Tuesday, March 31, 2009

nem é alentejano embora todos os ingredientes lá existam há muitos anos


perna de borrego assada sobre batatas com verdes salteados


o quê: 1 perna de borrego, alho, tomilho fresco, alecrim, 2 quilos de batatas cortadas em rodelas finas, azeite, sal, pimenta preta moída, 2 colheres de sopa de mel, espinafres e rúcula.

como: aquecer o forno a 180º. fazer pequenos cortes na perna e enchê-los com alho, tomilho e alecrim. descascar as batatas e cortar em fatias finas. temperar com azeite, sal e pimenta moída. colocar no tabuleiro de ir ao forno numa camada. pôr a perna de borrego em cima, barrar com o mel, sal e pimenta. levar ao forno cerca de uma hora. deitar duas colheres de sopa de azeite por cima e voltar ao forno mais 30 ou 45 minutos até estar pronto. retirar do forno e cobrir com folha de alumínio durante uns 15 minutos. entretanto saltear o alho em azeite e depois de soltar o aroma juntar os verdes, temperar com sal e pimenta e cozinhar só até estarem moles. servir.

história de um alentejo

"Na época pré-romana vivia, nestas terras transtaganas, um povo celta - os celtici -, que tinha à sua livre disposição e vontade todos os produtos de uma natureza com acento mediterrânico. Como dizia Orlando Ribeiro, de uma forma sintética e esclarecedora "...o Alentejo é mediterrânico por natureza e atlântico por posição." Esse povo vivia e alimentava-se da celebrada trilogia do Mediterrâneo: trigo, azeite e vinho. Eu acrescentaria o porco." (...)

"As datações e as análises feitas, em diferentes estações arqueológicas, a restos de comida e a diferente utensilagem, permitem concluir que as gentes dessa época sabiam preparar carnes e peixes e que conheciam a técnica da transformação dos grãos de cereais em farinha. O mel, que nas serras de Ossa, de Portel e Serpa era abundante e o leite de cabra e ovelha, com o qual fabricavam queijo, completavam, com o recurso intensivo à caça, a dieta alimentar desses nossos antepassados. Tudo amparado pelas duas gorduras assistenciais que se mantiveram até hoje: a banha de porco e o azeite.

O Alentejo, onde existe a maior concentração de necrópoles dolménicas, o que evidencia a existência de uma pujante civilização megalítica, tem comido, através dos séculos, os mesmos produtos que os engenheiros construtores de antas, alguns confeccionados ainda da mesma forma. Dos restos encontrados em alguns dólmens e analisados com a ajuda das nossas tecnologias de datações, conclui-se que o queijo, por exemplo, era fabricado da mesma maneira e com o mesmo coalho - o cardo - que hoje se utiliza. O porco era comido preferencialmente assado nas brasas, com sal e alho, ou com a ajuda de uma raiz da mesma família. Espinhas de peixe, do rio e do mar, elucidam sobre um trânsito entre o litoral e o interior. A presença de vários bivalves, amêijoas e outros parentes próximos, pode deixar estupefactos aqueles que se atormentam em encontrar razões para a receita de carne de porco com amêijoas. E o pão, feito de trigo, com uma farinha grosseiramente peneirada, cheia de farelo, não diferia muito do pão de trigo, chamado escuro ou de segunda, que ainda há poucos anos era consumido em todas as terras do Alentejo. Foi numa anta do concelho de Reguengos de Monsaraz que se recolheram restos de comida juntamente com restos de menta pulegium, mais prosaicamente, poejos, velha erva companheira de açordas e outros cozinhados que nos assiste há mais de três milénios.

(...)
Algumas espécies vegetais, principalmente ervas aromáticas como a segurelha e a sálvia, trazidas pelos gregos, entraram de imediato nos hábitos alimentares.(...)

Com eles [Romanos] viajaram os usos e costumes característicos da sua dieta alimentar que influenciou a forma de comer das gentes desta parte da Ibéria, recebendo, em troca, ensinamentos de práticas da cozinha indígena, que modificaram alguns dos seus hábitos de confecção porque, como dizia Estrabão, este sul do Tejo era o "paraíso das ervas frescas". Os romanos furiosos por peixe, enraizaram o costume do seu consumo na alimentação desta terra alentejana. (...) Já na era cristã, o tempo de quaresma e outras festas de carácter litúrgico, somavam 166 dias de abstinência, quer dizer, quase meio ano sem comer carne. (...)

Com a chegada dos árabes verificaram-se algumas altearações nos costumes alimentares. (...) a religião muçulmana, que condenava o porco como uma das carnes interditas, animal impuro e símbolo de luxúria, obrigou a uma restrição no seu consumo. Digo restrição porque o espírito aberto e inteligente dos muçulmanos não chegou a decidir a proibição absoluta. Só existiu nos lugares públicos de venda e foi objecto de sanções quando o seu consumo era descarado e ostensivamente ofensivo dos preceitos religiosos do ocupante. Não há notícia de abates generalizados de porcos ou de erradicações gerais. Continuou a haver matança em casa dos cristãos e o seu consumo, embora deminuído, continuou.  (...) Com eles [árabes] também se iniciou uma forma mais sofisticada de estar à mesa e de comer.

É pena que, por razões de fanatismo religioso, a civilização árabe na Península Ibérica, especialmente aqui em Portugal, não tenha a divulgação e o estudo que merece. Estigmatizados como infiéis, como gente inferior que era necessário matar, a sua brilhante cultura foi ocultada, subtraindo ao nosso conhecimento os esplendores desta civilização.

Os franceses arrogam-se a importância de terem tido o primeiro livre de cozinha, mas esquecem que no século VII, setecentos anos antes do seu Taillevent, já Ibn Razin tinha publicado o seu Fadâla al Jiwân, com centenas de receitas, devidamente narradas, com tempos exactos de confecção, com indicação das vasilhas a utilizar, os cuidados a ter com o lume, de lenha ou de carvão, conforme as receitas, a maneira de servir, etc. Conhecido é também o Kitâb-al-tabîj, de autor anónimo, com quinhentas receitas, contemplando tudo o que se comia nos séculos X e XI.

As grandes ajudas que a cozinha árabe trouxe à cozinha dos cristãos incidiram, principalmente, nas verduras e frutas, e a sua produção criou o conceito de horta, com a sua específica agricultura. É longa a lista que trouxeram e que fixaram em receitas: espinafres, alfaces, chicória, couves, rábanos, cenouras, nabos, etc. As árvores de fruto que chegaram foram a figueira, amendoeira, limoeiro, nespereira, nogueira, uma variedade de laranja azeda, pessegueiros, etc.


(...) No livro Kitâb-al-tabîj, traduzido e comentado por Huici de Miranda, vem mencionada uma receita de açorda. (...) A outra receita, a de ensopado, nem sequer vale a pena narrá-la porque é igual a todos os ensopados, os que não levam batatas, que se fazem em terras alentejanas."

tudo do livro Cozinha Alentejana de Alfredo Saramago e Manuel Fialho.



