Time to depart, to shun explanations
or spell it out or care at all. Inward bound.
Down the shaft, piercing the vertical
core. Ore mining. Restricted area.
For your sex only.
light gazing, ışığa bakmak
Wednesday, October 31, 2007
Time to stretch the mind: Inward bound
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Ana V.
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5:06 PM
Tuesday, October 30, 2007
Os fragmentos suspensos de Cornelia Parker
(bilingual Portuguese/English)
Cornelia Parker tem espalhado os seus fragmentos pelas galerias e museus onde expõe. Neste momento, é possível ver a sua obra na Ikon Gallery. Em 2009 está agendado o Museu Rainha Sofia em Madrid, um museu que cada vez se afirma mais fortemente no panorama da arte contemporânea internacional. Infelizmente Lisboa está muito ao lado...
Cornelia Parker has scattered her fragments all over the galleries and museums that show her. At this time, it is possible to see her work at the Ikon Gallery. For 2009, she is scheduled for the Reina Sofia Museum in Madrid, a museum that has become a stronger presence in today's contemporary arts. Unfortunately, Lisbon is still too much of a detour. (excusing myself for the faulty translations...)
Filha dos anos 80, a fragmentação fascina-me. Gosto de desmontar e voltar a montar, dar novas formas, remisturar, como se a verdade de um objecto estivesse mais ao alcance das mãos depois de o desmantelarmos. Que miúdo não desmontou já um velho rádio, um velho aparelho de televisão, um PC... e que gosto em fazê-lo. E no repôr começa a brincadeira e o jogo. Assim vejo os fragmentos que Cornelia suspende em salas inócuas, existências em estudo.
Daughter of the eighties, fragments fascinate me. I like to take apart and put back together again, reshape, remix, as if the truth of an object were closer after it has been disassembled. What kid hasn't dismembered an old radio, an old TV set, a PC... and how it feels so good. It's in the putting back together that all playing starts. This is how I see Cornelia's fragments, the pieces she hangs from inocuous ceilings, existences under study.
Em "Cold Dark Matter: an Exploded View", Cornelia Parker colaborou com o exército que explodiu um casebre de quintal para que as peças negras resultantes podessem ser re-montadas, em suspenso. Os objectos e os destroços são depois parte desse conjunto quase fantasmagórico de início do mundo, um "big bang" encenado feito de detritos, e que dá corpo à máxima segundo a qual tudo se transforma.
In "Cold Dark Matter: an Exploded View", Cornelia Parker has worked with the army. A backyard shack has been exploded so that the resulting charred pieces can be reassembled, suspended. Objects and remains are afterwards part of that almost phantomlike unit, a staged big bang made of rubble, that substantiates the old maxim "nothing is lost, nothing is created, all is transformed", a good motto for the new century.
A exposição actual na Ikon Gallery inclui o trabalho "Heart of Darkness" (da novela de J. Conrad), uma instalação de 2004 construída a partir dos restos de um "wild fire", fogo planeado que acaba por escapar ao controlo, na Flórida.
The present exhibition at the Ikon Gallery includes "Heart of Darkness" (J.Conrad's title), a 2004 installation built from the remains of a wild fire, a planed fire that grew out of control, in Florida.
Aqui um curto filme sobre a instalação desta exposição na Ikon Gallery, que adorei ver. O labor da montagem, pedaços do efémero.
Here, a short movie clip about this exhibition at the Ikon Gallery that I really loved watching. The labour of assemblage, pieces of the ephemeral.
Aqui, um excelente artigo da BBC sobre esta exposição.
Here (above), an excellent BBC article about this exhibition.
Fascinou-me também a instalação de "Subconscious of a Monument", uma obra de 2002, montada com pedaços de solo e pedras retiradas debaixo da torre de Pisa. Os fragmentos foram depois montados com arame até à altura da cintura.
The installation "Subconscious of a Monument" has also fascinated me. A 2002 piece, put together with pieces of soil and rock taken from under the tower of Pisa. The fragments were then mounted with wire up to waist level.
Num excelente artigo sobre os fragmentos e o trabalho de Cornelia Parker, Terry Grimley revela o óbvio: não é o montar de fragmentos que torna o trabalho de Parker significante pois outros o fizeram antes dela, é antes a legenda. Todas as instalações ganham significado com a legenda: a nota explicativa que descreve como foram obtidos os objectos em exposição, os meios e as proveniências, esses sim, verdadeiramente únicos.
In an excelent article about Cornelia Parker's fragments and work, Terry Grimley reveals the obvious: it is not the piecing together that makes Parker's work significant because others have done it before, it is the caption. All installations become meaningful by their captions: the explanatory note that details how the exhibited objects have been obtained, the methods and origin, those are truly unique.
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Ana V.
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5:47 PM
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Multiplication Geography
Where is this need for words in the
geography of mind? Your lines redrawing the facescript,
black and biting and frightened. A bushful of mouths
uttering, each to their own. The gender
of the curvyyy-like mass murderings.
The letter sound's a woman, expelling wire,
wool yarns growing outward of lips,
rising. Proud and coarse and imperiled,
your letter lines breaking my spine.
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Ana V.
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11:19 AM
O velório de Finnegan
"Finnegans Wake", uma obra de 17 anos do trabalho de James Joyce.
O meu quinhão, a minha fatia do quebra-cabeças, o início e o final de "Finnegan's Wake".
post censurado para não dizer tantas asneiras.
O princípio:
"leito do rio, passando a igreja de Eva e de Adão, desde o desvio da terra firme à curva da baía, que nos devolve por um cómodo círculo vicioso de volta ao Castelo de Howth e seus arredores."
"riverrun, past Eve and Adam's, from swerve of shore to bend
of bay, brings us by a commodius vicus of recirculation back to
Howth Castle and Environs."
E o fim:
triste e cansado eu volto a ti, meu frio pai, meu pai frio, louco e receoso pai, até que apenas por ver o seu tamanho, as milhas e milhas dele, a gegemer, me fazem enjoar saljoar e apresso-me, apenas meu, para os teus braços. Vejo-os subir! Salva-me daquelas terríbeis angústias! Mais duas. Umdois momentos mais. Então. Avelaval (oláeadeus). As minhas folhas escaparam-me. Todas. Mas uma ainda permanece. Vou carregá-la comigo. Para me lembrar de. Flh! Tão suave esta manhã, nossa. Sim. Leva-me contigo, papá, como fizeste na feira dos brinquedos. Se eu o vir a partir agora sob asas brancabertas como se viesse de Arcanjos, eu afundo-me morria sobre os seus pés talim talão só para acabar. Sim miúda. É aí. Primeiro. Passamos através da relva calar os arbustos. Sshhhh! Crente. Crentes. Chamadas de longe. Vindas, de longe! O fim aqui. Nós, então. Finn, de novo! Toma. Beijotete. Eueuemais eu. Até miltus. Bca. As chaves de! Dar. Em bora só zinha por fim a mada ao longo do
"sad and weary I go back to you, my cold father, my cold mad
father, my cold mad feary father, till the near sight of the mere
size of him, the moyles and moyles of it, moananoaning, makes me
seasilt saltsick and I rush, my only, into your arms. I see them
rising! Save me from those therrble prongs! Two more. Onetwo
moremens more. So. Avelaval. My leaves have drifted from me.
All. But one clings still. I'll bear it on me. To remind me of. Lff!
So soft this morning, ours. Yes. Carry me along, taddy, like you
done through the toy fair! If I seen him bearing down on me now
under whitespread wings like he'd come from Arkangels, I sink
I'd die down over his feet, humbly dumbly, only to washup. Yes,
tid. There's where. First. We pass through grass behush the bush
to. Whish! A gull. Gulls. Far calls. Coming, far! End here. Us
then. Finn, again! Take. Bussoftlhee, mememormee! Till thous-
endsthee. Lps. The keys to. Given! A way a lone a last a loved a
long the"
Aqui, para corajosos, o livro todo: "Finnegans Wake" de James Joyce.
