ella jugueteando con el rosario, yo inclinado hacia adelante, con las manos sobre las rodillas. Me levanto.

-Entonces, regresaré esta misma tarde con mis papeles...

La señora asiente mientras, en silencio, recoge el lápiz labial, toma la revista de caricaturas y los esconde entre los pliegues del chal.


IV

La escena no ha cambiado. Esta tarde, mientras yo apunto cifras imaginarias en un cuaderno y finjo interés en establecer la calidad de las tablas opacas del piso y la extensión de la estancia, la señora se mece y roza con las yemas de los dedos los tres dieces del rosario. Suspiro al terminar el supuesto inventario de la sala y le pido que pasemos a otros lugares de la casa. La señora se incorpora, apoyando los brazos largos y negros sobre el asiento de la mecedora y ajustándose el chal a las espaldas estrechas y huesudas.

Abre la puerta de vidrio opaco y entramos a un comedor apenas más amueblado. Pero la mesa con patas de tubo, acompañada de cuatro sillas de níquel y hulespuma, ni siquiera poseen el barrunto de distinción de los muebles de la sala. La otra ventana enrejada, con los batientes cerrados, debe iluminar en ciertos momentos este comedor de paredes desnudas, sin cómodas ni repisas. Sobre la mesa sólo hay un frutero de plástico con un racimo de uvas negras, dos melocotones y una corona zumbante de moscas. La señora, con los brazos cruzados y el rostro inexpresivo, se detiene detrás de mí. Me atrevo a romper el orden: es evidente que las estancias comunes de la casa nada me dirán sobre lo que deseo saber.

-¿No podríamos subir a la azotea? -pregunto-. Creo que es la mejor manera de cubrir la superficie total.

La señora me mira con un destello fino y contrastado, quizás, con la penumbra del comedor.

-¿Para qué? -dice, por fin-. La extensión la sabe bien el señor... Valdivia...

Y esas pausas, una antes y otra después del nombre del propietario, son los primeros indicios de que algo, al cabo, turba a la señora y la obliga, en defensa, a recurrir a cierta ironía.

-No sé -hago un esfuerzo por sonreír-. Quizás prefiero ir de arriba hacia abajo y no... -mi falsa sonrisa se va derritiendo-... de abajo hacia arriba.

-Usted seguirá mis indicaciones -dice la señora con los brazos cruzados sobre el regazo y la cruz de plata sobre el vientre oscuro.

Antes de sonreír débilmente, me obligo a pensar que en la penumbra mis gestos son inútiles, ni siquiera simbólicos. Abro con un crujido de la pasta el cuaderno y sigo anotando con la mayor velocidad posible, sin apartar la mirada, los números y apreciaciones de esta tarea cuya ficción -me lo dice el ligero rubor de las mejillas, la definida sequedad de la lengua- no engaña a nadie. Y al llenar la página cuadriculada de signos absurdos de raíces cuadradas y fórmulas algebraicas, me pregunto qué cosa me impide ir al grano, preguntar por Amilamia y salir de aquí con una respuesta satisfactoria. Nada. Y sin embargo, tengo la certeza de que por ese camino, si bien obtendría un respuesta, no sabría la verdad. Mi delgada y silenciosa acompañante tiene una silueta que en la calle no me detendría a contemplar, pero que en esta casa de mobiliario ramplón y habitantes ausentes, deja de ser un rostro anónimo de la ciudad para convertirse en un lugar común del misterio Tal es la paradoja, y si las memorias de Amilamia han despertado otra vez mi apetito de imaginación seguiré las reglas del juego, agotaré las apariencia y no reposaré hasta encontrar la respuesta -quizá simple y clara, inmediata y evidente- a través de los inesperados velos que la señora del rosario tiende en mi camino. ¿Le otorgo a mi anfitriona renuente una extrañeza gratuita? Si es así, sólo gozaré más en los laberintos de mi invención. Y la moscas zumban alrededor del frutero, pero se posan sobre ese punto herido del melocotón, ese trozo mordisqueado -me acerco con el pretexto de mis notas- por unos dientecillos que han dejado su huella en la piel aterciopelada y la carne ocre de la fruta. No miro hacia donde está la señora. Finjo que sigo anotando. La fruta parece mordida pero no tocada. Me agacho para verla mejor, apoyo las manos sobre la mesa, adelanto los labios como si quisiera repetir el acto de morder sin tocar. Bajo los ojos y veo otra huella cerca de mi pies: la de dos llantas que me parecen de bicicleta, dos tiras de goma impresas sobre el piso de madera despintada que llegan hasta el filo de la mesa y luego se retiran, cada vez más débiles, a lo largo del piso, hacía donde está la señora...

