Saturday, July 31, 2010

my baby

is in Tulsa, Oklahoma.

Saginaw


li poucos relatos mais vívidos e lúcidos sobre a América pré-colonizada. impressionante a descrição da floresta e dos diversos encontros: canadianos, colonos, mestiços e índios. uma excelente escolha para a leitura de sofá da Angelus Novus, imperdível, a melhor tapa-aperitivo que tenho lido de um soluço nos últimos tempos durante mais o menos o tempo que dura um mau filme.

é impossível, depois de ler o relato da viagem que parte de Nova Iorque, passa por Buffalo, atravessa o lago Erie até Detroit, e daí passando o rio Flint até ao último outpost da civilização, Saginaw não ir a correr ver o mapa e encontrar, como se esperava, o quadriculado dos campos cultivados, a grelha das highway. é inevitável o total fascínio por duas forças totalmente opostas: o modo de vida dos índios americanos por um lado, aquilo que seria uma opção viável ao modo de vida que a cultura europeia impôs à história; e o refinamento e a clareza de pensamento de Tocqueville, um digno e excelente representante dessa mesma cultura.

a tradução clara e fluída (Houart!), uma excelente leitura.

Friday, July 30, 2010

s/n

é verdade

se olharmos para a televisão, sem som, e só pelos gestos, somos capazes de saber se alguém é português ou de outra nacionalidade.

à espera

não gosto de easy listening. leva-me num minuto para o centro comercial, teletransporta o cheiro a batata frita e sapatos da zara. de manhã entrei num local zen, sala zen depois de sala zen, muitos budas sentados, muito laranja e sândalo. a vida louca do viajante de prateleira: para abater com a percussão ancestral de Stravinsky.





na secção literatura de viagens o Gonçalo Cadilhe está ao lado de Bruce Chatwin. uma nuvem de viajantes percorre agora mesmo o planeta e essa nuvem vai aterrar na secção de literatura de viagens, mais cedo ou mais tarde. os turistas, ou seja quase toda a gente -euetu- levam para casa as viagens dos outros. tal como fiz quando encontrei os 15 Dias no Deserto Americano de Tocqueville. o deserto pode ser imenso, bem como a dimensão da queda dos Iroquois, mas este é um livro de sofá. que símbolo tão genialmente a pensar em mim. está experimentado e quero mais.

Tocqueville encontra um índio moribundo deitado no chão, debaixo de uma árvore e faz isto: "Ao anoitecer, saímos da cidade e, vimos um índio deitado à beira do caminho. Era um jovem. Não se mexia, julgámo-lo morto. Alguns gemidos abafados escapavam-se penosamente do seu peito, o que nos deu a entender que ainda estava vivo, e que se debatia com a embriaguez"... Malcolm Lowry fez outra coisa com a mesma imagem no seu Vulcão, como o Jim fez os índios scattered all over the highway. meio século mais tarde o índio está morto.

levanto os olhos para ver o índio de Lowry mas encontro o dragão branco das nuvens a deslizar sobre a serra. fade in a sound. ao meu lado alguém discute as pipocas do cinema e como alguém se está nas tintas para a administração das pipocas -seriamente, assunto de vida ou de morte. em pé, à minha frente, um homem alto, de bata branca e chapéu de cozinheiro (a pele e o cabelo pistas eslavas) tira uma pequena câmara do bolso e dispara na direcção da serra. no final retrata-se a si mesmo e regressa à cozinha de comida rápida. em vez do índio acabo por ver a família russa (Vladivostok, um pouco fora de mão). muito brancos, altos todos eles, mãe pai primos e tias, sobrinhos, sentados frente ao ecrã do computador comum (olhaolha!).





chegou a tempo

do resto do verão.


"One day I was talking to Cora. She prayed for me because I was blind to sin, wanting me to kneel and pray too, because people to whom sin is just a matter of words, to them salvation is just words too." Faulkner em As I Lay Dying.

quase

quase a partir. há quem não goste de interpretações (que o original é que-). como leitora de tanta coisa nunca posso dizer o mesmo. perco-me nas versões b e c, e o meu palácio-encantado são as outras leituras, todas diferentes como impressões digitais -o que se chama artes performativas, importando do inglês. nem sei se isto existia em português. o intérprete criador que morreu esta noite, e que vi há meses em almoço numa mesa de Lisboa ao meu lado, deixa saudade. quem interpreta e dá a sua voz ou o seu corpo ao oggling da multidão e aos focos de luz no palco representa melhor o seu país ou a sua língua ou a sua história do que os que são eleitos por um mecanismo de marketing e por uma percentagem dos votantes. estas vozes que -estas sim- falam por nós.


agora que entrei nos meandros de Montano e no seu vampirismo literário. por mim um bocado exacerbado aquilo tudo, mas talvez a época o peça ou talvez seja a tal ansiedade da influência. assim de caras vejo estrelas brilhantes no mar das letras e o mar de reflexos que o próprio narrador afirma ser. e isto acontece agora como aconteceu sempre, embora manipulado hoje pela imprensa cultural, pelos grupos editoriais e os seus gabinetes de marketing a criar necessidades e a inventar teorias e modas. estes que não representam nada.

Thursday, July 29, 2010

pós-moderno

"'A minha fragmentada vida', disse [Kafka]. E vem-me à memória Ricardo Piglia, que diz que enquanto um escritor escreve para saber o que é a literatura, um crítico trabalha no interior dos textos que lê para reconstruir a sua autobiografia. Embora não seja um crítico de livros, às vezes vou actuar neste dicionário como se o fosse. Proponho-me trabalhar discretamente no interior de diários alheios e conseguir que colaborem na reconstrução da minha precária autobiografia, que naturalmente será fragmentada ou não será, apresentar-se-á tão fraccionada como a minha personalidade, que é plural e ambígua e mestiça e é, basicamente, uma combinação de experiências (minhas e de outros) e de leituras." E. Vila-Matas n'O Mal de Montano.

Wednesday, July 28, 2010

restaurante Stanislav

um pouco escondido, três passo acima do jardim do Visconde da Luz em Cascais fica o restaurante Stanislav (de que Putin gosta. e você?) bela vodka, cerveja russa, noticiário russo, matrioskas, borsch, frango Kiev, entrada de beringela, tomate e queijo, pelmeni. e sobretudo a história de uma mulher com um sorriso grande a quem faço vénia: Alla Benderschi. (o restaurante no Facebook) este inverno não falho a borsch.



nesta parte do serão real

as ruas turísticas cheias, o areal iluminado por focos amarelados que nos tornam irreais a continuar a água. os picos brancos da feira do livro brilham no escuro. música do mundo e o cheiro intenso das farturas e o cor-de-rosa do algodão. ao fundo o quiosque das conchas. de noite.


metade das bancas são livros infantis. a explosão da oferta destes livros quase me leva a desconfiar que os filhos devem ler mais do que os pais. (ou que os jogos electrónicos são demasiado caros para prendinhas de aniversário). na banca que junta o Planeta Tangerina, Kalandraka, e outras, são todos bons. veio -em vez- um W. G. Sebald de viagens, com capa de onda. "Em Agosto de 1992, quando os dias do Cão estavam a chegar ao fim, empreendi uma viagem a pé pelo condado de Suffolk"... longe das cruzes de Santiago e de Fátima, suponho, longe dos pequenos recantos da virgem com velas e flores de plástico. o alemão que dialoga com a morte.