Almeida Faria traduziu já e escreveu sobre Finnegans, um texto que eu gostaria bastante de ter. Entretanto gostei bastante deste texto, no Cronópios do Brasil:
"Entre a publicação de Ulysses e Finnegans Wake se passaram dezessete anos, durante todo esse tempo Joyce esteve ocupado com aquela que seria a sua última obra; publicando partes de sua (Obra em Progresso), em períodos ou sob a forma de edições limitadas.
15 Publicado na cidade londrina em 1939, o livro é a representação de um sonho divino em linguagem perfeitamente simbólica e, enfim incompreensível em torno de seu processo criador, ultrapassando todas as dificuldades do Ulysses, quer de leitura ou de interpretação. Dividido em quatro grandes Partes, ou Livros, não titulados, mas numerados de I a IV, sendo acrescido em 1944 pelos críticos Cambell e Robinson, de nomes a esses Livros baseando-se para tanto na relação do ciclo quadripartido de Joyce com as 4 idades do Corso-Ricorso de Vico.
16 Tim Finnegans é um operário, mais precisamente um pedreiro que, embriagado cai de uma escada (simbolicamente) e é considerado morto pelos amigos. Estes promovem logo um barulhento velório, com comida e bebida - como manda a tradição e ao ser respingado de whisky, Finnegans desperta de novo, ressuscita e adere às festividades do próprio velório.
17 Segundo os autores do ensaio “Uma Chave-Mestra para o Finnegans Wake”: “Finn tipifica todos os heróis - Thor, Prometeu, Osiris, Cristo, Buda - em cuja vida e através de cuja inspiração a raça humana se alimenta. E é porque Finn volta de novo (Finn-again) em outras palavras, pela reaparição dos heróis - que a força e a esperança são devolvidas à humanidade. Com sua morte e ressurreição, o pedreiro Finnegans revoca humoristicamente o solene mistério do deus-herói cuja carne e sangue abastecem a raça de comida e bebida frutificantes para o espírito.”
18
Acredita ser o FW uma nova invenção que vai arrastar a linguagem a uma surpreendente aventura, que determinará toda a organização do livro. “É um estranho livro, um misto de fábula, sinfonia e pesadelo. Um monstruoso enigma a cerca imperiosamente dos abismos sombrios do sono.”
19 Esta obra pode ser lida a partir de qualquer página, Joyce começa seu livro no meio de uma frase, termina-o no meio de uma outra que pode se ligar a primeira. A decifração dos aglomerados de caracteres e vocábulos, nos leva a abandonar uma considerável parte de suas letras; sendo preciso viajar no jogo das metamorfoses de palavras, se quisermos ler uma página. FW é assim para cada um de nós, por mais diferentes, por mais particulares, até mesmo por mais arbitrários que sejam os primeiros contatos. É antes de tudo uma sinfonia, cuja linguagem é tratada de ponta a ponta como uma matéria musical no interior da qual se desenrolam temas e variações.
Para se ter uma idéia, FW nunca foi traduzido integralmente para língua alguma, somente alguns fragmentos para o francês, italiano (com a participação do próprio Joyce), alemão, checo e português".
A minha missão está cumprida.
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Ana V.
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9:06 AM
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Cinema de Animação em Portugal: Dez anos para "Um Jantar em Lisboa"
André Carrilho é estrela maior, não no cinema de animação, onde fez uma primeira obra que varreu de imediato os festivais e alguns artigos de jornal, mas nos cartoons. Os seus cartoons são publicados mundo fora, no New York Times Literary Supplement e no jornal Independent, os mais conhecidos, mas também em muitas outras publicações internacionais. Para ver do que falo, há o livro O Rosto do Alpinista, uma colecção de cartoons que gostei de ver desfolhada no programa da Bárbara Guimarães (clip do youtube em baixo).
Neste clip, conseguimos vislumbrar também imagens do excelente "Jantar em Lisboa, um projecto que, segundo André Carrilho, demorou dez anos a tomar forma.
"O início do projecto que deu corpo a Jantar em Lisboa está perto de cumprir uma década, dividida entre ilustração e argumento. A primeira, assinada por André Carrilho. A segunda, da responsabilidade de J.P. Simões, "músico, poeta, artista e um grande amigo", nas palavras do ilustrador. Durante o processo, André Carrilho assumiu a animação da curta-metragem. Confessa-nos que é um "trabalho exigente, o de fragmentar e, posteriormente, compilar toda a informação. Mas não me identifiquei com as escolhas de nenhum animador, quis assumir essa função pessoalmente." (todo o artigo no DN, aqui.)
André Carrilho é mais do que tudo o que faz. Em Lisboa, actua no Lux com o Videojack desde 2005. Aí colabora com o músico Nuno Correia para criar novas formas em arte visual e musical. Este videojack, na crista dos dias de hoje e que adorei, aqui no MySpace e aqui na homepage. Para ver e ouvir..
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Ana V.
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8:57 AM
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Cinema de Animação em Portugal: "Histórias de Molero" de Afonso Cruz
Trago hoje Afonso Cruz e o seu "Histórias de Molero". encontrei-no no excelentíssimo blogue "Cinema Português de Animação" mantido por Jeanete de Novais, da Covilhã. Está lá tudo, este blogue devia ser patrocinado. E adorei estas Histórias...
"Histórias de Molero" é uma mini-série de 6 episódios baseados no romance "O que Diz Molero" de Dinis Machado. Esta série foi apresentada ao público em finais de 2006.Afonso Cruz nasceu na Figueira da Foz em 1971.
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Ana V.
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8:55 AM
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Cinema de animação em Portugal: "O Trabalho do Corpo" de Nuno Amorim
Uma presença no Cinanima deste ano, será "O Trabalho do Corpo" de Nuno Amorim, que é um dos filmes seleccionados para a categoria competição nacional. Pelo que vi no clip do programa FLIP, é um filme muito bonito, os traços de uma mulher que se descobre à luz da cidade de Lisboa.
Em baixo, alguns excertos e o comentário do autor:
Sinopse:
"É possível olhar para dentro de nós e ver a vida, todas as vidas, num só dia? Maria está só. Naquela madrugada vê o sol nascer sobre o rio. e “vê” também o ocaso do seu corpo reflectido no espelho da sala."
Em Maio deste ano, foi a apresentação do filme na Casa da Animação, no Porto.
Ultimamente, Nuno Amorim tem dedicado o seu tempo à animação, através da sua produtora, a Animais. Vindo da arquitectura (não há em Portugal ao que sei um curso específico, os animadores vêm das mais diferentes áreas das artes visuais), sempre fez banda desenhada, actividade que não considera rentável: "A vida está tão difícil, e não acredito que a BD seja rentável." (ver entrevista aqui).
Colaborou com a revista Visão onde mantinha uma página de BD. Trabalhou para a RTP, como gráfico, e também em publicidade. O seu personagem mais carismático, Jim'Tómic (que fui buscar ao blogue "Divulgando Banda Desenhada").
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Ana V.
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8:30 AM
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Cinema de animação em Portugal: Esperânsia
Cláudio Jordão pertence a uma nova geração. É um dos novos realizadores que surgiram já no convívio com os meios digitais e com a tecnologia. Para eles, o cinema de animação é uma actividade paralela, não remunerada muitas vezes, correndo em simultâneo com a actividade profissional, que pode ser webdesign, publicidade, artes gráficas... O que levanta outras questões: os artistas podem ser "apenas" artistas? Suponho que depende do país em que se encontrem...
Cláudio Jordão apresenta-se como "Motion Designer", um termo de que gostei muito, e grande parte do seu trabalho profissional tem sido feito para a publicidade. A mim deslumbrou-me o filme "Esperânsia" e a sua luminosidade a preto e branco. Na impossibilidade de trazer todo o filme... fica o trailer.
Em projecto ainda, creio, é o novo filme "Conto do Vento". Todo o processo de criação e desenvolvimento pode ser seguido no blogue "Conto do Vento". Iniciado em Fevereiro deste ano, vale a pena ver os passos por que tem passado este projecto. Cláudio Jordão faz a animação, Nelson Rodrigues realiza.
"Olá,
Bem vindos ao blog da curta-metragem de animação “Conto do Vento”.