Cierro mi libro de notas.

-Continuemos, señora.

Al darle la cara, la encuentro de pie con las manos sobre el respaldo de una silla Delante de ella, sentado, tose el humo de su cigarrillo negro un hombre de espaldas cargadas y mirar invisible: los ojos están escondidos por esos párpados arrugados, hinchados, gruesos y colgantes similares a un cuello de tortuga vieja, que no obstante parece seguir mis movimientos. Las mejillas mal afeitadas, hendidas por mil surcos grises, cuelgan de los pómulos salientes y las manos verdosas están escondidas entre las axilas: viste una camisa burda, azul, y su pelo revuelto semeja, por lo rizado, un fondo de barco cubierto de caramujos. No se mueve y el signo real de su existencia es ese jadeo difícil (como si la respiración debiera vencer los obstáculos de una y otra compuerta de flema, irritación, desgaste) que ya había escuchado entre los resquicios del zaguán.

Ridículamente, murmuró: -Buenas tardes... -y me dispongo a olvidarlo todo: el misterio, Amilamia, el avalúo, las pistas. La aparición de este lobo asmático justifica un pronta huida. Repito "Buenas tardes", ahora en son de despedida. La máscara de la tortuga se desbarata en una sonrisa atroz: cada poro de esa carne parece fabricado de goma quebradiza, de hule pintado y podrido. El brazo se alarga y me detiene.

-Valdivia murió hace cuatro años -dice el hombre con esa voz sofocada, lejana, situada en las entrañas y no en la laringe: una voz tipluda y débil.

Arrestado por esa garra fuerte, casi dolorosa, me digo que es inútil fingir. Los rostros de cera y caucho que me observan nada dicen y por eso puedo, a pesar de todo, fingir por última vez, inventar que me hablo a mí mismo cuando digo:

-Amilamia...

Sí: nadie habrá de fingir más. El puño que aprieta mi brazo afirma su fuerza sólo por un instante, en seguida afloja y al fin cae, débil y tembloroso, antes de levantarse y tomar la mano de cera que le tocaba el hombro: la señora, perpleja por primera vez, me mira con los ojos de un ave violada y llora con un gemido seco que no logra descomponer el azoro rígido de sus facciones. Los ogros de mi invención, súbitamente, son dos viejos solitarios, abandonados, heridos, que apenas pueden confortarse al unir sus manos con un estremecimiento que me llena de vergüenza. La fantasía me trajo hasta este comedor desnudo para violar la intimidad y el secreto de dos seres expulsados de la vida por algo que yo no tenía el derecho de compartir. Nunca me he despreciado tanto. Nunca me han faltado las palabras de manera tan burda. Cualquier gesto es vano: ¿voy a acercarme, voy a tocarlos, voy a acariciar la cabeza de la señora, voy a pedir excusas por mi intromisión? Me guardo el libro de notas en la bolsa del saco. Arrojo al olvido todas las pistas de mi historia policial: la revista de dibujos, el lápiz labial, la fruta mordida, las huellas de la bicicleta, el delantal de cuadros azules... Decido salir de esta casa sin decir nada. El viejo, detrás de los párpados gruesos, ha debido fijarse en mí. El resuello tipludo me dice:

-¿Usted la conoció?