Tocqueville

não estava nos planos mas quem sabe: Quinze Dias no Deserto Americano. talvez venha a ler o original embora reconheça um nome favorito na tradução, Bénédicte Houart. (ideia daqui, claro) o original pode ser lido aqui, em francês.

Tuesday, July 27, 2010

um Whisky que veio do Uruguai



na esquina da António Augusto Aguiar uma casa rés-vés com o abismo está emparedada. na fachada só metade da porta alta e de madeira trabalhada a deixar adivinhar a casa que morava por detrás do cimento novo. lá no topo uma cúpula de vidro, tal como as do Porto. talvez Lisboa também fosse de vidro. um pouco mais acima na Fontes Pereira de Melo, rua larga e vazia, barata, onde só os Gémeos deixaram algum carácter, um miúdo imberbe agarra-se ao telemóvel, seguindo uma curta comitiva que sai da Conservatória. pulover cor-de-rosa, camisa e uma gravata carmesim demasiado larga. as calças de vinco presas pelo cinto e sapato brilhante. casamento curto de meio da tarde e bouquet vermelho para noivos de meia idade e quem sabe que casamento será na sequência dos anos. à frente um par de gémeos, de igual.


na tragicomédia triste de Whisky estão ainda mais vazias as ruas de Montevideo (será que eles a viram assim, há vinte anos atrás?). aqui um lampejo rápido do que vou sempre ligar a Shirin. a cara da mulher no cinema, sozinha como me sentei hoje no cinema a olhar para ela. na tela, a dela, uma história de amor, seja ela qual for. a mesma que se espelha na sua música portátil e na televisão do serão. Tony Ramos e novelas brasileiras. o mesmo recurso para eles no jogo de futebol. se ela sonha, eles descarregam fúrias que é suposto terem, como homens. em ambos o espaço vazio que então se torna visível. este casamento é tão real como tantos, damos o braço para o retrato.

a vida é feita de demasiado pouco, poucos espaços, poucos objectos, poucos traços de diferença em cada um. e no entanto, o que se imagina é maior do que o que se vê.

imagens de um realismo da pobreza ou mesquinhez, popular em muitas imagens, com uma melancolia subtil, como aqui se diz, em cada uma das cenas. referência: Jarmusch. nem tanto, talvez visualmente com Mystery Train. mas as personagens de Jarmusch são rochedos e estas quase não existem. para ver, apesar dos seis anos de atraso.

descoberta: Piriápolis.

gostava de ir

a Valparaíso no Chile. se calhar só pelo nome.

Metropolis, Fritz Lang

Montano

ler O Mal de Montano intercalado com a fúria de Faulkner talvez não tenha sido uma ideia brilhante. (pensamento paralelo: e como toda a gente diz agora 'fabuloso' e 'fantástico'. danados adjectivos, a família mais disfuncional de todas as famílias. toda a gente também diz 'disfuncional', um apêndice agora necessário de 'família'). e acabo por não dizer nada de Montano, ainda estou horrorizada com a boca negra e vulcânica da personagem Teixeira que vive no Pico.

Monday, July 26, 2010

The Sound and the Fury (3)

sessão 10, dia 15 de Abril de 1957 - Class Conferences at the University of Virginia.


"Q: In that connection, did you write it in the order in which it was published?
W.F.: Yes... I wrote the Benjy part first. That wasn't good enough so I wrote the Quentin part. That still wasn't good enough. I let Jason try it. That still wasn't enough. I let Faulkner try it and that still wasn't enough, and so about twenty years afterward I wrote an appendix still trying to make that book what - match the dream."

na edição crítica de The Sound and the Fury da Norton. e que vai viajar este verão.

The Sound and the Fury (2)

o filme (aqui), loosely baseado na obra de Faulkner. (Sul é Faulkner afinal)

sobre Martin Ritt:

"I think form in film is exaggerated," Ritt opined. "I don't want anything to interfere with the story." James Wong Howe's mannered, incandescent photography of the coal mines in The Molly Maguires is the exception that proves the point: Ritt's films are visually prosaic by intention. There are rarely flashbacks and never fancy, show-off editing. "I think guys of my generation relate more to linear films. We start a story and tell it in sequence," Ritt commented on his doggedly old-time studio style.

What makes Ritt a genuine auteur, however, and an auteur to champion, is his unwavering commitment to progressive political themes within the Hollywood form of storytelling. That's exactly what has turned aesthete cultists away. "My points of view have always been independently left," he said. "I'm not afraid to reflect that."
do blogue-site de Gerald Peary, aqui.

Doutor Avalanche

"Entre os mortos é costume algumas pessoas dedicarem-se a ofícios que os vivos consideram pouco edificantes. Quem já morreu sabe do que falo. Um dos ofícios que goza aqui do maior prestígio é o de ler a sina nas linhas dos pés. Este trabalho é desempenhado por poetas."

um cheirinho do novo livro de Rui Manuel Amaral, aqui (em .pdf), para ler com a maior urgência.

memorável

o dia de ontem e tarde pelo encontro de alguns amigos, antigos e novos, com crianças presentes e as ausentes. mais do que tudo um novo ano quase a começar depois dos chapinhanços e das ondas do mar (viajar, perder países) do mês mais quente. um abraço como o que me deu a Lavi e as ondas de som que saem da mão pequena de Maria João Pires (nos Proms deste ano, em directo via antena 2).

Sunday, July 25, 2010

grandma Carr's cookies

aqui, em eatocracy. e um brinde.

s/n

Le Navire Mystique
Antonin Artaud

Il se sera perdu le navire archaïque
Aux mers où baigneront mes rêves éperdus ;
Et ses immenses mâts se seront confondus
Dans les brouillards d’un ciel de bible et de cantiques.

Un air jouera, mais non d’antique bucolique,
Mystérieusement parmi les arbres nus ;
Et le navire saint n’aura jamais vendu
La très rare denrée aux pays exotiques.

Il ne sait pas les feux des havres de la terre.
Il ne connaît que Dieu, et sans fin, solitaire
Il sépare les flots glorieux de l’infini.