Este é um projecto que embora já exista como idéia há dois anos, só neste último é que arregaçámos as mangas e avançámos para a sua produção numa parceria da Kotolab e do Cine Clube de Avanca.
Mais do que um local onde se poderá acompanhar a evolução deste projecto é um sitio de partilha de experiências, idéias e sugestões. Espero que seja tão interessante acompanhar a evolução do filme como está a ser a sua produção.
O filme conta uma história de embalar com meninos e meninas, velhos e velhas, fogueiras e monstros, mortes e gritos. Estes, dirão vocês, não são os condimentos de uma história de embalar, mas esta também não pretende embalar.
Bons sonhos.
Nelson Martins"
Em baixo, Cláudio Jordão fala deste projecto:
E mais um passo: os actores e a modelagem dos personagens.
E um comentário que o Cláudio me deixou quando publiquei este post originalmente...
Olá a todos, muito obrigado pelas palavras e elogios, e pela divulgação do meu trabalho.
Faz falta divulgar novas áreas, novas formas, novas pessoas... criar interesse, mostrar interesse, apoiar, reconhecer, criticar, saber chumbar, saber aprovar, e saber motivar um novo ciclo cheio de todas estas coisas e tantas outras... de ir, em frente, com vontade, contra todos se acharmos q estamos certos, contra ninguém se nos virmos sozinhos... mas ir... ir bem até lá... e quando lá chegarmos, cravar o estandarte no chão e dizer:
_Epá ooooi... alguém vai a jogo?
Depois... depois se verá!
Desculpem o devaneio, mas às vezes não consigo evitar!
Muito obrigado.
Cláudio Jordão
Obrigada!
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Ana V.
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8:27 AM
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Monday, October 29, 2007
Cinema de animação em Portugal: Um dia com Abi Feijó
Não vou passar um dia com Abi Feijó pois seria um dia demasiado longo: tanto do que tem acontecido em Portugal no cinema de animação se deve ao seu trabalho. É justo que inicie a semana dedicada ao cinema de animação português com Abi Feijó. Sugiro vivamente que se visite a sua biografia (aqui), e se revejam alguns dos quarenta prémios e menções em diversos Festivais Internacionais. Qual o conhecimento que uma qualquer pessoa, entre as quais me incluo, têm deste realizador? Quantas vezes ouvimos o seu nome nos órgãos de comunicação social?
Das imagens que vi dos seus filmes, impressionou-me o "O Clandestino", uma animação de areia de 7' 32'' que se baseia no conto "O Viajante Clandestino" de José Rodrigues Miguéis. Do filme: "São tão tristes os portos decadentes, sobretudo de noite e em épocas de crise! Mas respira-se uma poesia sugestiva nestes molhes de estacaria limosa e negra. E nada fala tanto ao coração do errante solitário como este apelo eterno do mar, junto ao cais."
Um pequeno clip, aqui, e outro, aqui.
"Oh que Calma", um filme feito em 1984/85 por ocasião de um estágio que fez no Estúdio Francês de Animação do Office National du Film du Canada ("A areia, o ecrã de alfinetes, a plasticina, o pastel, os recortes, a gravura sobre película, o desenho e as fotocópias são as oito técnicas utilizadas na realização deste filme de animação."), foi apenas o início: ver a Filmografia aqui.
Abi Feijó tem criado escola. Com o Filmógrafo:
"O Filmógrafo nasce oficialmente, de papel passado em 25 de Novembro de 87. Na prática, nasceu a partir de fins de 86. Quando eu vim do Canadá, queria fazer alguma coisa de animação. Juntei amigos e dessa dinâmica saiu o “A Noite Saiu à Rua” que esteve a concurso no Cinanima, em 1987. Foi daqui que nasceu o Filmógrafo." (ver toda a entrevista com Abi Feijó, aqui). E a história do Filmógrafo contada pelo próprio, aqui. Em 2002 funda a Ciclope Filmes, uma produtora.
Por ocasião do Porto 2001 o Filmógrafo cria a Casa da Animação. Esta Casa da Animação sobrevive ainda hoje, decerto à custa de muito cabelo branco do seu criador. Criada em 2001, em 2002 dizia-se que tinha futuro incerto (em link, texto muitíssimo elucidativo de como funcionam os patrocínios culturais no nosso país). Hoje a Casa da Animação é uma instituição que se afirmou, tal como os projectos anteriores de Abi Feijó. O nosso país continua a mover-se aos ombros de alguns, os outros dedicam-se à dança das cadeiras...
De 23 a 28 de Outubro decorre na Casa da Animação a comemoração do Dia Mundial da Animação. A não perder, o programa será decerto interessante. O site oferece ainda sessão de cinema. Convido para dar uma olhada... o que mais gostei: "Variation". Hoje, para além do lançamento do filme e do livro de Regina Pessoa, "História Trágica com Final Feliz", Abi Feijó anuncia o lançamento de "um manual para professores das artes visuais resultado de um projecto internacional que envolve Portugal, Espanha, Inglaterra, Dinamarca e Estónia": "Teaching with Animation", muito interessante e muito bem feito.
Em baixo, Os Salteadores (1993). Excelente animação.
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Ana V.
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There is a solitude of space
Minha favorita, a deusa das pequenas coisas. Gosto dos seus objectos e do volume dos canteiros esporádicos do seu jardim, a extensão de relva muito verde, debaixo dos cedros e dos carvalhos. Gosto do caminho que serpenteava à sua porta e das paredes rosadas da casa, as janelas do primeiro andar, o fumo da sua lareira. Amherst.
"THERE is a solitude of space,
A solitude of sea,
A solitude of death, but these
Society shall be,
Compared with that profounder site,
That polar privacy,
A Soul admitted to Itself:
Finite Infinity."
(Emily Dickinson)
Há uma solidão de espaço
Uma solidão de mar,
Uma solidão de morte, mas estas
Serão companhia,
Comparadas com aquele local mais profundo,
Aquela privacidade polar,
Uma alma com Ela própria:
Infinito Finito.
Lê-la nunca chega, a renda das palavras.
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Ana V.
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9:22 AM
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Cinema de Animação em Portugal para iniciantes, como eu
Tentanto manter o rumo positivo, costumo pensar que cada vez que creio que algo está mal e a acabar, é porque sou eu que não sei o que se está a passar. Nada mais verdade com o cinema de animação em português, feito por portugueses e que passa em alguns, muito poucos, locais do país.
Eu, que não pertenço ao meio e me limito a desligar a Floribela, vou socorrer-me de algumas pessoas que trabalham a sério: o Cinanima, o Festival Animatu em Beja, o Festival de Curtas de Vila do Conde, a Casa da Animação, o Cine-Clube de Avanca, as várias escolas de Arte e Design espalhadas pelo país, os muitos criadores, os blogues entre os quais o blogue Animação Portuguesa (com clips online), o imaginário-freevlog, o Alambique... A lista é longa.
Um aperitivo: "Little Riding Hood"da AntsmediaMaria João BrancoSérgio Nascimento
FESTIVAIS EM PORTUGAL:
Caminhos do Cinema Português (21 a 28 de Abril)
Festival de Cinema da Covilhã (11 a 19 de Maio)
Village International D-Cinema Festival (18 a 24 de Junho) em Lisboa
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Ana V.
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9:02 AM
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Friday, October 26, 2007
O "Instituto Benjamenta" dos irmãos Quay
No promissor Art and Culture, encontrei alguma informação sobre uma dupla de gémeos que só não segue quem anda muito distraído, os irmãos Quay. Em Portugal entraram pela mão do Fantasporto e, estou certa, quem os viu na altura, não esqueceu as suas imagens.
Os irmãos Quay, nascidos nos Estados Unidos, estudaram ilustração em Filadélfia. Mais tarde mudaram-se para Londres e nunca mais deixam a Europa, assumindo a herança cultural europeia com facilidade. Ultimamente, é através da tradição de imagem e iconografia da Europa de Leste que falam. Como se poderá ler em qualquer texto sobre o seu trabalho, os seus filmes seguem a estrutura do sonho, não têm uma linha de narração nítida: objectos e cenário assumem o protagonismo do filme em detrimento das personagens. Filmes repletos de referências a todos os campos da arte, incluindo a literatura, estes não são filmes para quem gosta de histórias de Natal convencionais... ;-)
Em baixo, imagens da sua primeira longa metragem, o "Instituto Benjamenta" (ou "This Dream People Call Human Life"), de 1995.