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o sol. ou pode ser muita coisa: Quad I + II, Beckett





"The more you fail, the more you succeed. It is only when everything is lost and -- instead of giving up -- you go on". that and Godot's tree



excelente exposição online, aqui. e ouvindo as palavras acima associei claramente a Beckett e acaba por ser mais uma daquelas coisas indesculpáveis em que não tinha pensado antes. como pude falhar a árvore de Giacometti ao lado de Vladimir e Estragon. shame on me. o blog OX to Grind, salvou o dia.

:....

"Like Beckett, Giacometti was only interested in failure.

Giacometti and Beckett probably met before the war. It’s well known that they spent many hours together…alone in Paris…till six or seven in the morning.

Gerard Regnier once provided an intriguing observation about the two:

“I can’t resist repeating an anecdote here that was told me by the painter Byzantios: one evening, or one night rather, Giacometti came to sit next to Samuel Beckett in the Coupole. And he whom one normally listened to, around whom people gathered –he made an unprecedented effort to enter into his neighbor’s thoughts, to surround him with an ever tighter net of questions, as if driven by unbounded curiosity — which Beckett, however, seemed not to notice.” [2]

For Beckett, the war years were a time of severe deprivation, trauma even beyond what Giacometti went through at the time. But he forced himself to work, immersed himself in writing. For very rare reasons.

It helped to maintain sanity in those years of the Occupation, of course, but soon after hostilities ended…Beckett was hit with multiple rejections of the novel he had written in hiding; it appealed to absolutely no one. As James Lord notes, “Publishers advised the author that a ‘realistic’ account of his wartime experiences would make him a fortune. To which Beckett retorted, ‘ I’m not interested in stories of success, only failure.’” [3a]

By May 1963…when the curtain rose on Jean-Louis Barrault’s *Godot* production, both men were world famous. And as Estragon and Vladimir prepared to mount a very special stage… very different than what the first production in 1953 offered, Samuel Beckett asked Alberto Giacometti to design the lone tree which appears in the play: “It would give us all enormous pleasure.” [3b]

Respecting the playwright, producers, performers…and the five characters, for starters. And the Odeon Theatre –a state-supported affair– had to be wearing a grin ear to ear.

Giacometti’s tree, for many, with its bare, ruined, choirless limbs extending isolation and loneliness, symbolized both life and death…”because the bough from which a man can hang himself also bears leaves emblematic of rebirth,” as Lord put it. [4]

More than the site of the action, however, the tree had something of the world’s axis about it.

tudo, daqui.

:....

"If Samuel Beckett had been a sculptor instead of a playwright, he would have been Alberto Giacometti. The Swiss-born artist has sometimes been called the “visual Beckett”, and the comparison is not just some scholarly metaphor. The two men were, in fact, very good friends and kindred spirits in many respects."

daqui.

:...

finalmente, sobre a árvore que Giacometti fez para o Waiting for Godot, em 1961, como a fez e o seu fim.

"There is first of all the account given by Georgio Soavi of the long night the two of them spent mulling over the stage set, consisting only of a moon and a tree, that Beckett asked Giacometti to do, ("It would give us all enormous pleasure", he wrote to Giacometti) for the Jean-Louis Barrault revival of Waiting for Godot at the Théatre de l'Odéon in 1961. "It was supposed to be a tree", Giacometti told Soavi, "a tree and the moon. We experimented the whole night long with that plaster tree, making it bigger, making it smaller, making the branches finer. It never seemed right to us. And each of us said to the other: Maybe."
do livro de Soavi Il Mio Giacometti, citado por Memory and Narrative de James Olney.

"Short silence. Still facing the window, Beckett says, "How sad... the tree was destroyed. The tree at the Odéon was destroyed in sixty-eight. Giacometti's tree." Adding, as he returns to the chair, "The Godot Tree". no livro de Sorel Etrog, As No Other Dare Fail, via Memory and Narrative, daqui.





e nada a ver mesmo. um chão de quarto quadriculado com tapete quadriculado em cima.

Monday, March 30, 2009

e como hoje não é o dia da poesia não vou deixar aqui nenhum poema

-
A Dent in a Bucket

Gary Snyder

Hammering a dent out of a bucket
-----a woodpecker
-----------answers from the woods







. . .
aproveitando para ler Can Poetry Matter de Dana Gioia.

the new wide open spaces, Robert Adams (New Topographics)

Colorado 1970-74



wide open spaces, por dentro e por fora.
o deserto onde chega Lee, personagem de "True West". somehow, o verdadeiro deserto, o do Nevada, é-lhe menos hostil. estas imagens p/b dos anos setenta foram uma surpresa para mim, distraída a tempo inteiro. "Well, you'll probably wind up on the same desert sooner or later". "I can't stay here. This is worse than being homeless." um pouco anos setenta. mas...

Sunday, March 29, 2009

água CHIC, estrela de Monchique


não conheço ninguém que não troce das águas ditas gourmet. vou assistindo à chegada de águas de outros lugares que podem atingir preços muito elevados, o que cai mal para quem está habituado a pagar quase nada pela água. mais ainda em tempo de crise e num século em que muitas crianças andam quilómetros por dia para terem direito a alguma água. neste contexto, as águas "de primeira" questionam os valores ilógicos que se cruzam no nosso século, ética e marketing, nós e eles. do ponto de vista ético, no entanto, penso que a água de Monchique coloca a água no local que ela merece: um local de destaque, um bem precioso.


é uma água bonita, como se pretendia, mas acima de tudo sabe bem e pode ser a estrela de uma refeição. substituir uma boa garrafa de vinho pelos quase dois euros que custam um litro de CHIC não só alivia o orçamento como alivia a saúde. e estou dita pela parte ética e saudável.

foi a primeira das águas especiais que comprei e não foi fácil, esperei algum tempo por ela nas prateleiras do supermercado, embora a Voss nunca acabe, bem como outras marcas bem mais caras de água supostamente impoluta. a par com a excelentíssima Água das Pedras e com a do Luso, espero que esta água não sucumba à crise. é uma boa representante da qualidade da nossa água e do nosso design. e posso dizer que o vinho sobrou, a água não.

a malta científica pode ver mais no site da água, aqui.

Saturday, March 28, 2009

Frank Gohlke's grain elevators (New Topographics)


gosto mais das p/b dos anos setenta, os grain elevators, silos de cereais do Midwest. depois disso entrou a cor e hoje Gohlke descreve-se no site como "leading figure in American landscaping photography". preferi Lewis Baltz.


Abandoned grain elevator, Homewood, Kansas, 1973

Grain elevators, Midway Area, Minneapolis, Minnesota, 1972

Grain elevators - Minneapolis - Series I, #26, 1973

Grain elevators, Minneapolis, 1974

Grain Elevator and Lightning Flash, Lamesa, Texas, 1975


muitas vezes vemos com os olhos dos outros, mais do que muitas vezes.