Le bout de son beaupré plonge dans le mystère.
Aux pointes de ses mâts tremble toutes les nuits
L’argent mystique et pur de l’étoile polaire.


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Saturday, July 24, 2010

Friday, July 23, 2010

art of the opening line #1

"Jewel and I come up from the field, following the path in single file." As I Lay Dying, W. Faulkner

alligator

"O dinheiro só tem uma língua, enquanto ele e o seu sócio partiam todos os dias de madrugada, de início juntos na piroga, mas depois separadamente, um na piroga e o outro na canoa, um com a clavina escalavrada e corroída, o outro com a faca, um pedaço de corda com nós e uma matraca de pinho com o tamanho, o peso e a forma de uma clava turíngia, passeando os seus pesadelos pleistocénicos rumo acima e rumo abaixo dos negros canais secretos, que rasgavam a planura cor de cobre. Lembrava-se também disso, dessa primeira manhã em que viu da varanda raquítica ao voltar, ao sol nascente, uma pele pregada à parede, secando. E estacou a olhar tranquilamente para ela, pensando com serenidade e calma: É isto. É isto o que ele faz para comer e viver. Sabia que era um couro, uma pele, mas não podia dizer de que animal por associação, por raciocínio, ou sequer lembrança de qualquer gravura da sua juventude morta. Não sabia, mas compreendia que esta era a razão, a explicação para o perdido casinhoto de pernas de aranha - que começara já a morrer, a apodrecer da estacaria para cima quase antes de se fixar o telhado-, posto naquela desolação de miríades germinantes, encerrado e perdido dentro do abraço furioso da escorreguenta terra-égua e do sol-garanhão, tudo adivinhado por meio de pura relação de uma espécie com a outra, o labroste e o mouchão de ratazanas, os dois unos e idênticos por causa da mesma dispensa regateada e do fado mesquinho de trabalho duro e incessante, não para ganhar segurança futura, uma conta no banco ou até mesmo um pecúlio numa lata enterrada para uma velhice fácil e pachorrenta, mas apenas autorização para subsistir e poder comprar o ar para sentir, e sol para beber, no breve momento da existência de cada um."
n'O Homem e o Rio, Faulkner

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certamente que para os mais estilizados - de linhas mais puras, impolutas pelo factor social-moral; isto será muito feio.

Thursday, July 22, 2010

s/n



no nosso Algarve.

sim? aprofundemos. placas que são o espelho apenas de um pensar e viver. aqui não há agência, equipa, projecto, mas alguém que uma noite sob uma imperial e um prato de tremoços ou pevides começou a debitar ideias que a 'patroa' ou os amigos de ocasião iam avaliando. na Etiópia matam-se para dar nomes de rio aos restaurantes, uma associação entre corrente e saciedade menos evidente. quando olhei para além do sei lá, gostei da quadrícula das cores, nem as que lá puseram mas as que entraram sem ser chamadas. a intenção foi pobre do início, tudo num mínimo necessário para a sobrevivência. o que depois sucede com o tempo e com o crescer das coincidências- a cortina caída, o restaurante abandonado, a marquise, um arco a ocupar um espaço de ângulos, os vários fio suspensos, de intenções.

à procura de contexto

ex-marido. ex-mulher. ex-patrão. ex-família. ex-vivo.

The Sound and the Fury

s/n

INTERVIEWER
Some people say they can’t understand your writing, even after they read it two or three times. What approach would you suggest for them?
FAULKNER
Read it four times.

--
da mesma entrevista na Paris Review-

Wednesday, July 21, 2010

"the same things"

"The artist is of no importance. Only what he creates is important, since there is nothing new to be said. Shakespeare, Balzac, Homer have all written about the same things, and if they had lived one thousand or two thousand years longer, the publishers wouldn’t have needed anyone since.
(...)
The writer doesn’t need economic freedom. All he needs is a pencil and some paper. I’ve never known anything good in writing to come from having accepted any free gift of money. The good writer never applies to a foundation. He’s too busy writing something. If he isn’t first rate he fools himself by saying he hasn’t got time or economic freedom. Good art can come out of thieves, bootleggers, or horse swipes."

Faulkner em entrevista na Paris Review, em .pdf aqui. um link talvez repetido, mas não faz mal.

geografia da memória

ia vendo a natureza volátil das cidades. da praça dom luís I sei só de uma máquina de telex antiquíssima, de fita perfurada, e do bater furioso das teclas. os melhores dispensavam a fita e escreviam ao vivo, uma ligação a outro lado em qualquer parte que era ainda cheia de símbolos e de etiquetas. não se parava. ela era a corredora de fundo da empresa, sempre ligada ao estrangeiro, pelas pancadas dos dedos (o seu piano) e das letras enfileiradas, agora pretas agora vermelhas. uma praça inteira destilada em fita perfurada sem ligação ao mercado da ribeira ali ao lado no mapa, mas noutro país, o das madrugadas de pão desfocado e o ruído intenso das flores e das caixas de verduras. ou o primeiro andar da vinte e quatro de julho, noutra galáxia, de tectos altos e paredes gastas pelo arquivar infinito de papéis inúteis. os turistas sentam-se na esplanada da Brasileira a olhar para outros turistas que passam tentando adivinhar se são locais se são iguais, mas ignorando a barata imensa que se escapou para dentro do meu saco de livros e que depositei algures no instituto britânico depois de uma subida heróica pelo bairro alto. tantas Brasileiras como sacos ou olhos ou turistas.

rúcula

também são acordes. e que boa a salada chèvre no Kaffeehaus do Chiado. rúcula alface agrião, vinagrete balsâmico, pinhões, pera finíssima e chèvre gratinado.

Tuesday, July 20, 2010

país d'água

as arribas de Peniche são prateleiras de rochas sedimentares com abundantes fósseis marinhos, mais velhas do que a literatura. escarpas com as Berlengas à vista e sardões -amarelos-verdes- empinados na pedra, os salpicos violentos. nos bairros de cor desgastada cada café tem um barco ou uma santa ou um leme e cheira a sal. a senhora dos remédios não se abeira do precipício mas de uma rotunda nova e verde, a rasar as dunas.