"Institute Benjamenta: Classroom Dance" (cerca de 8')
"Institute Benjamenta: Can you hear me" (6')
"Institute Benjamenta: I'm dying from" (9')
"Institute Benjamenta: And a nice, big zero" (10')
Classificado como surrealista, não valerá verdadeiramente a pena contar a história deste filme adaptado do romance "Jakob von Gunten" de Robert Walser. Para resumir muito, o filme segue as experiências de Jacob von Gunten no Instituto Benjamenta, uma escola para rapazes onde ingressa e onde se vem a envolver com uma das instrutoras.
"One learns very little here," observes young Jakob von Gunten after his first day at the Benjamenta Institute, where he has enrolled himself as a student. The teachers lie around like dead men. There is only one textbook, What is the Aim of Benjamenta's Boys' School?, and only one lesson, "How Should a Boy Behave?" All the teaching is done by Fräulein Lisa Benjamenta, sister of the principal. Herr Benjamenta himself sits in his office and counts his money, like an ogre in a fairy tale. In fact, the school is a bit of a swindle." (excerto de "Jakob von Gunten")
Os irmãos Quay utilizam extensivamente o chamado "stop-motion", uma técnica de manuseamento dos objectos de um frame para o outro que faz com que, no filme, os objectos pareçam mover-se por si. Uma técnica que foi aparentemente tornada obsoleta pela animação digital, mas que continua a ser usada, por vezes iludindo dificuldades de orçamento, outras por verdadeira escolha estética, como o fazem os irmãos Quay e Tim Burton, por exemplo.
Dez anos mais tarde, em 2005, os irmão Quay realizaram a sua segunda longa metragem: "The Piano Tuner of Earthquakes". Lembrou-me a influência de Tarkovski, evidente, e talvez de um certo cinema de realidades alternativas que me lembro de ver nas imagens de "Mirrormask" de Dave McKean.
Um artigo aqui, no excelente Senses of Cinema.
Outro aqui, no Art and Culture
Artigo de Suzanne Buchan
Gostei, mais que todas da frase de Terry Gilliam : "The most visually beautiful and hauntingly humorous film I have seen in the last three hundred years."
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Ana V.
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5:08 PM
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"A morte burocrática" de José Cardoso Pires
Todos sabemos que a "morte burocrática" não interessa (sabemos?), mas nunca é demais pôr os críticos no lugar. Um curto In memoriam a José Cardoso Pires, citando dois parágrafos que escreveu para o "Diário de Lisboa" em 1972, artigo compilado no livro "Dispersos 1".
"«Quando eu morrer quero ir de burro», disse Sá-Carneiro num dos «últimos poemas» que escreveu. E ele lá tinha as suas razões: as homenagens post-mortem são em muitos casos a apropriação abusiva de uma existência que se recusou a vénias e submissões e, noutros, por isso mesmo uma vingança final sem contestação.
Mário de Sá-Carneiro procurou fugir ao equívoco, evitar o discurso à beira do coval para não ficar irmanado com os medíocres ilustres; mas os medíocres ilustres ou os seus procuradores vingaram-se. Em vez de romperem «aos saltos e aos pinotes», como ele tinha pedido, puseram gravata preta e enterraram-no em 30 linhas de texto a uma coluna na Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira. Mais adiante, no talhão seguinte, letra D, ergue-se o retrato do dr. Júlio Dantas em canteiro de 155 linhas de prosa florida."
José Cardoso Pires deveria ter antecipado a morte burocrática da Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira, vingança maior pelos crimes que foi cometendo ao longo da sua história. A Enciclopédia deixou de ser publicada em 1960, depois disso tem tido apenas algumas reedições ou "livros do ano". No site da Grande Enciclopédia podemos ler: "Para responder às questões e desafios para o Século XXI, mantendo a tradição de qualidade e rigor da informação a que a Grande Enciclopédia Portuguesa e Brasileira habituou os seus leitores, a editora que a produzio, editou recentemente ..." etc. etc.. A isto eu chamaria uma morte ortográfica... Paz à sua alma.
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Ana V.
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Thursday, October 25, 2007
Os "teenagers" de Dawoud Bey
Foi através do Museu de Arte Contemporânea de Houston, cidade-touro em movimento , que conheci o projecto de Dawoud Bei: de Março a Maio de 2008, Bei instalará naquele Museu um novo capítulo do projecto que tem vindo a desenvolver desde 1999 e que pretende desmontar a ideia feita ou transmitida sobre o que são os adolescentes hoje. Como ideia não me impressiona assim tanto, mas o resultado é surpreendente e vale também pelo seu valor de intervenção social. Dar um espelho a quem, vivendo em imagens artificiais e por meio delas, não se consegue vislumbrar a si próprio.
Dawoud Bey expõe retratos quase "naïve" de adolescentes, acompanhados por legendas sonoras - entrevistas em que os próprios falam de si, com uma candura infantil.
Deixo aqui Simone, da Kenwood Academy High School.
Aqui, a entrevista em .mp3 (2MB)
"Eu ando no liceu de Kenwood e Kenwood é 90% negro e... 3% asiáticos e... basicamente o resto são brancos. Eu sempre fui, tipo, a minoria na minha escola por isso não me aborrece, a não ser que seja um problema para as outras pessoas - aí já me chateia. Acho que algumas pessoas assumem que eu sou diferente quando não é assim necessariamente, porque eu sou a única branca na aula e acho que eles pensam que eu não quero falar com eles ou qualquer coisa, mas... eu sou um bocado calada na aula. Eles assumem que eu tenho alguma coisa contra eles, mas não têm nenhuma razão para pensar assim. Não sei, perguntam-me se já, tipo, tive amigos negros e eu digo - eu tenho amigos negros. Vocês não sabem quem são os meus amigos e... Já me perguntaram se eu alguma vez andava com um negro e coisas assim. Eu disse que sim, andava e que já namorei com negros e que tenho montes de amigos negros. Não só sou uma das muito poucas pessoas que andam com negros mas também não sou exactamente rica.
Por isso, tipo, não sei, isto afecta-me muito quando é para poder fazer algumas coisas, como, hmm, havia uma coisa que eu queria fazer. Era uma coisa de paleontologia no Verão. Era com a Universidade de Chicago. Não sei onde eles foram, mas foram, foram embora durante um mês e parece que foi mesmo fixe. E era só para minorias, e eu é que senti que era uma minoria. Fiquei chateada. Eu disse que me ia inscrever à mesma... não não inscrevi."
Este é um projecto que gostaria de ver em Lisboa.
(imagens do liceu Kenwood)
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Ana V.
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Casa de pasto
Três da tarde. Atravesso a povoação seca buscando água. O ar espanta uma poeira suja, que se cola aos dentes. Na rua, uma porta escura viola a parede do estabelecimento. Entro. O claque dos passos precede-me e abre uma clareira nos diálogos etilizados dos homens. Lanço uma chispa oblíqua contra os seus sussuros mudos.
Wednesday, October 24, 2007
Que me acariciem, que me façam festas
Curioso é que quem escreve o faça para si. E agora, efeitos perversos dos novos meios, para ser visto. Existo, enganem-me o isolamento, façam-me festas. Entre os uns e a turba, noto um certo desdém pelo objecto de análise. Para além da limitação vocabular. E a pergunta que se impõe: fazê-lo para quê, se apenas se arranha, um desunhar patético. Não quero beijos, apenas passo o tempo, palavras cruzadas. Nada mais do que uma droga recreativa que facilita a figura triste e me engana o tempo. Antes fosse.
E o comentário do Tozz, que era bom demais para afundar com o blogue:
O que escrevo "em cima do joelho" sai melhor que o pensado e repensado. É normalmente um polaroid. Mas não gosto de mostrar a cara. Sou mais de dar. A cara e outras coisas. Tudo o resto são raios de luz. E calor do sol. Já fazia falta um aguaceiro ...