Ese pasado tan natural, que ellos deben usar a diario, acaba por destruir mis ilusiones. Allí está la respuesta. Usted la conoció. ¿Cuántos años? ¿Cuántos años habrá vivido el mundo sin Amilamia, asesinada primero por mi olvido, resucitada, apenas ayer, por una triste memoria impotente? ¿Cuándo dejaron esos ojos grises y serios de asombrarse con el deleite de un jardín siempre solitario? ¿Cuándo esos labios de hacer pucheros o de adelgazarse en aquella seriedad ceremoniosa con la que, ahora me doy cuenta, Amilamia descubría y consagraba las cosas de una vida que, acaso, intuía fugaz?

-Sí, jugamos juntos en el parque. Hace mucho.

-¿Qué edad tenía ella? -dice, con la voz aún más apagada, el viejo.

-Tendría siete años. Sí, no más de siete.

La voz de la mujer se levanta, junto con los brazos que parecen implorar:

-¿Cómo era, señor? Díganos cómo era, por favor...

Cierro los ojos. -Amilamia también es mi recuerdo. Sólo podría compararla a las cosas que ella tocaba, traía y descubría en el parque. Sí. Ahora la veo, bajando por la loma. No, no es cierto que sea apenas una elevación de zacate. Era una colina de hierba y Amilamia había trazado un sendero con sus idas y venidas y me saludaba desde lo alto antes de bajar, acompañada por la música, sí, la música de mis ojos, las pinturas de mi olfato, los sabores de mi oído, los olores de mi tacto... mi alucinación... ¿me escuchan?... bajaba saludando, vestida de blanco, con un delantal de cuadros azules... el que ustedes tienen tendido en la azotea...

Toman mis brazos y no abro los ojos.

-¿Cómo era, señor?

-Tenía los ojos grises y el color del pelo le cambiaba con los reflejos del sol y la sombra de los árboles...

Me conducen suavemente, los dos; escucho el resuello del hombre, el golpe de la cruz del rosario contra el cuerpo de la mujer...

-Díganos, por favor...

-El aire la hacía llorar cuando corría; llegaba hasta mi banca con las mejillas plateadas por un llanto alegre...

No abro los ojos. Ahora subimos. Dos, cinco, ocho, nueve, doce peldaños. Cuatro manos guían mi cuerpo.

-¿Cómo era, cómo era?

-Se sentaba bajo los eucaliptos y hacía trenzas con las ramas y fingía el llanto para que yo dejara mi lectura y me acercara a ella.

Los goznes rechinan. El olor lo mata todo: dispersa los demás sentidos, toma asiento como un mogol amarillo en el trono de mi alucinación, pesado como un cofre, insinuante como el crujir de una seda drapeada, ornamentado como un cetro turco, opaco como una veta honda y perdida, brillante como una estrella muerta. Las manos me sueltan. Más que el llanto, es el temblor de los viejos lo que me rodea. Abro lentamente los ojos: dejo que el mareo líquido de mi córnea primero, en seguida la red de mis pestañas, descubran el aposento sofocado por esa enorme batalla de perfumes, de vahos y escarchas de pétalos casi encarnados, tal es la presencia de las flores que aquí, sin duda, poseen una piel viviente: dulzura del jaramago, náusea del ásaro, tumba del nardo, templo de la gardenia: la pequeña recámara sin ventanas, iluminada por las uñas incandescentes de los pesados cirios chisporroteantes, introduce su rastro de cera y flores húmedas hasta el centro del plexo y sólo de allí, del sol de la vida, es posible revivir para contemplar, detrás de los cirios y entre las flores dispersas, el cúmulo de juguetes usados, los aros de colores y los globos arrugados, sin aire, viejas ciruelas transparentes; los caballos de madera con las crines destrozadas, los patines del diablo, las muñecas despelucadas y ciegas, los osos vaciados de serrín, los patos de hule perforado, los perros devorados por la polilla, las cuerdas de saltar roldas, los jarrones de vidrio repletos de dulces secos, los zapatitos gastados, el triciclo -¿tres ruedas?; no; dos; y no de bicicleta; dos ruedas paralelas, abajo-, los zapatitos de cuero y estambre; y al frente, al alcance de mi mano, el pequeño féretro levantado sobre cajones azules decorados con flores de papel, esta vez flores de la vida, claveles y girasoles, amapolas y tulipanes, pero como aquéllas, las de la muerte, parte de un asativo que cocía todos los elementos de este invernadero funeral en el que reposa, dentro del féretro plateado y entre las sábanas de seda negra y junto al acolchado de raso blanco, ese rostro inmóvil y sereno, enmarcado por una cofia de encaje, dibujado con tintes de color de rosa: cejas que el más leve pincel trazó, párpados cerrados, pestañas reales, gruesas, que arrojan una sombra tenue sobre las mejillas tan saludables como en los días del parque. Labios serios, rojos, casi en el puchero de Amilamia cuando fingía un enojo para que yo me acercara a jugar. Manos unidas sobre el pecho. Una camándula, idéntica a la de la madre, estrangulando ese cuello de pasta. Mortaja blanca y pequeña del cuerpo impúber, limpio, dócil.