Monday, July 19, 2010

cidade d'água (2)



cidade d'água







publicidade gratuita

Rodízio O Churrasco ao Domicílio

"Na festa dos seus anos, no casamento, no baptizado, no convívio com a família, na sua residência, na sua empresa, no lugar que você desejar nós iremos para servi-lo. Levamos a churrasqueira, carvão, a carne já temperada e um delicioso pão de alho. A festa é sua... o trabalho é nosso!"
tel. 919 249 996 - 219 693 046

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porque fui a uma festa e gostei de quem grelhava as carnes. fim-de-semana, caipirinha perfeita, simpatia, o esforço de quem atravessou o atlântico para este lado, desta vez, com a família, procurando um pouco do eldorado. pelo que me disse, serve toda a área de Lisboa, arredores e zona centro do país.

poetas portugueses vivos

fiz uma consulta e escreveu-se num papel amarelo. antes que os nomes se desgastem. Herberto Helder. Gastão Cruz. Casimiro de Brito. Catarina Nunes de Almeida. Helga Moreira. António Ramos Rosa. José Agostinho Baptista. Vasco Gato. António Osório. Adília Lopes. Manuel de Freitas. Walter Hugo Mãe.

amar o mar



todas (quase).

Amar o Mar, o site.

(para ler, diz o nosso skipper)

Saturday, July 17, 2010

no mar

Just before it was dark, as they passed a great island of Sargasso weed that heaved and swung in the light sea as though the ocean were making love with something under a yellow blanket, his small line was taken by a dolphin. He saw it first when it jumped in the air, true gold in the last of the sun and bending and flapping wildly in the air. na televisão agora. ainda a comparar o homem solitário num bote. o de Crane, o de Faulkner no rio e este de Hemingway. espaço de heróis, meu comandante. de homens, diria, com o seu olho azul. de regresso a casa, entre Leixões e Alcântara.

desta vez

foi paixão.

Boulangerie de Paris no Porto

frente ao mercado do Bom Sucesso, na rua de Gonçalo Sampaio. uma para abrir na zona histórica, a que se seguirá outra na Foz. para sul não sabemos. fácil suspirar por esta invasão francesa e esperar que atravesse as linhas de Torres até à capital. (assim derrotada a Confeitaria Petúlia, que nem é tão longe, "das melhores casas", adiada para segundas núpcias salvo seja)













os macarons são para chorar. o pão idem. totalmente e demasiadamente a não perder.

(unrelated-rua de Manuel Bandeira: gostei)

Marlene Dumas



auto-retrato na capa no jornal de Serralves, faz parte de "Against the Wall", inaugurada em Março passado na Zwirner, aqui. as várias walls programáticas, pintura pela intervenção, foram menores, para mim, do que as faces da morte, ampliadas dos jornais.

ofélia



Ofélia de Inês Fontes (2010)
"Ofélia é uma criatura de origem onírica que atravessa um processo de metamorfose simultaneamente harmonioso e violento e renasce como um ser fantástico, resultado da fusão entre Mulher e Árvore. Dois elementos que surgem como símbolos do equilíbrio simbiótico entre destruição e criação que domina os ciclos da natureza.
O projecto nasce do fascínio pelo processo de contínua metamorfose em que se baseia a evolução dos seres vivos. Assenta numa técnica de desconstrução da imagem fotográfica que quebra a ilusão de realidade, permitindo materializar uma dimensão alternativa que suporta a existência de Ofélia e a sua mutação."


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das imagens e dos suportes (impressão de sais de prata em papel japonês e película, vidro) gostei bastante. o texto retira(me) em vez de acrescentar.

Friday, July 16, 2010

"o Porto chama por ti"

convivência



cordoaria

magnórios

"Gosta o viajante de olhar para o interior destes estabelecimentos, fundos, tão fundos que antes de chegar ao balcão tem o cliente tempo de mudar de opinião três vezes sobre o que vai comprar. Adivinha-se que lá para trás há quintais, árvores de fruto, por exemplo nespereiras, aqui chamadas magnórios. E o viajante não pode esquecer as cores com que se pintam as casas, estes ocres vermelhos ou amarelos, estes castanhos-profundos. O Porto é um estilo de cor, um acerto, um acordo entre o granito e as cores de terra que ele aceita, com uma excepção para o azul se com o branco se equilibrar no azulejo." -Saramago na Viagem a Portugal.


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não há lá nada, tinham-me dito, não fica lá nem dez minutos. antigamente era onde passava os domingos, era a feira do porto, agora não há nada. mas havia a biblioteca e galeria municipal a que chamaram Almeida Garrett (lá dentro na entrada um expositor self-service com todos os livros de Saramago -servi-me) nos jardins com flores cruzados por bicicletas, vivem pavões. dezenas de crianças dentro do pavilhão globo, outras tantas no espaço infantil de uma biblioteca onde se mora facilmente. (sinto a diferença mas não a consigo definir) habituava-me a esta cidade cinza e ocre onde crescem plantas por todo o lado. cidade de casas altas e estreitas cortadas por janelas, três, e encimadas por cúpulas magníficas de vidro. cidade de vidro.






s/n



cheia

"Foi então que lhe ocorreu que aquela condição actual não era o fenómeno de uma década, mas que os anos que intervieram, durante os quais a terra consentira no seu seio plácido e dormente os frágeis mecanismos da grosseira inventiva do homem, eram o fenómeno e esta situação a norma. E o rio fazia agora o que sempre quisera fazer." n'O Homem e o Rio, Faulkner, com tradução de Luís de Sousa Rebelo.

s/n

partiu-se um quadro

e uma escultura: proibido fotografar desde há um mês. ordens da administração.

(venha cá para o mês que vem)





não contrariei nada e trouxe mais um Vila-Matas, a quem por alguma razão quero sempre chamar vale-matas. para o arquivo: a escolha era entre três, vi "cidade da Horta" num deles: veio.

cristal

momento bus stop

ao pequeno-almoço o ar condicionado é forte e a brisa metálica fria demais. um homem atravessa a sala decidido com um casaco de malha frágil na mão. chegando, coloca-lhe o casaco sobre os ombros, sorri e beija-a na boca, por esta ordem. depois senta-se. na mesa do lado um homem falou baixo ao telefone durante todo o meu café. no fim da chamada levantam-se ambos sem uma palavra.

a caminho

de Santiago. não eu mas é quase como se fosse, caminhos que se fazem em conjunto, por vezes, sem ser preciso estar ou dizer. talvez desde Burgos, à estrada. assim por acordo tácito se sabe que às sete são estrangeiros os que se sentam nas pizzarias e outros locais reconhecíveis. vejo melhor na noite que cai. quem está ou quem esteve nem sempre é quem estava mais perto. as minhas moedas têm acendido velas eléctricas-

Thursday, July 15, 2010

ainda na água, o rio, entre rios

cais de Gaia

esplanada do Molhe







ah a memória

passeio da Foz

ícone

enquanto dormes

estar na Boavista a puxar para Matosinhos onde cheira tudo a peixe, até a areia, e as casas, as que mesmo novas não apagam o cheiro do peixe das sobreviventes. serpenteio por entre as grelhas da festa do mar, as viúvas e esposas ou mães são só de ferro. na praia suburbana banhistas quase tocam navios distantes. na água do porto do porto flutua lixo de plástico, embalagens, restos. a rede sopra vermelha, içada à força de máquinas.

leixões

tempura


na Casa da Música. sobre a varanda lilás grasnam gaivotas.

kingkingkingking


passei na livraria a correr, les enfants terribles. o café escondido num vão é vermelho cadeiras velas ikea. já foi uma excelente livraria e sinto falta daquele espaço apinhado que era da assírio com livros de cinema. a casa de banho 'das senhoras' tem uma parede verde quase musgo. e um desenho: uma pirâmide gigantesca com um topo plano, como se fosse um planalto. na base há uma porta e uma escada ainda para baixo. à porta, uma figura convida a entrar. no topo da pirâmide, uma fila de figurinhas distantes caminham até à beira e depois mergulham no espaço. figurinhas a cair no espaço (verde quase musgo). em cima brilha uma estrela. um sol acanhado espreita a meia altura da estrutura, semi-encoberto. quando passei na livraria vermelha cantava o Cohen qualquer coisa arrastada e grave. à saída ainda lá estava.