"Flash forward to the 1970s and Gohlke was part of a groundbreaking exhibition of landscape photography called New Topographics: Photographs of a Man-altered Landscape. The exhibition was seen in only three venues and apparently had an extremely thin catalogue, but the show made a major impact on how landscape photography was made and understood from that point forward. The show was the anithesis of both traditional black-and-white landscape photography as well as the dramatic photographs favored by the Sierra Club, which turn up the volume on the natural world. Referring to the sometimes unexpected and even mundane landscapes that appear in his work, Gohlke explained, "Part of the reason they're interesting to me is that nobody paid attention to them. I'd rather not go around with my eyes closed. I want to look at it all." (daqui)

depois da natureza de Adams dar a vez à natureza modificada. Andreas Gurski continua aqui monumentalmente.

spring

balsâmico, balsâmico branco, vinagre de rosé, de noz. depois de passado tanto tempo, já era hora de correr bem qualquer coisa.

Friday, March 27, 2009

amor à primeira vista (New Topographics)

--













Lewis Baltz, anos 70. daqui.

às vezes o trânsito faz bem

não há pessoa em Portugal com mais ideias do que Gonçalo M. Tavares. um non sense desumanizado, sobrinho de Calvino e trisneto de Kafka. "O homem prossegue: tira medidas ao hotel inteiro. Pressinto uma desgraça. Vou à recepção e digo que quero sair já do hotel. O homem com a fita métrica aproxima-se de mim e tenta medir-me. Começo a bater-lhe na cabeça com alguma força." e depois comparando: "É um tagger, explica este empresário, de 37 anos [Tiago Forjaz, na Visão de hoje bem como o texto de Gonçalo M.Tavares], costumo andar com ele aqui pela casa a colar ideias que me vêm à cabeça ou conceitos que quero transmitir" Ainda há pouco, colou um provérbio índio na parede da imaculada casa de banho deste T6 de tectos trabalhados". se o Gonçalo tivesse um tagger, a casa de banho dele tinha já seis camadas de papel sobreposto. e cuidadosamente colocado ainda por cima.

aluimentos

novidade fresca, o terceiro livro de Bénedicte Houart, Aluimentos.

o meu carteiro, adoro-o
se me traz facturas saldos bancários
zero na conta a ordem
menos que zero na conta a prazo
poupanças nada e
crédito disparando
faz várias perninhas ali mesmo
no átrio em cima do tapete
desculpando-se com habilidades várias
de modo que eu
ansiosa pelo seu toque
visto-me como quem não quer, mas quero
e peço-lhe mordiscando-lhe a orelha: por obséquio
mais papelada amanhã
dessa que me agiganta até
transformar-me em nada
onde nos desencontraremos


da cotovia

Thursday, March 26, 2009

amenizar, preparar, em espera


molho de chocolate para profiteroles

para duas chávenas de molho

o quê: 210g chocolate preto em pedaços, 1 chávena de natas, 1/2 chávena de light corn syrup.

como: colocar o chocolate num recipiente de metal. juntar as natas e o corn syrup e ferver. deitar o líquido sobre o chocolate e deixar repousar 3 a 4 minutos ou até o chocolate ter derretido. misturar. deixar o molho arrefecer um pouco e depois passar para outro recipiente. (no frigorífico, hermeticamente fechado, dura até duas semanas). para servir aquecer um pouco no microondas ou em banho-maria.

uma receita de Thomas Keller no livro Bouchon [i want it!], via epicurious como é costume.

roboppy's food photos, yummy, lindas. e outro link, à la cuisine.

paté à choux, farinha ovos manteiga e água. uma invenção de Panterelli em 1540. depois Avice e depois Antoine Carême. muito menos inspirado, cream puff dough. se não fosse a Catarina de Médecis eu não teria sobremesa (arranjada mesmo assim e lá vai outro link, Tongue in Cheek)

um verdadeiro molho, e fácil. usei o Lindt 85% cacau e ficou menos doce, consistência perfeita.

ah já me lembrei das palavras: chateada que nem cuscurões

---

pic of a pic of a pic

sem ideias está muita gente, ou por vezes -e tantas- comem-se ideias recicladas. bem dizia o Nabokov que o prazer do ensino para ele estava no regurgitar das suas ideias pelos alunos, mas o Nabokov era um escritor lucidamente perverso, como só pode ser quem é lúcido. vi fotografias de obras de museu, vi fotografias de fotografias em contexto familiar (no MoMA, fotografia contemporânea), fotografias de lixo e de comida (Vik Muniz), mas esta imagem não me saiu da retina. afinal para onde nos levaram as verdadeiras estações de serviço, onde estão as estações de serviço mitológicas dos grandes espaços, a estação do carteiro que toca sempre duas vezes. não admira que se tirem pics de pics de pics. a bem da marca, do valor da marca, da valorização da marca e de todos os compêndios que pequenos soldadinhos de chumbo memorizam para nos poder retirar os mitos com eficácia e anestesia suave. esta, pelo menos, resistiu.


imagem de Mark Steinmetz, que até faz mais retrato, de 2005.
Route 316, Barrow County, Georgia

Wednesday, March 25, 2009

uns dias são melhor que outros

Dream Variations
Langston Hughes


To fling my arms wide
In some place of the sun,
To whirl and to dance
Till the white day is done.
Then rest at cool evening
Beneath a tall tree
While night comes on gently,
Dark like me--
That is my dream!

To fling my arms wide
In the face of the sun,
Dance! Whirl! Whirl!
Till the quick day is done.
Rest at pale evening . . .
A tall, slim tree . . .
Night coming tenderly
Black like me.

onde se vê que black é mais escuro do que dark. queria pôr um poema para animar o tozz mas, como também não estou grande coisa, foi o que saiu.

Tuesday, March 24, 2009

ora vamos lá à evasão da noite: "On the Waterfront"

"The essence of the stage is concentration and penetration. Of the screen action, movement, sweep." (Elia Kazan)



afinal os pombos do The Way of the Samurai vieram do On the Waterfront. "I don't like the country, the crickets make me nervous." diz Terry Malloy, um herói menos alienado do que o samurai de Jarmush e com uma consciência maior do que o herói do Eléctrico. Karl Malden, um senhor do cinema, é aqui o homem justo, na pegada da tradição de James Stewart. Esse padre no cais é uma personagem de outrora no cinema, existem ainda na vida real, mas já não são heróis, estão fora de moda.
Nos sons deste filme passa-se muita coisa: o som do navio a abafar as palavras de Terry no cais,mais tarde o ruído de um carro a abafar a palavra do irmão no carro, uma espécie de alarme da realidade. Pelo meio, "It is Leonard Bernstein's only original film score not adapted from a stage production with songs."

"I'm gonna take it out of their skulls" e era mesmo verdade, estes pombos morreram tanto como os outros, mas há outros paralelos: o homem redimido, o que luta pela verdade e sobre quem paira uma sentença de morte. Só que este samurai não é solitário, neste mundo de Kazan os homens são grupos, há ainda essa esperança ideológica de grupo. Em Jarmush, a solidão é a única opção.

"Put me on my feet", quantas vezes viu Rourke estes minutos.
"The ordinary man who is seeking for redemption", diz Kazan.