Los viejos se han hincado, sollozando.

Yo alargo la mano y rozo con los dedos el rostro de porcelana de mi amiga. Siento el frío de esas facciones dibujadas, de la muñeca-reina que preside los fastos de esta cámara real de la muerte. Porcelana, pasta y algodón. Amilamia no olbida a su amigito y me buscas aquí como te lo divujo.

Aparto los dedos del falso cadáver. Mis huellas digitales quedan sobre la tez de la muñeca.

Y la náusea se insinúa en mi estómago, depósito del humo de los cirios y la peste del ásaro en el cuarto encerrado. Doy la espalda al túmulo de Amilamia. La mano de la señora toca mi brazo. Sus ojos desorbitados no hacen temblar la voz apagada:

-No vuelva, señor. Si de veras la quiso, no vuelva más.

Toco la mano de la madre de Amilamia, veo con los ojos mareados la cabeza del viejo, hundida entre sus rodillas, y salgo del aposento a la escalera, a la sala, al patio, a la calle.


V

Si no un año, sí han pasado nueve o diez meses. La memoria de aquella idolatría ha dejado de espantarme. He perdido el olor de las flores y la imagen de la muñeca helada. La verdadera Amilamia ya regresó a mi recuerdo y me he sentido, si no contento, sano otra vez: el parque, la niña viva, mis horas de lectura adolescente, han vencido a los espectros de un culto enfermo. La imagen de la vida es más poderosa que la otra. Me digo que viviré para siempre con mi verdadera Amilamia, vencedora de la caricatura de la muerte. Y un día me atrevo a repasar aquel cuaderno de hojas cuadriculadas donde apunté los datos falsos del avalúo. Y de sus páginas, otra vez, cae la tarjeta de Amilamia con su terrible caligrafía infantil y su plano para ir del parque a la casa. Sonrío al recogerla. Muerdo uno de los bordes, pensando que los pobres viejos, a pesar de todo, aceptarían este regalo.

Me pongo el saco y me anudo la corbata, chiflando. ¿Por qué no visitarlos y ofrecerles ese papel con la letra de la niña?

Me acerco corriendo a la casa de un piso. La lluvia comienza a caer en gotones aislados que hacen surgir de la tierra, con una inmediatez mágica, ese olor de bendición mojada que parece remover los humus y precipitar las fermentaciones de todo lo que existe con una raíz en el polvo.

Toco el timbre. El aguacero arrecia e insisto. Una voz chillona grita: ¡Voy!, y espero que la figura de la madre, con su eterno rosario, me reciba. Me levanto las solapas del saco. También mi ropa, mi cuerpo, transforman su olor al contacto con la lluvia. La puerta se abre.