Wednesday, July 14, 2010

como se já tivesse visto


muitas vezes

24 city, de Zhang Ke Jia ou a demolição da memória

olhar daqui e daqui.


depois de muitas voltas pela casa virtual à procura do anterior que vi, Still Life, cheguei à conclusão que vi mas não escrevi. assim perco, por defeito de memória, a primeira impressão e fica só o que já passou ao filtro da memória (poderoso filtro o meu, deixa apenas areias, uns grãos).

afinal o mesmo 'tema', como dizia o jornal. o tema de demolição-demolidores, políticas que transformam o destino de um enorme número de pessoas, exílio e total destruição do natural. a cor que condiz é o cinzento. a cor dos sonhos individuais contrasta com a cor ambiente: azuis fortes, laranjas, amarelos - pontos aqui e ali no meio tom geral da imagem. esta impressão de dot dot no nevoeiro faz-me sempre feliz, não sei explicar porquê.

a história da cidade 24 (abreviada de fábrica 420, sempre a tentação numérica) é documental e serve fins de memória. em Still Life havia a chamada acção, ou ficção. aqui é tudo suposto ser verdadeiro. se não estivesse de partida ia bisbilhotar: cada personagem é real ou fictícia, como em Shirin? talvez para depois. o documental lembrou-me muito as Ruínas de Manual Mozos se ele lhes tivesse dado gente e não só narrativas. a Mozos faltava ainda a preocupação social que atormenta Zhang Ke Jia. só a tormenta explica o mesmo tema exacto.

a memória na China é uma coisa peculiar de tantas vezes que já se tentou apagá-la. mas ela vive - como quer o realizador - nos momentos que causam lágrimas em cada uma pessoas, gotas num extenso mar. hoje a memória apaga-se de novo (demolição). podia chamar-se revolução cultural dois. um ponto de vista que me vai deixar a ruminar durante algum tempo.

antes do início do filme, impaciente, pensei: vamos lá para a China, take off. fui e voltei, mas ainda penso que o grande continente tem mais cor do que esta película.




"Through this process, do you feel that many memories are…
'... lost. Memories were lost. That’s why when I read this news, I thought to myself: Wow, in the end, even memories had to be sacrificed. When you visit an old building, at least you can still trace your past memories. But when [a building] is torn to the ground like this, nothing is left behind.'"
(daqui)

Tuesday, July 13, 2010

cyan blue

a um canto

a um canto no patamar que serve o elevador estava uma batata, avermelhada e de casca fina, a fazer sombra a si própria. quando se observa uma batata no canto do patamar que serve o elevador será possível passar à frente, propositadamente, sem se imaginar por um segundo sequer a cadeia de eventos que resultaram neste estranho desfecho?

Ballet Mechanique





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Sartre on Faulkner's The Sound and the Fury

texto daqui e que surge também na edição crítica da Norton.

On The Sound and the Fury: Time in the Work of Faulkner
Jean-Paul Sartre

The first thing that strikes one in reading The Sound and the Fury is its technical oddity. What has Faulkner broken up the time of his story and scrambled the pieces? Why is the first window that opens out on this fictional world the consciousness of an idiot? The reader is tempted to look for guide-marks and to re-establish the chronology for himself:

Jason and Caroline Compson have had three sons and a daughter. The daughter, Caddy, has given herself to Dalton Ames and become pregnant by him. Forced to get hold of a husband quickly . . .
Here the reader stops, for he realizes he is telling another story. Faulkner did not first conceive this orderly plot so as to shuffle it afterwards like a pack of cards; he could not tell it in any other way. In the classical novel, action involves a central complication; for example, the murder of old Karamazov or the meeting of Edouard and Bernard in The Coiners. But we look in vain for such a complication in The Sound and the Fury. Is it the castration of Benjy or Caddy's wretched amorous adventure or Quentin's suicide or Jason's hatred of his niece? As soon as we begin to look at any episode, it opens up to reveal behind it other episodes, all the other episodes. Nothing happens; the story does not unfold; we discover it under each word, like an obscene and obstructing presence, more or less condensed, depending upon the particular case. It would be a mistake to regard these irregularities as gratuitous exercises in virtuosity. A fictional technique always relates back to the novelist's metaphysics. The critic's task is to define the latter before evaluating the former. Now, it is immediately obvious that Faulkner's metaphysics is a metaphysics of time.
Man's misfortune lies in being time-bound.
. . . a man is the sum of his misfortunes. One day you'd think misfortune would get tired, but then time is your misfortune . . .
Such is the real subject of the book. And if the technique Faulkner has adopted seems at first a negation of temporality, the reason is that we confuse temporality with chronology. It was man who invented dates and clocks.
Constant speculation regarding the position of mechanical hands on an arbitrary dial which is a symptom of mind-function. Excrement Father said like sweating.
In order to arrive at real time, we must abandon this invented measure which is not a measure of anything.
. . . time is dead as long as it is being clicked off by little wheels; only when the clock stops does time come to life.
Thus, Quentin's gesture of breaking his watch has a symbolic value; it gives us access to time without clocks. The time of Benjy, the idiot, who does not know how to tell time, is also clockless.
What is thereupon revealed to us is the present, and not the ideal limit whose place is neatly marked out between past and future. Faulkner's present is essentially catastrophic. It is the event which creeps up on us like a thief, huge, unthinkable - which creeps up on us and then disappears. Beyond this present time there is nothing, since the future does not exist. The present rises us from sources unknown to us and drives away another present; it is forever beginning anew. "And . . . and . . . and then." Like Dos Passos, but much more discreetly, Faulkner makes an accretion of his narrative. The actions themselves, even when seen by those who perform them, burst and scatter on entering the present.
I went to the dresser and took up the watch with the face still down. I tapped the crystal on the dresser and caught the fragments of glass in my hand and put them into the ashtray and twisted the hands off and put them in the tray. The watch ticked on.
The other aspect of this present is what I shall call a sinking in. I used this expression, for want of a better one, to indicate a kind of motionless movement of this formless monster. In Faulkner's woke, there is never any progression, never anything which comes from the future. The present has not been a future possibility, and when my friend, after having been he for whom I am waiting, finally appears. No, to be present means to appear without any reason and to sink in. This sinking in is not an abstract view. It is within things themselves that Faulkner perceives it and tries to make it felt.