"In Brando there is an ambivalence side, an exterior toughness and a tremendous desire for gentleness and tenderness.", diz Elia Kazan. Para ele a melhor cena do filme é a de amor, no café. "He has that ambivalence in him."

"I could have been a contender. I could have been somebody".

porque gosto


Arpad Szènes, Migration (1972)

"justiça" de porcaria

médico pedófilo dos açores não vai preso como continua a trabalhar no continente. uma das razões: as suas acções não deixaram "sequelas". devem estar a gozar. depois, parece que um homem que deitou ácido na cara da mulher segue em liberdade. como diria o Daniel Oliveira, isto é pornográfico, "justiça" de porcaria. sem dúvida que ouvir as notícias do segmento nacional causa a ansiedade e a depressão, não admira que toda a malta veja novelas.

Monday, March 23, 2009

ink

erasing my own traces with white ink, a premature small death. number nine hundred at age eleven. from your friend Bianca. "O presente de Alban era inesperado e adorável: numa gaiola de vime balouçava-se, imponente, uma ave do paraíso com plumas vermelhas, de crista em diadema, com uma sumptuosidade quase irreal". "tomaram lugar na jangada e os três corsários pegando nos remos, afastaram-se da ilha, contornando os bancos de areia." da Ilha Abandonada e da Noiva do Corsário Negro.


uns que saem, uns que entram, literatura russa contemporânea a ver; para ver: Solzhenitsyn, Chukovskaia, Arzhak, Aksenov, Limonov, Zinik, Rasputin, Bykov, Iskander, Voinovich, Venedikt Erofeev, Sokolov, Vampilov, Petrushevskaia, Voznesenskaia, Tolstaia, Prigov, Pelevin and Vladimir Sorokin.

será que me esqueci de dizer? é bom reciclar livros e oferecer os reciclados a bibliotecas, municipais, locais ou de escola. os próximos a ler agradecem e assim se cria espaço de prateleira para os novos que aí virão.

!CINCO!


este. e este. e quem sabe ou este. e ainda.
legumes cozidos, saladinha de verdes, rosé,
e esperar que sobrevivam todos.

“Marlon’s going to school to learn the Method was like sending a tiger to jungle school.”

e por incrível que me pareça, não me lembrava de nenhuma cena de Um Eléctrico Chamado Desejo. 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. 13. para uma noite de cinema.

::...
on NPR. Tennessee Williams recording (stream).

Sunday, March 22, 2009

José Manuel Castanheira


maquete de cenário para "Longas Férias com Oliveira Salazar" para a Companhia de Teatro das Beiras, 1977. do Museu do Teatro. o site de José Manuel Castanheira, aqui.

down memory lane

está próxima demais
a névoa deste cigarro transcendente
para que eu a veja
só resta a melancolia
dos meus dedos serem ásperos
demais
para a segurar

agenda chiado 1954, o cais das merendas e outros, ethan canin, muita maldita semiótica, as duas alices, sterne, as palavras de sartre, sawyer, faulkner, murdoch, gorki, muito shakespeare, claudio magris, robin dos bosques, evan hunter, mailer, moravia, woody e almodovar. não passo de um conjunto de livros.

falta uma semana, "Peça para Dois"


normalmente anda-se por aqui a fingir que se pensa alguma coisa, mas por vezes é-se obrigado a pensar mesmo a sério e o choque dessa obrigação confunde e abre novas perspectivas. e se se fizesse assim em vez desta maneira, e se o azul fosse verde. cansativa e estimulante, como pode ser olhar de novo para as coisas, assim também a Peça para Dois de Tennesse Williams a uma semana do fim no Cinearte.


saindo para o jardim de Santos por volta das dez da noite, vinha com vontade de entrar logo de seguida na primeira versão desta peça americana que aconteceu em Londres em 1967. ou a segunda, em Chicago, em 71, ou a terceira, finalmente em Nova Iorque em 75 (só por isto se vê em que lugar está Londres no mundo do palco). vontade, só para confirmar que esta versão de Rita Lello é excelente e no mesmo degrau de qualquer uma em qualquer lado. Rita Lello fez mais do que interpretar; traduziu-o e encenou. tal como no Inspector, também em cena, não encontrei defeitos em nada e qualidades em tudo. gostei do cenário, do guarda-roupa e das luzes [sempre achei que são elementos secundários em relação ao texto, defeito de formação, mas quando há defeito distraem, incomodam ou empobrecem].

o teatro dentro do teatro é sempre agradável para literatos e actores, a ilusão, a máscara, temas propícios a quem se dedica à ficção ou à representação, esta Peça para Dois, apesar da história invulgar, encaixa neste núcleo de quem se sente bem a discorrer sobre as camadas da realidade/personalidade. gostei de ver a linha de outro tema, o da normalidade, o que faz a natureza com a normalidade (já agora que falamos de Darwin) e onde se situa o desvio. aliás, o lugar do desvio tem estado mais ou menos em debate, até porque ainda hoje seguimos ideias falsamente optimistas do género selecção natural, questionadas neste texto. gostei ainda do início e do final, o medo horrível e sem descrição que se sente no fim, embora se esteja sentado numa cadeira de uma sala de teatro. outra linha, a palavra encarcerar, encarcerados, de casa-prisão para teatro-prisão depressa se salta para vida-prisão... e mais, aqui.

um aparte: não vejo novelas e quase nenhuma televisão, pois, nunca tinha visto os actores Rita Lello e Pedro Giesta, conhecia apenas a voz dela, por vezes tão semelhante à voz da mãe que chega a confundir.

uma excelente encenação para um grande texto.

o blogue da peça, aqui.

::.....


"As with Beckett, his new plays were abstract, with characters who were more the embodiment of an idea than real people and who might simply be named MAN and WOMAN or ONE and TWO. It seemed he no longer bothered with the dialogue for which he was famous, but wrote in unfinished sentences or let one character complete another's thought. There was none of the plot development—complications and climaxes—that had propelled his scenes; at times it was difficult to know when the play ended or what it was about. The plays of the sixties broke all the rules; they followed no chronological or biographical development; they would not fit into any one category; no two were necessarily alike." daqui.

e também:
"He had written his symphonies, he said; why couldn't he be allowed to write his chamber music? He had been excited by the new wave of European playwrights: Beckett, Pinter, Genet, Anouilh. In the United States he admired Albee's abrasive style. Now he wanted the freedom to experiment."

e ainda:
"After a trip to Japan in 1959 where he visited Yukio Mishima and was introduced to Kabuki theatre, Williams had mentioned to a reporter that he was writing a Noh play. No one followed up on this, his most uncharacteristic experiment. Hale, who was taking a course in Japanese theatre at the time, found in this script a possible answer to the playwright's troublesome "unfinished sentences." In Noh plays the dialogue is like an oratorio or duet where one person introduces a line or theme, and the other completes it. As in Japanese painting, where the empty spaces have as much meaning as the obvious design, the play's silences have significance equal to the sounds. The Noh formula of drama is built around a journey, a pilgrim-seeker pursued by a demon-ghost, and the intervening priest."