Tozzola
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Self-building #1
I had wanted to celebrate my return to the "x" language with a grand subject, but the mind is stolen by nearby conversations. Teachers and their classes, weekday early moms exchanging views. The big evaluators go on chatting away while I sit here in awe, carrying an empty mind.
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Nausicaa / Gerty em Ulysses: do amor romântico ao amor lascivo
No original e numa tradução ligeiramente diferente da de António Houaiss.
A 13ª parte de Ulysses de James Joyce, invocação de Nausicaa.
Here was that of which she had so often dreamed. It was he who mattered and there was joy on her face because she wanted him because she felt instinctively that he was like no-one else. The very heart of the girlwoman went out to him, her dreamhusband, because she knew on the instant it was him. If he had suffered, more sinned against than sinning, or even, even, if he had been himself a sinner, a wicked man, she cared not. Even if he was a protestant or methodist she could convert him easily if he truly loved her. There were wounds that wanted healing with heartbalm. She was a womanly woman not like other flighty girls unfeminine he had known, those cyclists showing off what they hadn't got and she just yearned to know all, to forgive all if she could make him fall in love with her, make him forget the memory of the past. Then mayhap he would embrace her gently, like a real man, crushing her soft body to him, and love her, his ownest girlie, for herself alone.
Aqui estava aquilo com que ela tinha sonhado tantas vezes. Era ele que interessava e havia alegria no seu rosto porque ela o queria porque sentia instintivamente que ele não era como mais ninguém. O próprio coração da meninamulher ia para ele, seu maridodesonho, porque ela sabia imediatamente que era ele. Se ele tinha sofrido, mais vítima de pecado do que pecador, ou mesmo, mesmo que ele próprio tivesse sido o pecador, um homem malvado, ela não se importava. Mesmo que ele fosse protestante ou metodista ela conseguiria convertê-lo facilmente se ele a amasse de verdade. Havia feridas que podiam ser curadas com o bálsamo do coração. Ela era uma mulher mulher, não como outras raparigas volúveis, não femininas que ele tinha conhecido, aquelas ciclistas mostrando o que não têm e ela apenas desejava saber tudo, perdoar tudo se conseguisse que ele se apaixonasse por ela, fazê-lo esquecer a memória do passado. Então talvez ele a abraçasse docemente, como um verdadeiro homem, esmagando o seu corpo macio contra ele, e amá-la, a sua miúda, por ela própria.
"We'll never meet again. But it was lovely. Goodbye, dear. Thanks. Made me feel so young."
....
Self-notes:
"Colecção de fragmentos que são jogados como tendo significação."
"Circunferência cujo centro está em toda a parte (arte trágica recuperada)."
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Tuesday, October 23, 2007
O Pavilhão Centro de Portugal, em Coimbra
Alguma informação existe no site da Câmara Municipal de Coimbra sobre o edifício e o seu historial. Aí ficamos a saber que: "Desse acordo resulta que o Município de Coimbra passa a ser responsável pela gestão e direcção do espaço, no intuito de ali serem promovidas actividades de divulgação científica, tecnológica e cultural". Esta frase de intenções fica muito além da realidade. Mas o pior é quando lemos, mais para a frente, que em 2005 foi firmado um Protocolo entre a Câmara Municipal de Coimbra, a Fundação de Serralves e o grupo Amorim. O papel do grupo Amorim é óbvio, não sei que contrapartidas retiram desse acordo. Eu esperaria que bastantes, a mais que não fosse a organização de um evento corporativo no magnífico Pavilhão, pelo menos uma vez por ano. Infelizmente nem isso deve ser, talvez se limitem à entrega de uns convites... Mas apenas conjecturo.
O papel da Fundação de Serralves, mais decisivo: "O Protocolo prevê que o Pavilhão Centro de Portugal acolha três exposições, com criadores convidados, e uma exposição anual, que contemple obras da Colecção da Fundação de Serralves". Ora foi precisamente esta exposição anual que eu fui visitar.
Não gostaria de tecer qualquer tipo de comentário sobre o teor da exposição, ou sobre a qualidade das peças, ou dos artistas. Como amadora, "olhadora", visitante, público em geral que eu sou, limito-me a ver e a gostar ou não. A minha opinião não vale rigorosamente nada, menos do que uma bola de Berlim. Mas como "utente de cultura", grandes palavras, tenho mais a dizer e direito de o fazer. Não é suposto sermos beneficiados pelos equipamentos culturais e pelo respectivo uso? A gestão ou "desgestão" deste espaço é chocante e nula. Fiquei abismada pelo abandono do Pavilhão Centro de Portugal, em Coimbra.
- O espaço em termos de área é bastante bom. A sala de exposições é grande e as salas superiores permitiriam milhentas iniciativas, para ser mais precisa, uma programação fixa. Que é exactamente o que se não passa. O uso das salas superiores parece ser esporádico.
- A exposição anual de Serralves são meia dúzia de peças. Sem desprimor dos artistas e das obras em exposição que vale a pena ver, julgo que a Fundação teria outros espólios mais enriquecedores para Coimbra, tendo em conta que a exposição é anual. Se apenas uma vez por ano Coimbra pode visitar Serralves, essa expoisção deve/deveria ser um acontecimento. Não é.
- A divulgação do que quer que seja que se passa dentro do espaço é inexistente. Não me refiro ao trabalho das senhoras que o fazem, dentro do Pavilhão, refiro-me à vontade de dar vida ao Pavilhão. Não há nem um cartaz fora do Pavilhão a anunciar o que se passa dentro. A informação em sites da Câmara e de outras organizações está desactualizada e, quando há, extremamente incompleta. Não há um grande cartaz que anuncie a exposição nas costas do Pavilhão, aproveitando a passagem da Avenida da Lousã, logo ali. Não há um programa mensal, quinzenal, trimestral... um programa! E isto seria o mais básico...
- No local o catálogo da exposição é diminuto (tal como a própria exposição) e custa 5 euros! Não existe qualquer tipo de folheto ou outro material escrito sobre a exposição que um qualquer visitante, como eu, possa ler. É verdade, os bilhetes (1 euro) dão desconto de 25% se não me engano nos bilhetes para o passeio no rio. O contrário seria talvez melhor pois os passeios no rio têm de longe mais afluência do que o Pavilhão... E porque pagamos nós um euro? O que paga este euro? Nada. Fosse a entrada gratuita pelo menos se garantiria a entrada de mais uma meia dúzia de pessoas no Pavilhão Centro de Portugal...
Se estiver enganada, o que admito que possa acontecer, ficarei mesmo contente...
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Monday, October 22, 2007
Breath/Fôlego de Samuel Beckett
"Breath", um curta peça de Samuel Beckett, aqui em filme dirigido por Damien Hirst. Vi-a há anos no Teatro do Chiado, com uma encenação excelente de Mário Viegas, que tem feito muita falta ao Chiado e a Lisboa.
E o texto:
CURTAIN
1. Faint light on stage littered with miscellaneous rubbish. Hold aboutfive seconds.
2. Faint brief cry and immediately inspiration and slow increase of light together reaching maximum together in about ten seconds. Silence and hold for about five seconds.
3. Expiration and slow decrease of light together reaching minimum together (light as in 1) in about ten seconds and immediately cry as before. Silence and hold about five seconds.
CURTAIN
RUBBISH
No verticals, all scattered and lying.
CRY
Instant of recorded vagitus.
Important that two cries be identical, switching on and off strictly synchronized light and breath.
BREATH
Amplified recording.
MAXIMUM LIGHT
Not bright.
If 0 = dark and 10 = bright, light should move from about 3 to 6 and back.
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Da wikipedia, e a propósito de Damien Hirst ter escolhido lixo médico para preencher o lixo que é pedido no guião: “When I was asked to direct this film, I read the text and thought it was incredibly precise and strict. While preparing to shoot, I kept reading the text over and over and what focused me was Beckett’s direction ‘hold for about 5 seconds’. That was when I realised that Beckett had this massive sense of humour.”