The train swung around the curve, the engine puffing with short, heavy blasts, and they passed smoothly from sight that way, with that quality of shabby and timeless patience, of static serenity . . .
And again,
Beneath the sag of the buggy the hooves neatly rapid like motions of a lady doing embroidery, diminishing without progress1 like a figure on a treadmill being drawn rapidly off-stage.
It seems as though Faulkner has laid hold of a frozen speed at the very heart of things; he is grazed by congealed spurts that wane and dwindle without moving.
This fleeting and unimaginable immobility can, however, be arrested and pondered. Quentin can say, "I broke my watch," but when he says it, his gesture is past. The past is named and related; it can, to a certain extent, be fixed by concepts or recognized by the heart. We pointed out earlier, in connection with Sartoris, that Faulkner always showed events when they were already over. In The Sound and the Fury everything has already happened. It is this that enables us to understand that strange remark by one of the heroes, "Fui. Non Sum."2 In this sense, too, Faulkner is able to make man a sum total without a future: "The sum of his climactic experiences," "The sum of his misfortunes," "The sum of what have you." At every moment, formless shadows, flickerings, faint tremblings and patches of light rise up on either side of him, and only afterwards, when he has a little perspective, do they becomes trees and men and cars.
The past takes on a sort of super-reality; its contours are hard and clear, unchangeable. The present, nameless and fleeting, is helpless before it. It is full of gaps, and , through these gaps, things of the past, fixed, motionless and silent as judges or glances, come to invade it. Faulkner's monologues remind one of aeroplane trips full of air-pockets. At each pocket, the hero's consciousness "sinks back into the past" and rises only to sink back again. The present is not; it becomes. Everything was. In Sartoris, the past was called "the stories" because it was a matter of family memories that had been constructed, because Faulkner had not yet found his technique.
In The Sound and the Fury he is more individual and more undecided. But it is so strong an obsession that he is sometimes apt to disguise the present, and the present moves along in the shadow, like an underground river, and reappears only when it itself is past. When Quentin insults Bland,3 he is not even aware of doing so; he is reliving his dispute with Dalton Ames. And when Bland punches his nose, this brawl is covered over and hidden by Quentin's past brawl with Ames. Later on, Shreve relates how Bland hit Quentin; he relates this scene because it has become a story, but while it was unfolding in the present, it was only a furtive movement, covered over by veils. Someone once told me about an old monitor who had grown senile. His memory had stopped like a broken watch; it had been arrested at his fortieth year. He was sixty, but didn't know it. His last memory was that of a schoolyard and his daily walk around it. Thus, he interpreted his present in terms of his past and walked about his table, convinced that he was watching students during recreation.
Faulkner's characters are like that, only worse, for their past, which is in order, does not assume chronological order. It is, in actual fact, a matter of emotional constellations. Around a few central themes (Caddy's pregnancy, Benjy's castration, Quentin's suicide) gravitate innumerable silent masses. Whence the absurdity of the chronology of "the assertive and contradictory assurance" of the clock. The order of the past is the order of the heard. It would be wrong to think that when the present is past it becomes our closest memory. Its metamorphosis can cause it to sink to the bottom of our memory, just as it can leave it floating on the surface. Only its own density and the dramatic meaning of our life can determine at what level it will remain.
Such is the nature of Faulkner's time. Isn't there something familiar about it? This unspeakable present, leaking at every seam, these sudden invasions of the past, this emotional order, the opposite of the voluntary and intellectual order that is chronological but lacking in reality, these memories, these monstrous and discontinuous obsessions, these intermittences of the heart - are not these reminiscent of the lost and recaptured time of Marcel Proust? I am not unaware of the differences between the two; I know, for instance, that for Proust salvation lies in time itself, in the full reappearance of the past. For Faulkner, on the contrary, the past is never lost, unfortunately; it is always there, it is an obsession. One escapes from the temporal world only through mystic ecstasies. A mystic is always a man who wishes to forget something, his self or, more often, language or objective representations. For Faulkner, time must be forgotten.
'Quentin, I give you the mausoleum of all hope and desire; it's rather excruciatingly apt that you will use it to gain the reductio ad absurdum of all human experience which can fit your individual needs no better than it fitted his or his fathers'. I give it to you not that you may remember time, but that you might forget it now and then for a momen and not spend all your breath trying to conquer it. Because no battle is ever won he said. They are not even fought. The field only reveals to man his own folly and despair, and victory is an illusion of philosophers and fools.'
It is because he has forgotten time that the hunted negro in Light in August suddenly achieves his strange and horrible happiness.
It's not when you realize that nothing can help you - religion, pride, anything - it's when you realize that you don't need any aid.
But for Faulkner, as for Proust, time is, above all, that which separates. One recalls the astonishment of the Proustian heroes who can no longer enter into their past loves, of those lovers depicted in Les Plaisirs et Les Jours,4 clutching their passions, afraid they will pass and knowing they will. We find the same anguish in Faulkner.