-¿Qué quiere usted? ¡Qué bueno que vino!

Sobre la silla de ruedas, esa muchacha contrahecha detiene una mano sobre la perilla y me sonríe con una mueca inasible. La joroba del pecho convierte el vestido en una cortina del cuerpo: un trapo blanco al que, sin embargo, da un aire de coquetería el delantal de cuadros azules. La pequeña mujer extrae de la bolsa del delantal una cajetilla de cigarros y enciende uno con rapidez, manchando el cabo con los labios pintados de color naranja. El humo le hace guiñar los hermosos ojos grises. Se arregla el pelo cobrizo, apajado, peinado a la permanente, sin dejar de mirarme con un aire inquisitivo y desolado, pero también anhelante, ahora miedoso.

-No, Carlos. Vete. No vuelvas más.

Y desde la casa escucho, al mismo tiempo, el resuello tipludo del viejo, cada vez más cerca:

-¿Dónde estás? ¿No sabes que no debes contestar las llamadas? ¡Regresa! ¡Engendro del demonio! ¿Quieres que te azote otra vez?

Y el agua de la lluvia me escurre por la frente, por las mejillas, por la boca, y las pequeñas manos asustadas dejan caer sobre las losas húmedas la revista de historietas.

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(Self-entertainment)

Vi-o porque aquela nota, tão curiosa, me fez recordar a sua existência. Lá encontrei um livro esquecido cujas páginas haviam reproduzido um espectro da caligrafia infantil. Estava a arrumar, depois de muito tempo sem o fazer, os meus livros. Ia de surpresa em surpresa, pois alguns, colocados nas prateleiras mais altas da estante, não eram lidos há muito tempo. Tanto, que o fio das folhas há muito se havia granulado, de maneira que sobre as minhas palmas abertas caiu uma mistura de pó de ouro e escama grisalha, evocadora do verniz que cobre certos corpos entrevistos primeiro nos sonhos e depois na decepcionante realidade da primeira função de ballet a que somos conduzidos. Era um livro da minha infância - talvez da infância de muitos meninos - e relatava uma série de histórias exemplares mais ou menos truculentas que possuíam a virtude de nos lançar aos joelhos dos nossos adultos para lhes perguntar, uma e outra vez, porquê? Os filhos que são mal-agradecidos aos seus pais, as moças que são raptadas por cavaleiros e regressam envergonhadas a casa, assim como as que de bom grado abandonam a terra, os velhos em a troco de uma hipoteca vencida exigem a mão da rapariga mais doce e frágil da família ameaçada, porquê? Não me recordo das respostas. Sei apenas que de entre as páginas manchadas caiu, revolutenado, uma nota branca com a letra atrós de Amilamia: Amilamia não esquece o seu pequeno amigo e procuras-me aqui como te desenho.

E por detrás estava esse mapa de um caminho que partía do X que devia indicar, sem dúvida, o banco no parque onde eu, adolescente rebelde à educação prescrita e entediosa, me esquecia dos horários das aulas e passava várias horas lendo livros que, se não tinham sido escritos para mim, o pareciam: como podia duvidar que apenas da minha imaginação podessem sair todos esses corsários, todos esses correios do czar, todos esses jovens rapazes, um pouco mais jovens do que eu, que vogavam o dia inteiro numa barcaça ao largo dos grandes rios americanos? Preso ao braço do banco como a uma sela milagrosa, ao princípio não ouvi os passos ligeiros que, depois de correr sobre a gravilha do jardim, se detinham por detrás dos meus ombros. Era Amilamia e eu não sei por quanto tempo me teria acompanhado em silêncio se o seu espírito travesso, certa tarde, não tivesse optado por fazer-me cócegas na orelha com os pedacinhos de dente-de-leão que a menina soprava para mim com os lábios inchados e o rosto franzido.

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Beyond Unseeing Eyes: The Theme of the Doll in the Fantastic Literature of Carlos Fuentes

 
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