Para "explicar" esta peça (mas explicar?), se alguma explicação é necessária ou, antes, para quem precisa de ter o seu campo de leitura limitado por barreiras, gostei do artigo da wikipédia que liga este movimento de inspirar/expirar a uma frase de Pozo no "À Espera de Godot": "They give birth astride a grave, the light gleams an instant and then it is night once more". A vida, como é, curtíssima, sem história. E que instante precioso temos.
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Não resisto... a minha versão portuguesa com os habituais pedidos de desculpa pela má qualidade da tradução (espero que não assassínio).
Fôlego
Samuel Beckett
PANO
1. Luz pouco intensa sobre um palco com algum lixo espalhado. Suster durante cerca de cinco segundos.
2. Um choro desmaiado e breve. Imediatamente a seguir, inspiração com um aumento lento da intensidade da luz que atinge o máximo em cerca de dez segundos. Silêncio e suster cerca de cinco segundos.
3. Expiração e diminuir simultaneamente a intensidade da luz até atingir o ponto mais baixo (a luz como no ponto 1.), em cerca de dez segundos. Imediatamente a seguir, um choro desmaiado e breve, como antes. Silêncio e suster durante cinco segundos.
PANO
LIXO: Nada na vertical, tudo espalhado e deitado.
CHORO: Instante de vagido gravado. É importante que os dois choros sejam iguais, ligando e desligando a luz e a respiração.
RESPIRAÇÃO: Gravação amplificada.
LUZ MÁXIMA: Não muita luminosidade. Se escuro fôr 0 e claro fôr 10, então a luz deve mover-se de 3 para 6 e de volta a 3.
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Saturday, October 20, 2007
"A caleche" de Nikolai Gogol e o Kissel russo
Gogol, um ucraniano que escreveu em russo e que agora descubro por uma edição da Biblioteca de Editores Independentes, poderia fazer um paralelo com Eça ou com Zola. Não sei se faz, o seu humor mais negro e o sarcasmo, tão russos, descolam-no de outros autores mais suaves. A sua vida e, particularmente a sua morte, confirmam este sentido do trágico e da atracção pelo abismo que se adivinha nas suas personagens.
O livro "Contos de São Petersburgo" inclui dois contos considerados verdadeiras obras-primas, "O Nariz" e "O Capote". Por eles vale a pena comprar o livro. Eu, por aqui, deixo uma lembrança de "A caleche", o mais pequeno conto, uma breve narração de como a vaidade conduz facilmente ao ridículo. Neste conto, a caleche, objecto de glorificação de um pseudo-nobre sem valor, acaba por ser o que o desmascara. Um pequeno conto sem muita importância, do qual gostei, em particular das descrições iniciais. E como em toda a literatura russa, também este conto esteve à altura dos banquetes servidos: em descrição e em quantidade.
A tradução de Nina e Filipe Guerra pode ser um pouco confusa, por vezes, mas parece correcta, não posso avaliar. E como Gogol foi considerado praticamente intraduzível pela qualidade de som que dá às suas frases, fica-nos essa necessidade de exactidão no que é dito. Comparando com a versão francesa e com a versão inglesa, gostei de aprender, em português, que as panquecas de sêmola com o Kissel (pudim gelatinoso) de frutos silvestres eram tudo o que restava ao juíz e à viúva do diácono para comer, resultado do açambarcamento do grande banquete, que se preparava na casa do general.
E aqui deixo o Kissel, doce que se prepara na Rússia e em alguns países do chamado "leste". Acompanhando panquecas e natas adoçadas, uma cor no palato servida por Nikolai Gogol:
"Para o banquete, todo o mercado se esvaziou completamente de víveres, ao ponto de o juíz e mais a viúva do diácono se verem obrigados a comer panquecas de fagópiro e kissel de fécula de batata."
Descrito assim, não seduz nem garfo nem colher, mas se disser panquecas com gelatina de frutos silvestres...
Kissel de bagas vermelhas (do restaurante Moosewood)
2 chávenas de sumo de uva
1/4 chávena de açúcar
3 colheres de sopa de fécula de batata dissolvida em 1/2 chávena de sumo de uva
3 chávenas de morangos, lavados e cortados
2 chávenas de framboesas frescas ou congeladas
1 colher de chá de essência de baunilha
Juntar o açúcar ao sumo numa panela. Dissolver a fécula na mistura e levar a lume muito brando cerca de 10 minutos. Depois de ferver, mexer durante 5 minutos até o sumo ficar translúcido. Juntar os morangos e as framboesas e tirar do lume. Juntar a essência de baunilha e refrigerar durante pelo menos 20 minutos.
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Friday, October 19, 2007
As armas leves de Antonio Riello
O italiano Antonio Riello tem vindo a desmontar o conceito de arma, de instrumento da morte para o acabar do conceito. Transformadas em objectos da moda, as armas transformam-se em meras "pochettes", um "bibelot" de cabeceira desprovido de significados mais lúgubres, um objecto luxuoso de culto.
Todas as armas são únicas e têm nome de mulher, o que não deixa de ser uma escolha interessante já que, creio, uma maioria muito significativa de armas é usada pelo sexo masculino.
Na sua página, explica: "Em 1908 decidi focar a minha pesquisa artística numa "ficção de moda" da história visual em relação a uma paixão minha: as armas - objectos cheios de sentidos simbólicos. Quero misturar, de um modo artístico, as "coisas" tradicionais das mulheres como a moda com as coisas tradicionalmente muito masculinas, como as armas. O que consiste num redesenhar de armas militares reais que se tornam objectos da moda para mulheres."
Por vezes o objecto é superior à sua explicação. Para mim, as armas de Riello são um exemplo disso. Gostei de o ver reduzir uma arma à um brinquedo de moda, talvez o mais inútil dos objectos. Não gostei tanto da explicação que limita talvez o que pode ser dito desta transformação. O próprio Riello torna fútil a sua obra, os seus brinquedos são tão fúteis como os acessórios de mulher. (Os homens não têm acessórios?)
Em 2005, numa exposição na Galeria Spectrum, em Londres, Riello acrescentou à colecção de armas de pequeno porte, outro tipo de instrumento de guerra: aviões e barcos de combate. Gostei deste disco voador.
Sobre Riello, posso dizer que a sua vida é mais interessante do que as suas armas. Com um curso de farmácia e outro de arquitectura, Riello ensina "a estética dos videojogos". O seu currículo diz que já trabalhou num clube sado-masoquista na Suíca (um país interessante para o sado-masoquismo) e já foi palhaço para a televisão alemã (um país interessante para se ser palhaço). As suas exposições e intervenções têm sido polémicas e giram em torno de temas que a sociedade prefere ignorar como a prostituição, as armas, a máfia.
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Thursday, October 18, 2007
Emergir
"Sleep - those little slices of death, how I loathe them" (Edgar Allen Poe)
O homem fechou os olhos e dormiu. Enquanto dormia, entrou no quarto uma mulher de cabelo oxidado. Trazia nas mãos um dragão verde de napa ao qual alguém tinha arrancado os botões que faziam de olhos. Puxou o lençol para trás e olhou para o corpo branco do homem, exposto pela pequena morte. Influências e referências. Pegou, indolente, numa caneta preta e escreveu-lhe na pele nua: "Lázaro".
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Tuesday, October 16, 2007
O que faz um escritor
Em busca dos segredos da escrita anda sempre uma multidão: amadores, críticos - bem e maldicentes, mestres da análise literária, curiosos, aspirantes, idólatras... E os escritores sempre a acenar-lhes com o "lavorare", "il miglior fabbro", o trabalho do artífice, apagar-escrever-rescrever. Pouco divina, a inspiração, mesmo assim alguns a afirmar que a mão que escreve não é a deles.
Por mim, sempre curiosa sobre o nascimento de seja o que fôr, gostei de ler a entrevista de Paul Auster ao SOL. O acto da escrita é um gesto fascinante, o que faz o escritor são as horas que passa a esgrimir com as palavras e com as ideias que se enfileiram ou amotinam dentro da sua cabeça: escrever seis horas por dia, cinco a sete dias por semana.