. . . people cannot do anything very dreadful at all, they cannot even remember tomorrow what seemed dreadful today . . .
and
. . . a love or sorrow is a bond purchased without design and which matures willynilly and is recalled without warning to be replaced by whatever issue the gods happen to be floating at the time . . .
To tell the truth, Proust's fictional technique should have been Faulkner's. It was the logical conclusion of his metaphysics. But Faulkner is a lost man, and it is because he feels lost that he takes risks and pursues his thought to its uttermost consequences. Proust is a Frenchman and a classicist. The French lose themselves only a little at a time and always manage to find themselves again. Eloquence, intellectuality and a liking for clear ideas were responsible for Proust's retaining at least the semblance of chronology.
The basic reason for this relationship is to be found in a very general literary phenomenon. Most of the great contemporary authors, Proust, Joyce, Dos Passos, Faulkner, Gide, and Virginia Woolf, have tried, each in his own way, to distort time. Some of them have deprived it of its past and future in order to reduce it to the pure intuition of the instant; others, like Dos Passos, have made of it a dead and closed memory. Proust and Faulkner have simply decapitated it. They have deprived it of its future, that is, its dimension of deeds and freedom. Proust's heroes never undertake anything. They do, of course, make plans, but their plans remain stuck to them and cannot be projected like a bridge beyond the present. They are day-dreams that are put to flight by reality. The Albertine5 who appears is not the one we were expecting, and the expectation was merely a slight, inconsequential hesitation, limited to the moment only. As to Faulkner's heroes, they never look ahead. They face backwards as the car carries them along. The coming suicide which casts its shadow over Quentin's last day is not a human possibility; not for a second does Quentin envisage the possibility of not killing himself. This suicide is an immobile wall, a thing which he approaches backwards, and which he neither wants to nor can conceive.
. . . you seem to regard it merely as an experience that will whiten your hair overnight so to speak without altering your appearance at all . . .
It is not an undertaking, but a fatality. In losing its element of possibility it ceases to exist in the future. It is already present, and Faulkner's entire art aims at suggesting to us that Quentin's monologues and his last walk are already his suicide. This, I think, explains the following curious paradox: Quentin thinks of his last day in the past, like someone who is remembering. But in that case, since the hero's last thoughts coincide approximately with the bursting of his memory and its annihilation, who is remembering? The inevitable reply is that the novelist's skill consists in the choice of the prsent moment from which he narrates the past. And Faulkner, like Salacrou in L'Inconnu d'Arras,6 has chosen the infinitesimal instant of death. Thus, when Quentin's memory begins to unravel its recollections ("Through the wall I heard Shreve's bed-springs and then his slippers on the floor hishing. I got up . . .") he is already dead. All this artistry and, to speak frankly, all this illusion are meant, then, merely as substitutions for the intuition of the future lacking in the artist himself. This explains everything, particularly the irrationality of time; since the present is the unexpected, the formless can be determined only by an excess of memories. We now also understand why duration is "man's characteristic misfortune." If the future has reality, time withdraws us from the past and brings us nearer to the future; but if you do away with the future, time is no longer that which separates, that which cuts the present off from itself. "You cannot bear to think that someday it will no longer hurt you like this." Man spends his life struggling against time, and time, like an acid, eats away at man, eats him away from himself and prevents him from fulfilling his human character. Everything is absurd. "Life is a tale told by an idiot, full of sound and fury, signifying nothing."
But is man's time without a future? I can understand that the nail's time, or the clod's or the atom's, is a perpetual present. But is a man a thinking nail? If you begin by plunging him into universal time, the time of planets and nebulae, of tertiary flexures and animal species, as into a bath of sulphuric acid, then the question is settled. However, a consciousness buffeted so from one instant to another ought, first of all, to be a consciousness and then, afterwards, to be temporal; does anyone believe that time can come to it from the outside? Consciousness can "exist within time" only on condition that it becomes time as a result of the very movement by which it becomes consciousness. It must become "temporalized," as Heidegger says. We can no longer arrest man at each present and define him as "the sum of what he has." The nature of consciousness implies, on the contrary, that it project itself into the future. We can understand what it is only through what it will be. It is determined in its present being by its own possibilities. This is what Heidegger calls "the silent force of the possible." You will not recognize within yourself Faulkner's man, a creature bereft of possibilities and explicable only in terms of what he has been. Try to pin down your consciousness and probe it. You will see that it is hollow. In it you will find only the future.
I do not even speak of your plans and expectations. But the very gesture that you catch in passing has meaning for you only if you project its fulfilment out of it, out of yourself, into the not-yet. This very cup, with its bottom that you do not see - that you might see, that is, at the end of a movement you have not yet made - this white sheet of paper, whose underside is hidden (but you could turn over the sheet) and all the stable and bulky objects that surround us display their most immediate and densest qualities of the future. Man is not the sum of what he has, but the totality of what he does not yet have, of what he might have. And if we steep ourselves thus in the future, is not the formless brutality of the present thereby attenuated? The single event does not spring on us like a thief, since it is, by nature, a Having-been-future. And if a historian wishes to explain the past, must he not first seek out its future? I am afraid that the absurdity that Faulkner finds in human life is one that he himself has put there. Not that life is absurd, but there is another kind of absurdity.
Why have Faulkner and so many other writers chosen this particular absurdity which is so un-novelestic and so untrue? I think we should have to look for the reasons in the social conditions of our present life. Faulkner's despair seems to me to precede his metaphysics. For him, as for all of us, the future is closed. Everything we see and experience impels us to say, "This can't last." And yet change is not even conceivable, except in the form of a cataclysm. We are living in a time of impossible revolutions, and Faulkner uses his extraordinary art to describe our suffocation and a world dying of old age. I like his art, but I do not believe in his metaphysics. A closed future is still a future. "Even if human reality has nothing more 'before' it, even it 'its account is closed,' its being is still determined by this 'self-anticipation.' The loss of all hope, for example, does not deprive human reality of its possibilities; it is simply a way of being toward these same possibilities."7


NOTES

1. The author's [Faulkner's] italics.

2. "I was. I am not" [Editor].

3. Compare the dialogue with Bland inserted into the middle of the dialogue with Ames: "Did you ever have a sister?" etc., and the inextricable confusion of the two fights.

4. A novel by Marcel Proust, c. 1924 [Editor].

5. In A la recherche du temps perdu (A Remembrance of Things Past) by Proust, Albertine is a lesbian attracted by and to the narrator.

6. Armand Salacrou, a contemporary French dramatist (born 1899), who wrote L'Inconnu d'Arras, (The Unknown Woman from Arras), in which a man learns of his wife's infidelity and kills himself.

7. Heidegger, Sein und Zeit

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e uma outra (grande) colecção of criticism.

Monday, July 12, 2010

estava n'O Homem e o Rio

quando li este livro achei-o lindo. acho que o devemos ter em casa. gostaria de o ler outra vez depois de acabares. era The Old Man e começava Once (it was in Mississippi, in May, in the flood year 1927) there were two convicts. com som.

um hipertexto, agora sim

The Sound and the Fury

Through the fence, between the curling flower spaces, I could see them hitting.

cruz sobre pedras antigas

uma frase

da prolífica, como lhe chamam, Joyce Carol Oates. de Barcelona para a extensão de terra plana -uma estrada direita onde o horizonte se vê melhor do que em qualquer lugar- até encontrar a base das Rochosas, negras à distância e que se vão elevando e tornando mais escuras. terra plana e loura. aqui na base das Rochosas, uma pequena dança entre gazela sorridente e predador que termina com o detalhe de um borrifador, sinal do que é caseiro e familiar, o espaço seguro, confortável, um castelo na paisagem. a tensão crescente termina com certa ironia num borrifador de água, assim se estruturam bons contos, um caminho com passos certos e sem desvios de maior. fica a frase. (gosto de desvios)


"She was in the kitchen ironing, just sprinkling some clothes on the ironing board. She used a pop bottle painted blue and fitted out with a sprinkler top made of rubber, that I fixed for her at grade school a long time ago for a Christmas present; she shook the bottle over the clothes and stared at me. 'Where have you been? I told you to come right back.'"
em Small Avalanches, de Joyce Carol Oates

Sunday, July 11, 2010

pensamento sexista

e desprezível: há coisas que os homens tendem a não ver.