Saturday, March 21, 2009

dia mundial

acho os dias mundiais-de uma falta de tempo, uma espécie de fait divers inútil para acrescentar tempo aos telejornais, um descarregar de consciência do senso comum, dito classe média, antigamente dito povo, por vezes dito populares, cidadãos, as famílias e quantas expressões de um silêncio medíocre e sem cara que nos querem dar ou que nos queremos auto-atribuir. dito isto, e sendo hoje o dia da poesia, aproveito para -mais uma vez- exortar: comprem um livro à Poesia Incompleta, in loco ou pelos meios alienados de comunicação do século vinte e um, à beira de um clique ou de uma chamada móvel. seja em que língua for.

Friday, March 20, 2009

ainda do programa do teatro da Trindade

um poema de António Maria Lisboa





and for my Greek friends, a poem from António Maria Lisboa, Portuguese surrealist poet.
(poem / useless gadgets / sexual machines / useless things / indecipherable / inexcusable)

Mário e Carmen

Das algumas peças que vi, a que nunca esqueci foi Rockaby no Teatro S. Luís, temporada 90/91. As outras eram Breath e Krapp's Last Tapes. Beckett claro. Em cena Mário Viegas e Carmen Dolores. Mais histórico do que a grande maior parte dos nossos actos eleitorais, nunca mais desassociei "teatro" da imagem de Carmen Dolores na cadeira de baloiço.


Do programa agora retornado ao lar após quinze anos de exílio:

"Na peça Rockaby, Balançeada, a única figura em palco é uma velha mulher com um vestido de noite de renda preto, de gola alta. A sua única actividade é balouçar-se lentamente numa cadeira de balouço em madeira. Ela só diz a palavra "Mais" - mas, em cada vez, ela ponta a sua voz gravada em frases poéticas, para falar duma mulher (ela própria, ou, como mais tarde se sugere, sua mãe), que passou os seus dias à procura de "uma outra como ela", à procura até ter "tempo de acabar". Cada uma das quatro partes da peça, reduz as esperanças da mulher, ao mesmo tempo que se senta à sua janela, olhando para outras janelas, sempre à procura de uma outra como ela; depois finalmente, apenas uma outra janela como a dela. No fim, desce o estore, balouçando-se e esperando pela Morte, "baixar o estore e acabar / tempo de descer / a escada a pique / até abaixo / ela própria a outra / a outra viv'alma". Olhos fechados tendo desistido, ela balouça-se ritmicamente a par com as suas próprias palavras desesperadas: "dizendo à cadeira / para a embalar".

cem anos de teatro, as melhores cem do século 20, em inglês

que tirei daqui.


as 3 primeiras
1. Waiting for Godot Samuel Beckett
2 Death of a Salesman Arthur Miller
3 A Streetcar Named Desire Tennessee Williams

as vinte mais escolhidas
1 Arthur Miller, 2 Harold Pinter, 3 Samuel Beckett, 4 Tennessee Williams, 5 John Osborne, 6 George Bernard Shaw, 7 Tom Stoppard, 8 Eugene O'Neill, 9 Noel Coward, 10 David Hare, 11 Sean O'Casey, 12 Caryl Churchill, 13 Edward Bond, 14 Alan Ayckbourn, 15 Terence Rattigan, 16 Joe Orton, 17 Brian Friel, 18 Tony Kushner, 19 J.B. Priestley, 20 Edward Albee.

The 100 plays
1904 Peter Pan J.M. Barrie
1905 The Voysey Inheritance Harley Granville Barker
1907 The Playboy of the Western World J.M. Synge
1909 Strife John Galsworthy
1912 Rutherford and Son Githa Sowerby
1912 Hindle Wakes Stanley Houghton
1914 Pygmalion George Bernard Shaw
1916 Hobson's Choice Harold Brighouse
1921 The Circle W. Somerset Maugham
1924 Juno and the Paycock Sean O'Casey
1926 The Widowing of Mrs. Holroyd D.H. Lawrence
1928 Journey's End R.C. Sherriff
1928 The Front Page Ben Hecht and Charles MacArthur
1928 Plunder Ben Travers
1928 Machinal Sophie Treadwell
1930 Private Lives Noël Coward
1930 Once in a Lifetime George Kaufman and Moss Hart
1934 The Children's Hour Lillian Hellman
1934 Love on the Dole Ronald Gow
1935 Murder in the Cathedral T.S. Eliot
1935 Night Must Fall Emlyn Williams
1935 Waiting for Lefty Clifford Odets
1938 Our Town Thornton Wilder
1938 Gaslight Patrick Hamilton
1945 An Inspector Calls J.B. Priestley
1947 A Streetcar Named Desire Tennessee Williams
1947 Men Should Weep Ena Lamont Stewart
1948 The Lady's Not for Burning Christopher Fry
1949 The Death of a Salesman Arthur Miller
1952 The Pink Room (Absolute Hell) Rodney Ackland
1952 The Deep Blue Sea Terence Rattigan
1952 Dry Rot John Chapman
1952 The Mousetrap Agatha Christie
1955 Waiting for Godot Samuel Beckett
1956 Long Day's Journey into Night Eugene O'Neill
1956 Look Back in Anger John Osborne
1958 The Hostage Brendan Behan
1958 A Taste of Honey Shelagh Delaney
1959 Serjeant Musgrave's Dance John Arden
1959 Roots Arnold Wesker
1959 A Raisin in the Sun Lorraine Hansberry
1960 The Caretaker Harold Pinter
1960 A Man for All Seasons Robert Bolt
1960 Billy Liar Willis Hall and Keith Waterhouse
1961 The Knack Ann Jellicoe
1962 Who's Afraid of Virginia Woolf? Edward Albee
1963 Oh, What a Lovely War Joan Littlewood and Theatre Workshop
1964 The Royal Hunt of the Sun Peter Shaffer
1965 Saved Edward Bond
1965 Loot Joe Orton
1965 The Amen Corner James Baldwin
1965 The Odd Couple Neil Simon
1966 Rosencrantz and Guildenstern are Dead Tom Stoppard
1967 A Day in the Death of Joe Egg Peter Nichols
1967 Zigger Zagger Peter Terson
1968 The Ruling Class Peter Barnes
1970 The Philanthropist Christopher Hampton
1970 Sleuth Anthony Shaffer
1970 Home David Storey
1973 The Norman Conquests Alan Ayckbourn
1973 The Cheviot, the Stag and the Black, Black Oil John McGrath
1975 Comedians Trevor Griffiths
1975 East Steven Berkoff
1976 Dusa, Fish, Stas and Vi Pam Gems
1976 AC/DC Heathcote Williams
1977 Abigail's Party Mike Leigh
1979 Bent Martin Sherman
1979 Educating Rita Willy Russell
1980 Translations Brian Friel
1980 True West Sam Shepard
1980 Nicholas Nickleby David Edgar
1980 The Dresser Ronald Harwood
1980 The Romans in Britain Howard Brenton
1981 Quartermaine's Terms Simon Gray
1981 Noises Off Michael Frayn
1981 Good C.P. Taylor
1982 Top Girls Caryl Churchill
1982 Master Harold... and the Boys Athol Fugard
1982 Insignificance Terry Johnson
1983 Run For Your Wife Ray Cooney
1983 Glengarry Glen Ross David Mamet
1983 Victory Howard Barker
1983 Masterpieces Sarah Daniels
1984 Bouncers John Godber
1985 The Normal Heart Larry Kramer
1985 Fences August Wilson
1985 Pravda David Hare and Howard Brenton
1985 Observe the Sons of Ulster Marching Towards the Somme FrankMcGuinness
1986 Road Jim Cartwright
1987 My Mother Said I Never Should Charlotte Keatley
1988 Our Country's Good Timberlake Wertenbaker
1990 Racing Demon David Hare
1990 The Trackers of Oxyrhynchus Tony Harrison
1991 The Madness of George III Alan Bennett
1993 Angels in America Tony Kushner
1994 My Night With Reg Kevin Elyot
1995 The Steward of Christendom Sebastian Barry
1996 The Seven Streams of the River Ota Robert Lepage
1997 Closer Patrick Marber
1997 The Weir Conor McPherson
::...
[e outra coisa, eye for an eye, the shelf of best-seller self management.
e como gostei do plinto, sculpture of the month.]