"Geralmente, se consigo uma página por dia fico satisfeito, mas desta vez [Viagens no Scriptorium] escrevi três, quatro, às vezes cinco páginas por dia."
E a herança das palavras dos outros. Como dizia, nada vem do nada...
[Estava a pensar, quem são os autores que julga que mais influenciaram a sua escrita? E também, que autores a escrever ficção hoje em dia prefere?]
Paul Auster: "The list is too long to enumerate today, but I'll give a few names. Montaigne, Shakespeare, Cervantes, Dickens, Dostoyevsky, Tolstoy, Hawthorne, Melville, Thoreau, Kafka, Beckett, Joyce, Celine, Fitzgerald, Faulkner, etc. These days, in the United States, I'm very fond of Don DeLillo's work. Robert Coover, Marquez, Kundera. "
A entrevista completa, aqui, no Washington Post. Em poucas palavras, lucrei já Robert Coover...
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Unrelated:
Entrevista no Rádio Clube sobre Martin Frost
"Em lugar nenhum", na Visão
Entrevista, também na Visão
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Monday, October 15, 2007
Para ti
Há dias em que velejo por serras e declives, a ondulação da folhagem violácea a facilitar o trabalho da quilha. De cada vez que me faço ao mar, é a ti que encontro, terra nova. Há noites em que do fundo me chamam as vozes roucas de sereias translúcidas, ninfas de inspirar poetas mortos. E os seus ossos rimados que baloiçam no fundo de galeões, o sopro das marés lunares na profundeza das águas. E quando mergulho é o teu corpo que abraço por entre os sargaços e os cantos, as conchas e as moreias que nos cobrem de pérolas, bolhas de ar rarefeito, a dança nocturna de aves cegas, o sal que me mergulhas no corpo. E há manhãs em que não sou, desfeita em pó, caleidoscópica às brisas frias, e aos orvalhos que lambem os vidros frios das janelas. A casa que desperta depois de sonhar meio século, as cores disparadas da luz que me sopras. Debaixo do arco e de todas as pontes, depois dos átomos e de todos os fogos, no fim dos minutos, encontrei-te. Enrolo-me pequena num estojo antigo e gasto. Uma moeda velha que deixo cair nos teus dedos.
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Alquimias
Para já, e apesar dos avisos do copyright, não posso deixar de servir esta salada que julgo da bancada de Mafalda Pinto Leite. Apenas como aperitivo para comprar esta revista, toda ela deliciosa e imperdível.
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Salada de Frango e Manga
Ingredientes:
1/2 chávena de coco ralado
1 iogurte natural
1/2 chávena de coentros picados
2 c.sopa sumo de lima
2 c.sopa de chutney de manga
1 c.sopa mostarda de Dijon
1 c.chá de açafrão
1/4 c.chá pimenta de caiena
sal e pimenta q.b.
1 frango assado desfiado
(ou 3 peitos grelhados com tempero picante, uma melhor opção)
1 manga cortada em cubos
1 saco de espinafres bebés
Aquecer o forno a 180º. Espalhar o coco num tabuleiro de ir ao forno e deixar tostar, virando de vez em quando até ficar dourado, cerca de 8 a 10 minutos. Retirar do forno e deixar arrefecer.
Misturar o iogurte, coentros, sumo de lima, chutney, mostarda, o açafrão e a caiena. Temperar a gosto com sal e pimenta. Adicionar o frango desfiado (ou apenas em pedaços ou cubos), a manga e misturar. Servir por cima dos espinafres e polvilhar com coco. Pessoalmente, preferi fazer a cama verde, deitar-lhe a mistura frango/manga, regar com duas colheres de sopa do molho e polvilhar com o coco. Mais visual, mariquices.
Para me redimir do pecado da gula e do prazer dos olhos, as palavras de um poema encontrado por Sharon Brogan.
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Friday, October 12, 2007
John Coltrane: quando o jazz cabe numa ervilha
John Coltrane & Miles Davis, "So What" do álbum "Kind of Blue" (1959)
Ainda acompanhando Miles Davis, numa altura em que se viciou em heroína.
John Coltrane, "Giant Steps" (1960)
O primeiro álbum inteiramente composto por Coltrane, um dos melhores da história do jazz. A tocar alto saxofone, e a criar as "sheets of sound".
John Coltrane, "My Favourite Things" (1961). O seu primeiro quarteto (Classic Quartet) e um passo inusitado: a mudança para o saxofone soprano.
John Coltrane, "A Love Supreme" (1964). O melhor e mais conhecido álbum do Classic Quartet. um álbum espiritual, ultrapassando o virtuosismo técnico. Considerado um dos melhores álbuns de jazz de todos os tempos.
"There is never any end. There are always new sounds to imagine; new feelings to get at. And always, there is the need to keep purifying these feelings and sounds so that we can really see what we've discovered in its pure state. So that we can see more and more clearly what we are. In that way, we can give to those who listen the essence, the best of what we are. But to do that at each stage, we have to keep on cleaning the mirror." (J. Coltrane)
Na wiki.
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Thursday, October 11, 2007
"Time to drive" ou tempo de guiar pela I15 saindo para a Route 80, de Holly Anderson
Descoberta para mim, a revista "Conduit" que passa já a integrar a categoria de favorita. No último número pude ler este "Time to Drive" de Holly Anderson, uma espécie de "road writing" ou o porque a escrita americana não tem nada a ver com a londrina, a mesma língua, dois universos.
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Holly Anderson
Time to Drive
November. Bobbie gets real banged up by a Buick at Pico and Carmona. Broadsided by a 90 year old gnome driving a yolky yellow Skylark. She loses the baby later that day at Cedars-Sinai and by the end of the month sheds the boyfriend she sadly dreads as well. Way too late for them to try again. Bobbie loads her books into empty wine boxes and buys some tires. Waiting.
Somewhere on an island in Lake Superior a timber wolf runs a yearling deer down. Bobbie decides there's no more time to waste and heads north on I-15 and picks up eastbound 80 going 85.
Near Cheyenne, Wyoming Route 80 skates to a shuddering, stuttering stop. Four lanes of black ice and a herd of Chicago-bound semis surround Bobbie's car. She's been driving for 15 hours on a quart of Bucky's and a catnap. The rearview is filled with halogen stamps and yellow spins. Bobbie sees cherry colored bars of brake light that look like licorice and gnaws her lower lip. She fidgets the dial looking for anything but more Lord-Jesus-deliver-us chat or cheesy chorals. Then, between the steel needles of static a small miracle occurs. Steve Reich is on the radio, filling all space and polishing the crazy stars outside the idling car. Music for 18 Musicians same as 20 years away far on the dusty floor of a teensy walk up. There she was, flat on the boards and floored by the coherency of what was pouring out of the radio. First hearing. Calmness nearing. This is the piece that can patch the new dark and dim numb she carries in an overheated car with California plates. Hundredth hearing. Calmness nearing. Same as it ever was.
Bobbie drives the just salted lane slow at break of day through a jumble of jackknifed trucks and sirens. The windshield reflecting the blue ribbons of a so shy and a so rosy dawn.
One island within a curving necklace of 12 islands keeps calling out hard to Bobbie. But no budding trees beckon and no loosened, singing water invites her to wade. It is Winter's chant cajoling her ever northward.
Bobbie can hear the banging black plates of ice and she floors it. So close now to the place where her becoming began. She drives at a creep across the groaning ice to sleep all alone and emptied in a one room peeled log cabin. Seedling pines planted one once ago Arbor Day now stand 40 feet tall. Their shadows swallow the snug cabin whole.
December. The couple who built this cabin have been buried for years already. Bobbie knew this as a kid but swam at their thumbnail of sandy beach anyway. Now she's back eating a crust of diamond snow. Waiting.
Within three weeks of arriving this time she knows that the dead couple were both taken in sleep, just shy of a year apart, both hollering out loud about hundreds of sapphire blue snakes and a long-gone dog come to meet them at the driftwood gate. She knows all this because she sleeps on the floor where their bed once stood. She sleeps in a bleached square of wonder and enters their odd, old dreams willingly and every morning reluctantly swims away from the dreaming. When first light breaks she drags herself arm over arm back to consciousness and remembers there is no one beside her, and not much work to be done but tracking the sun across that washed out sky. Bobbie waits for the sun to set.