Madrid (e o rei sentado)

em ritmo quase lento, acabo de ver o primeiro boarding pass, um programa da sic mulher que inaugurou em Madrid. não resisti a rever tantos sítios por onde passei recentemente, passagem breve mas que vou recordar sempre e sempre, agradavelmente. outros que falhei. imperdoável não tirarem a foto à sombra do cavaleiro andante, fazendo companhia a japoneses e espanhóis de outros pontos do país à procura do umbigo da Espanha. a vista da piscina do Hotel Emperador em plena Gran Via e o bater nas tábuas, não do touro ou dos cavalos, mas dos sapatos do flamenco. Vila-Matas, que quase acabo, anuncia o fim do mundo às mãos turísticas e às multidões que se enfileiram para tirar o retrato junto aos símbolos esvaziados da nacionalidade. que estupidificámos todos e a civilização como a conhecíamos está para acabar. vou sempre preferindo os mojitos e os catálogos dos museus e os leques, sinais de que se pode andar em paz por estas ruas. novos edifícios e o mercado restaurado (o património restaurado mercantilmente para a oferta e a procura). nem creio que o franchising, o marketing e as grandes superfícies exterminem o pensamento livre de quem o pratica. pela página duzentos e cinquenta e seis, reclamo e revolto-me à base de doces.


Figuritas de Mazapán

o quê: meio quilo de amêndoas, meio quilo de açúcar fino, seis gemas de ovo e um ovo batido, dizem que funciona.

como: moer finamente as amêndoas e misturar o açúcar. juntar as gemas pouco a pouco. amassar bem até obter uma massa compacta e estendê-la sobre uma superfície polvilhada com açúcar. formar as figuras , colocá-las num tabuleiro de ir ao forno e pincelar com o ovo batido. deixar no forno a 230º até estarem ligeiramente douradas.

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aqui, outra versão sem gemas. "El origen del mazapán se atribuye al término árabe “mantha-ban”, que quiere decir “rey sentado”, ya que los primeros mazapanes que se conocen en España llevan impresa esta figura, detalle adjudicable al mestizaje arábigo-español, porque en la cultura islámica no se permitían, por lo general, representaciones de figuras humanas ni animales", daqui). --"La primera cita de un postre similar se remonta a Grecia".. (daqui)

o papel da tecnologia

sendo a situação a seguinte: o autor aguarda enquanto um técnico informático tenta reparar o seu computador, onde tem o trabalho acumulado de anos. do Diário de Vila-Matas, claro.


"A casa foi sempre muito pequena e não sabia onde pôr-me enquanto ele procurava o motivo da avaria. Sentei-me num cadeirão em frente da janela e simulei que lia Los Tiempos Hipermodernos, de Gilles Lipovetsky, e que tomava notas, muito especialmente da parte onde se fala do hiperconsumismo em que nos encontramos tão mergulhados actualmente. Simulei tanto, que acabei por ler esse livro realmente, li as fantásticas últimas páginas, onde se contempla um porvir nada animador para todos aqueles que, por muito que tenham computadores e técnicos que lhes arranjam os problemas, ainda se dedicam à escrita.

No momento em que o técnico me anunciava - imperturbável - que acabava de perder os meus endereços electrónicos, o próprio correio e todos os meus documentos pessoais - tudo o que tinha armazenado da minha escrita dos últimos anos -, eu encontrava-me a inteirar-me de que a filosofia inventou as grandes perguntas metafísicas, a ideia de uma humanidade cosmopolita, o valor da individualidade e da liberdade, mas essa força milenária esgotou-se na actualidade: «Um sinal dos tempos. Não temos outro remédio senão que o seu papel histórico e prometeico ficou para trás. São as ciências e a tecnociência o que hoje abre mais horizontes, o que inventa o porvir.»"


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já na página 182 começo a ter uma vontade imparável de ler a sua ficção para ver se tudo isto vai a algum lado. por tudo isto quero dizer a leitura das leituras das leituras; a situação ironicamente cómica como esta acima, os relatos impessoais e mediados por textos alheios das muitas viagens profissionais.

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hmm.. em que a dúvida não se origina no texto mas saber se o vou comprar a seguir ou não. comprar ou não comprar. (a imagem é do texto de Lipovestsky, mencionado acima)

portugueses

"É bom, certamente, que cada um de nós cultive a sua pequena loucura pessoal. «Já quanto aos portugueses, é coisa longe de descrever (...) porque, como são gente vazia de cérebro, cada louco com a sua mania», dizem que disse Cervantes. Eu gostaria que, juntamente com o indispensável telemóvel, transportássemos no bolso a nossa intransferível e nada homogénea loucura portátil, subversiva, cada um com a sua mania."

diz Vila-Matas no Diário.

um papel de embrulho e duas prendas

ou a vantagem de ter familiares voadores.







para retribuir em géneros.

Saturday, July 10, 2010

novo

o choque de um novo autor, que respira e que vive neste momento noutra cidade desta península a entreter os seus pensamentos actuais enquanto me entretenho com os seus pensamentos passados, saber que continua a urdir novas ideias enquanto na calma desta sala o vou conhecendo, é assustador.

reconfiguração das coisas

na mesa onde está ainda uma luz, sinal de um passado recente irremediavelmente perdido, estão agora- Genius de Bloom, o Diário de Vila-Matas, poesia completa edição bilingue de Saramago, as Folhas de Viagem de B. Cendars, o livro DK da Dinamarca, Famas e Cronópios de Cortazár e o programa da próxima temporada da Gulbenkian. nada com excesso de peso, logo se vê que ainda não comecei a leitura de verão.

há quem se fascine por armas, filmes de "acção", vestimentas militares, histórias políticas, botas de soldados e medalhas, isto de guerra e aquilo de guerra. desde a minha última viragem radical, tenho de lhes dizer logo à partida que detesto e sou contra qualquer guerra e que odeio todo o tipo de violência física ou qualquer outra. estabelecer desde o início os heróis de cada um faz com que a conversa fique muito mais fluída.

Cascais

a ideia de que Cascais é só revista social e gente rica irrita-me tanto como reduzir Paris à torre Eiffel. (já para não falar da própria ideia "gente rica" ou "pobres", modo eficaz de apagar indivíduos e de fazer nascer um monstro sem cara)

Friday, July 9, 2010

as meninas

mas as ausentes, na montra Marc Jacobs no Largo do São Carlos.

 
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