pois sim. Shakespeare. Pirandello. Brecht. Chekov. Gogol. Molière. Lorca. Cocteau. Anouilh. Ionesco. Schnitzler. Wedekind. Ibsen. Strindberg. Ésquilo. Sófocles. Euripides. Aristófanes. Plautus. Séneca. Lope de Vega. Calderon de la Barca. Marlowe. Corneille. Racine.

alguns livros reunidos

acidentalmente neste caso não é o título de Joaquim Manuel Magalhães, é um facto, quinze anos mais tarde, seis caixotes maxi. e trinta rebentos de manjerição a espreitar, assim comemoro a primavera.

manuscrito ou sobre dar razão ou porque se fosse hoje esta janela nunca se poderia abrir

texto que veio da Biblioteca Nacional:

"Um dos documentos mais interessantes do espólio de Fernando Pessoa (1888-1935) é sem dúvida o manuscrito de O Guardador de Rebanhos, autógrafo assinado por Fernando Pessoa e Alberto Caeiro, um dos heterónimos do poeta. Talvez não seja a mais importante peça do espólio, mas, como diz Ivo Castro no prefácio à edição deste texto, "por servir de sede completa a um dos seus grandes ciclos de poemas, por pôr em causa a versão do próprio Pessoa sobre a génese dos heterónimos, por fornecer amplos meios de corrigir o texto-vulgata do Guardador de Rebanhos, por documentar reveladoramente os métodos de trabalho e de criação textual do poeta e, finalmente, por se ter conservado na obscuridade nos últimos quarenta anos, desconhecido do público e da maioria dos pessoanos, - por esses motivos todos o presente manuscrito [...] merecerá sem dificuldade ser considerado uma das jóias da coroa".

Na verdade, este manuscrito parece à primeira vista confirmar esse "dia triunfal" a que se refere Pessoa na famosa carta a Casais Monteiro (13 de Janeiro de 1935) sobre a génese de O Guardador de Rebanhos e do seu heterónimo Alberto Caeiro:

"Num dia em que finalmente desistira - foi em 8 de Março de 1914 - acerquei-me de uma cómoda alta e, tomando um papel, comecei a escrever, de pé, como escrevo sempre que posso. E escrevi trinta e tantos poemas a fio, numa espécie de êxtase cuja natureza não conseguirei definir. Foi o dia triunfal da minha vida, e nunca poderei ter outro assim. Abri com um título - 'O Guardador de Rebanhos'. E o que se seguiu foi o aparecimento de alguém em mim, a quem dei desde logo o nome de Alberto Caeiro. Desculpe-me o absurdo da frase: aparecera em mim o meu mestre. Foi essa a sensação imediata que tive."

e o incrível espólio, aqui. o Guardador de Rebanhos, aqui.


e agora a parte verdadeiramente interessante, a do fingimento:

Esta "unidade de escrita, de local e de tempo de concepção" parecem sugerir que este ciclo de poemas foi escrito de um jacto e "em êxtase". Mas uma leitura atenta do manuscrito permite mostrar que assim não é.

Em primeiro lugar, a letra caligráfica, muito igual e desenhada, não parece ser compatível com uma escrita inspirada e veloz. Em segundo lugar, em vez de um, temos vários instrumentos de escrita: foram utilizadas quatro canetas diferentes no corpo do próprio texto. E, por último, o grande número de emendas, feitas em diversos momentos, e utilizando sete materiais diferentes, desmentem "a suposição de ter o Guardador nascido com o texto em estado definitivo".

A encenação desse "dia triunfal" é ainda desmentida pelas várias dezenas de rascunhos e cópias intermédias conservadas no Espólio da BN. Estes documentos mostram que no processo de escrita do Guardador houve pelo menos três fases distintas: uma fase de rascunhos (versões existentes no espólio), uma fase de passagem a limpo (o presente manuscrito) e uma fase posterior de emendas (presentes neste manuscrito)."

os relógios são uma espécie de cadeiras

há poucos objectos com tantas variações como as cadeiras. os relógios são como as cadeiras. dois braços e doze números, as variações e possibilidades são muitos mais vastas do que as 76,275,360 do euromilhões. este, de George Nelson por volta de 1948, que custa cerca de 300 euros, seria a minha escolha (até ver).

Thursday, March 19, 2009

caderno de colecionador

era uma vez um homem alto e envelhecido que era um leitor de histórias imparável e empenhado e garanto que não falo de mim próprio. quando Clara, a protagonista, diz a certa altura vou fazer um café, o homem apressou-se a tirar a chávena do armário. Depois sentou-se num banco da cozinha e esperou com o pacote de açúcar e a colher de café na mão. é o perigo de acreditar em personagens, pensei eu com a colecção que se amontoa já na caixa azul a um canto do pensamento.

a minha ex-mulher não só era leitora como inventora de histórias, nunca ficaria à espera do café de um protagonista mas via-se aflita para contornar histórias cruéis. uma manhã lembrou-se de contar o início das Mil e Uma Noites, mas quando chegou a hora de assassinar a primeira jovem não foi capaz de dar a ordem. nesse momento recriou o divórcio unilateral e inventou uma série de defeitos à rapariga: não dançava bem, não cantava, não cozinhava e tinha ainda a mania de dormir rodeada de gatos. impossível a vida com alguém assim. 

Wednesday, March 18, 2009

há preciosidades

tanto gourmet enjoa-me um bocado, mas enfim, é capaz de ser um processo de aprendizagem, de fusão e de abrir as portas para fora do cozido à portuguesa. ainda espero é que do outro lado se abram portas à excelente culinária portuguesa. felizmente que andam por aí chefes a tratar disso, para que os nossos pratos deixem de ser o tesouro mais bem escondido da Europa.


a preciosidade que vou começar a ler por aqui é o livro Sabores da China, História e Gastronomia, de M. Margarida Pereira-Müller, da Colares Editora.

"O arroz é a base da cozinha chinesa, excepto nalgumas províncias do Norte, onde se consome mais o trigo. Tanto o arroz como o milho-miúdo são cozinhados inteiros, enquanto o trigo é moído antes de ser trabalhado. O arroz tem um lugar principal nas refeições - curiosas as expressões: fan (que significa arroz) quer dizer também "a hora do arroz", chin fan (que significa "comer arroz") quer também dizer "vamos para a mesa".
na página 77.

::...
sobre esta autora há que dizer, transcrevo do blogue Alma de Viajante:

Portugal traz três Gourmand Awards

Os Gourmand World Cookbook Awards, principal evento mundial de livros de cozinha e vinhos, premiou três obras de Margarida Pereira-Müller: Best Culinary History Book por As Receitas da Serafina - Receitas Populares do Século XVIII, Best Spirits Book por Licor Beirão - História e Receitas e Best Chinese Cuisine Book por Sabores da China - História e Gastronomia.

Acorreram 7.000 livros de 102 países ao concurso, que destaca os que melhor cozinham as palavras e pretende aumentar o conhecimento e respeito pela cultura gastronómica e vinícola. Edita-se cerca de 20.000 títulos de culinária por ano.

Pereira-Muller já tinha ganho dois Gourmand Award, com 111 Receitas de Fruta, Melhor Livro de Culinária Temática em 2003, e Ervas & Mezinhas, Melhor Livro de Saúde e Nutricionismo em 2007. A relações públicas da Swiss e Lufthansa (e colaboradora de Alma de Viajante) tem este mês patente ainda ao público no Forte S. João das Maias, em Santo Amaro de Oeiras, uma exposição de fotografia, que evoca nomeadamente a cidade de Luanda, Angola.

nunca venho de mãos a abanar.

"Continuo vendo manifestações de mulheres na rua. Elas sabem o que querem, isto é, não ser humilhadas, coisificadas, desprezadas, assassinadas. Querem ser avaliadas pelo seu trabalho e não pelo acidental de cada dia.

Dizem que as minhas melhores personagens são mulheres e creio que têm razão. Às vezes penso que as mulheres que descrevi são propostas que eu mesmo quereria seguir. Talvez sejam só exemplos, talvez não existam, mas de uma coisa estou seguro: com elas o caos não se teria instalado neste mundo porque sempre conheceram a dimensão do humano."

alguns objectos têm mesmo de ser de culto

como este.



Fly-Swatter, Philippe Starck.
agora já tenho os meus liliputs, este um pouco mais letal.

Tuesday, March 17, 2009

Mitch Epstein


Gavin Coal Power Plant, Cheshire, Ohio 2003

Mitch Epstein, não é um marco da fotografia, mas revejo-me nas suas imagens. o site, aqui, onde fui através do excelente blogue de Shane Lavalette.

Monday, March 16, 2009

Restaurante Almourol, em Tancos



Muito perto do castelo, é necessário fazer reserva para comer aqui. Quando se chega a lista de espera à entrada e a parede repleta de prémios faz crescer água na boca. Uma amabilidade para quem espera, vinhos da adega de , pistachios e passas, um local de brincadeira para os mais novos que resulta às mil maravilhas. Localizado à beira rio, olhando para a povoação de Arrepiado, e à entrada de Tancos de quem vem da estrada da Barquinha, só gostei menos da decoração, mas por aqui fica o menos, tudo o resto é de sinal mais.



A cozinha é da região. Vinha para as enguias, mas optei pelo sável com açorda de ovas, a melhor açorda que já comi apesar dos terrores nocturnos que a mesma me causava em criança. Açorda redimida. Estava bom o cabrito, óptimas as entradas em especial a farinheira com ovos e um verdadeiro segredo o doce de pão, tradicional de Tancos e que, segundo me disseram, não leva leite, só ovos. Ainda hei-de descobrir esta receita. A simpatia do dono da casa é exemplar, bem como o serviço. Tinha lido que na carta faltavam vinhos do Ribatejo, mas essa crítica não é válida. Pude escolher. Vale a pena o preço e a distância de Lisboa. Um restaurante cinco estrelas.



Constância



Constância
a parte do blabla ficou aqui.

changed my mind



Castelo de Almourol
blabla right here.

Sunday, March 15, 2009

Akibiyori: de teor viciante muitíssimo elevado, e não mata

Os pickles de rebentos [especialidade de Ikaho] Eram deliciosos! À medida que envelhecemos vamos apreciando mais estas coisas. Sem dúvida. Algas marinhas, cenouras, cogumelos, rabanete seco, bolo de feijão. Bife de vaca e costoletas de porco?
...
A felicidade é algo muito difícil de definir nesta vida, não acha?


in "O Fim do Outono"
Yasujiro Ozu
::......

engraçado quando se descobre "estou na tv!" ou na revista ou na rádio. anda ver, é sempre um momento alegre quando se descobre que o nosso esforço é visto por alguém, tanto tentamos comunicar, uma palavra só faz a alegria ou a raiva [alô Porto]. um aparte. e outro: antes de ontem a primeira lagartixa, ontem a primeira osga. começa a estação quente. e outro: este é daqueles pedaços sem valor em que daqui a pouco, mais à frente, volto atrás e não encontro o fio. assim a engrenagem do que se passa dentro das nossas ruminações.

vi ontem à noite o filme "O Fim do Outono", Akibiyori, "Late Autumn" que me confundiu, de início. podia ter sido "O Gosto do Saké": mesmo cenário, exteriores semelhantes, actores que se repetiam, quase a mesma história. mas depois a narrativa toma um curso surpreendente. curioso como os mais minúsculos desvios podem mudar tudo, as sombras na cara das personagens. memorável o filme todo. recordo (e ainda a propósito dos objectos no cinema do Auster) o almoço entre mãe e filha e os pratos vermelhos em frente de cada uma delas. como a mãe afasta o seu prato, como o da filha fica lá no meio do ecrã, muito curioso. estes filmes podem ser vistos trinta vezes, número arbitrário, e há sempre mais a ver.



Também no Gosto do Saké e não sei em quantos outros filmes de Ozu, gostei da actriz Mariko Okada, uma Penélope japonesa, um turbilhão, uma senhora com 95 filmes no imdb.



Sobre o duplo lançamento destes filmes em Portugal, dizia aqui há um ano João Lopes: "Ironicamente ou não, O Gosto do Saké é, neste momento, em Portugal, um dos grandes acontecimentos cinematográficos. ", para ler, aqui. Pelo Sound & Vision, fiquei também a saber deste livro, Ozu and the Poetics of cinema, aqui para ler integralmente (.pdf, 400MB), um tesouro inesperado.

sort of

caderno de coleccionador

Ando sempre com o rádio ligado, tenho necessidade de ouvir vozes continuamente. Pensando bem, estou sozinho há cerca de dezasseis anos. Talvez por isso goste de ouvir fios de pensamento, argumentos, contra-argumentos e expressão de ideias, por muito insignificantes. Enquando os ouço, esqueço-me dos fios de pensamento que eu próprio não tenho. É um esquecimento temporário, nada como a evasão ausente dos escritores que vivem e se movimentam-se dentro da sua própria cabeça. É lá que tudo se passa, as paisagens se desenrolam, o tempo passa. Vive lá gente, o outro lado do mundo ou a esquina da rua, cabe lá tudo, incluindo vendedores de seguros como eu, que esta classe sempre deu boas personagens. Mas não tenho nada a ver com isto. Nem invento histórias nem sou ficção, sou mesmo eu próprio.

Há dezasseis anos atrás tentei compensar o isolamento como o fazem tantas outras pessoas confrontadas com situações semelhantes, ou seja, mudando-me para dentro da minha própria cabeça, mas quando entrei não encontrei nada senão o silêncio. Nunca tive nada para dizer. A prova é que quando era novo fui objecto da solidariedade de uma prima empenhada que, sentindo pena da minha falta de assunto, se dispôs a treinar a minha capacidade de fluência para impressionar raparigas. O exercício era simples. Ela dava-me uma frase como "gostei do modo como disseste isso" e o meu trabalho de casa era expandi-la num parágrafo inteiro de pelo menos dez linhas. No princípio foi doloroso, eu estava pouco habituado a falar, quanto mais a puxar frases vácuas por cima de frases vácuas. Acabou por resultar, para minha surpresa e até dela, embora o resultado se tenha virado contra mim. Tornei-me perito em conversar sem dizer nada durante um longo período de tempo. Com a continuação, isto levou a que eu pensasse ainda menos do que no início. O silêncio tinha apenas inchado, mas bastava-me uma palavra ou uma expressão para eu disparar imediatamente em linhas aparentemente lógicas que, quando vistas de perto, eram totalmente inúteis. Esta particularidade persegue-me até hoje e se me ajudou bastante na actividade seguradora não posso dizer que o mesmo tenha acontecido nas áreas supostamente significantes da vida. Os pacotes de açúcar estão para além da bajulação, são concretos e directos o suficiente para me travarem o delírio. 

ultimamente

tenho andado entretida com a ideia de linhas, ultrapassando um pouco os squares recentes. em palavras, encontro as linhas não só nas homónimas, as frases, linhas do discurso, linha da narrativa, papel de vinte e cinco linhas (e "estampilha fiscal da taxa de trinta escudos"), mas também na linha da voz. há uma semana que a Voz Humana de Jean Cocteau por meio de Ingrid Bergman não me sai da cabeça. 

outra linha, fundamental para o ler, e para que eu não me esqueça da citação: "O belo não é apenas uma categoria do estético, podemos encontrá-lo também na acção moral.", J. Saramago daqui por via da popelina. nem sempre, pois, mas muitas vezes. a tal palavra "compaixão" que encontrei em Saramago há tempos e que faz todo o sentido para mim (este texto é um pequeno paradigma do mundo do escritor). diria que há estética com ética muitas vezes mas nem sempre e certamente vice-versa.

Saturday, March 14, 2009

um rio, de Camões a Saramago, de Constância a Azinhaga

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enquanto ali ao lado se lê Nabokov com a ajuda de um grandioso James Mason vestindo a roupa do Prof. Humbert Humbert e que prefiro à de Jeremy Irons, volto à idílica planície ribatejana. ao chegar a Constância lembrei-me que estamos no país do papel, eucaliptos e terra seca por baixo, a fábrica é a vista que Constância vê do outro lado do Tejo. gostei de sentir o Zêzere, nem tão frio. antes do papel, este local deve ter sido tão idílico como as terras que rodeiam a Golegã, mais abaixo. apesar de Camões se espraiar em azulejos e estátuas, o horto estava fechado ao sábado de manhã e ficou adiada a visita. para almoçar, estavam de mesa posta o restaurante Almourol, em Tancos, o Remédio d'Alma em Constância e o Barrigas, no Entroncamento. acabei por escolher o Almourol mas esse local merece um post isolado e só para si. [para referência futura: quinta de santa bárbara].


para os mais novos, a visita ao Castelo de Almourol é um acontecimento. afinal trata-se de um edifício do exército, uma condição absolutamente surrealista para um monumento nacional, mas enfim, no Convento de Mafra é o mesmo e entre o exército, o IPPAR e a santa igreja católica não sei quem mais maltrata os monumentos nacionais. a favor do Ippar tenho a mencionar o levantamento e classificação exaustivos dos monumentos nacionais feitos, penso eu, na última década. para os mais velhos, a visita ao Castelo de Almourol serve acima de tudo para exibir as câmaras fotográficas, geralmente de grandes dimensões, bem como as objectivas, e o ar citadino. não deixa de ser um local quinhentos por cento a visitar pelo passeio de barco no rio, pelo rio, pelas aves que se avistam e mais que tudo pelo barqueiro mais gentil da existência.

seguindo para a Golegã, sem feira obrigada, mas só por si, com a sua arquitectura térrea alegre e as ruas labirínticas. contrastes e surpresas, o homem sentado com os seus patos. quando tirar finalmente o vende-se do muro da casa, onde porá os seus patos. esta vila, o paúl de Boquilobo que se pode escrever Paul e o espaço que vai até à Azinhaga, e daí até ao rio, vale um regresso ou mesmo um regresso prolongado para quem precise de silêncio. aqui já não há eucaliptos, o rio é deslumbrante, assim como as muitas aves residentes ou as de passagem, como eu. gostei de ver os corvos marinhos. no paul há locais para o tal birdwatching que, imagino, deve valer cada minuto.

já em Azinhaga do Ribatejo tinha de passar pelo edifício que alberga há pouco tempo o Pólo da Azinhaga da Fundação José Saramago. dei uma olhada aos livros, vi a cama d'As Pequenas Memórias, a arca, algumas fotografias e conheci a Ana com quem podia ter ficado a conversar toda a tarde. é um local a visitar sem falta, uma ilha na pequena povoação sobrevoada por patos e onde toda a gente anda de bicicleta. não há silêncio como este.

impressão final: ficou-me a ideia que toda esta zona é desejável e muito propícia ao turismo, português ou estrangeiro. tem cultura e tradições, muitas actividades de ar livre, canoagem, passeios na natureza, equitação, passeios de bicicleta, há várias praias fluviais, há oferta gastronómica, história, milhentas oportunidades para os fotógrafos de bancada, provas de vinho, fácil acesso. surpreendo-me pela pouca oferta de sítios para ficar. à parte o lindo mas muito caro hotel lusitano e algumas casas de turismo rural não há muita escolha o que é pena. talvez pudessemos começar a olhar para o nosso país com outros olhos.

fotos aqui e aqui.

mommy, do you know what paleonthologists are

they are people that find bones and then they build them up in the museum.

Friday, March 13, 2009

 
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