When night drops down straight and hard the stains that reach over into the southern sky begin to spread. Ladders and stairs of light shoot up and sideways across the sky. Bobbie swears she hears murmurs, heart beats and symphonies all going at once under these timeless, crooked klieg lights. She lies flat on a bench she's dragged outside, breath steaming like a horse. She's stitched tight to dumbest, wordless awe, pinned down under that open endless window. Bobbie watches the billowing curtains of light sweep and flutter acid greens, iron reds and sulphur yellows all across the star smashed sky. This is the one film she never tires of. She stays out most nights until hands and feet freeze bluegrey then tiptoes indoors with a stumble to sleep deep again. Hard beside the hearth in a leaky down bag that still smells of old sex and eucalyptus.
Bobbie eats the canned venison and clouded jars of wild blueberry jam she found stacked tidy in the dug cellar. No guessing when it was put up but she never gets sick and she never wants for much more than that night sky and her backseat filled with books.
She starts writing tankas in the snow: This high holy show—Unfurls in sweeping curtains—Flying lights burn green—Heaven's pulsing heart beats hard—Deep within a blackened sky.
She writes tankas in the snow and knows she is home. Home until the cracking lake ice sounds like gunshots. Then it's time to drive.
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Um cheirito em português:
Novembro. Bobbie fica doida por um Buick na Pico e Carmona. Acostado a um gnomo de 90 anos a guiar um Skylark amarelo gema. Ela perde o bebé mais tarde nesse dia no Cedars-Sinai e pelo fim do mês deixa cair o namorado que tristemente também receava. Tarde demais para tentarem de novo. Bobbie empacota os livros em caixas de vinho vazias e compra uns pneus. À espera.
Algures numa ilha no Lago Superior um lobo cinzento derruba uma cria de veado. Bobbie decide que não há mais tempo a perder e segue para norte pela I15 e depois apanha a 80 para leste a 85 milhas por hora.
Perto de Cheyenne, no Wyoming, a Route 80 patina até parar a tremer violentamente, gaguejando. Quatro faixas de gelo negro e um rebanho de caravanas que se dirigem a Chicago em torno do seu carro. Está a guiar há 15 horas à custa de um litro de Bucky's e de um passar pelas brasas. O vidro retrovisor está cheio de selos de halogénio e de espirais amarelas. Bobbie vê barras da cor de cerejas dos travões que parecem doces de aniz e morde o lábio inferior. Brinca com o botão tentanto sintonizar qualquer coisa que não seja Nosso-Senhor-Jesus-Cristo-nos-salve ou corais duvidosos. Então, entre as agulhas de aço da estática um pequeno milagre acontece. Steve Reich está na rádio, enchendo todo o espaço e polindo as estrelas loucas em espera fora do carro. "Music for 18 Musicians" do mesmo modo que há 20 anos atrás, longe, no chão poeirento de um apartamento minúsculo sem elevador. Ali estava ela, deitada nas tábuas, colada ao chão pela coerência do que jorrava da rádio. A primeira audição. A calma a chegar. Esta é a peça que consegue remendar a nova escuridão e a apatia desmaiada que ela transporta num carro sobreaquecido com matrícula da Califórnia. A centésima audição. A calma a chegar. Como sempre.
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Outro texto, "Carnation Mesostic".
Auto-retrato da poeta: "poet, lapsed music-theatre playwright, current lyricist, mother and mate, crisiscounselor to rape and domestic violence survivors in NYC and recent convert to the myriad glories and addictions of gardening!".
Antologia de poemas e prosa em:
*Up Is Up, But So Is Down: New York's Downtown Literary Scene,1974-1992* (NYU Press 2006)
*Unbearables* (Autonomedia 1995)forthcoming in
*Awake! A Reader for the Sleepless* ( Soft Skull Press2007)
Outros livros, incluindo
*Lily Lou* (Purgatory Pie Press 1986)e
*Sheherezade* (1988).
Participação em várias revistas: Rampike, Conduit, Raddle Moon, Benzene, Oyez Review e Redtape.
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Tanka
Poema tradicional japonês com esquema de 5, 7, 5, 7, 7 sílabas, usualmente para expressar amor ou amor à natureza.
De "100 poems from 100 Poets":
Onakatomi no Yoshinobu
Like the guard's fires
Kept at the imperial gateway--
Burning through the night,
Dull in ashes through the day--
Is the love aglow in me.
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Wednesday, October 10, 2007
"Sangue da avó manchando a alcatifa" de Mia Couto
"Nessa noite, a televisão transmitia uma reportagem sobre a guerra. Mostravam-se bandidos armados, suas medonhas acções. De subito, sem que ninguém pudesse evitar, a velha atirou sua pesada bengala de encontro ao aparelho de televisão. O ecran se estilhaçou, os vidros tintilaram na alcatifa. Os bandidos se desligaram, ficou um fumo rectangular.
- Matei-lhes, satanhocos gritou a avó.
Primeiro todos se estupefactaram. Os meninos até choraram, assustados. O genro reabilitou-se aos custos. Soprando raivas, ergueu-se em gesto de ameaça. Mas a avó, apanhando a bengala, avisou o homem:
- Tu cala-te. Não sentes vergonha? Há bandidos a passear aqui na tua sala e tu não fazes nada."
de Sangue da Avó Manchando a Alcatifa, Mia Couto
O conto todo, aqui.
E para os seriamente net-viciados, um Online Alarm Clock,porque quem tem banda larga vai a Roma.
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Ana V.
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Tuesday, October 9, 2007
O Canto de Orfeu
"Inúmeras, as aves voavam
sobre a sua cabeça
e os peixes, em pé, saltavam das águas de anil do mar,
ao som do seu belo canto.
Não se ergueu então o sopro do vento, que abala as folhas,
para impedir que a voz doce como o mel
aderisse aos ouvidos humanos."
Simónides, séc. VI-V a.C.
num dos mais belos livros,
"Hélade, Antologia da Cultura Grega"organizado por Maria Helena da Rocha Pereira,
ao que sei na 5ª edição.
A minha (orgulhosa proprietária) é uma 2ª edição de 1963.
Nasceu antes de mim. E que bela prenda seria...
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Ana V.
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Monday, October 8, 2007
Vento
O escuro subia pelo dia quando tiraste toda a roupa diante de mim. Interrogado, afirmado, as cores nítidas do retrato a magoar o azul dos estofos. A ti, que me deste uma casa e todos os amanhãs, farei sentir o vento na cara.
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Ana V.
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Saturday, October 6, 2007
Azenhas
Desci pela escarpa, falésia. A rocha instável e a pique. As varandas escadeadas encaram a água salgada, mil janelas opacas como olhos. O desejo a velejar oceano adentro (fora) - o corpo a ficar, colado à rocha. Lapas e limos.E eu que queria partir, estendo-me aqui à voragem do sal.
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Ana V.
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Friday, October 5, 2007
Psychedelic Trance - Goa Trance
Boleia para uma festa Trance no Tuatara, começava à meia-noite e acabava às sete da manhã.
People Can Fly (YouTube)
Nasa clip (YouTube)
Os pais sabem que já não é ilegal fumar não-cigarros dentro de um clube?
Dancing Galaxy (YouTube)
(A música esta noite a cargo dos Astral Projection)
Os pais sabem que a cocaína é misturada nesses não-cigarros?Para além de consumida em linhas abertamente...
Kabahla (YouTube)
Gostem ou não, é a realidade.
Um "hey" ao Artifakt e ao D-Maniac e ao DISTURB dA Swingmusicagency.
(Hardlinerz, to remember)
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"Mulher de Mim", de Mia Couto
Leitura de fim-de-semana, a minha voz, o Mia Couto.Incompleto pelo copyright...
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"O homem é o machado; a mulher é a enxada." (Provérbio moçambicano)
Naquela noite, as horas me percorriam, insones ponteiros. Eu queria só me esquecer-me. Assim deitado, não sofria outra carência que não fosse, talvez, a morte. Não aquela, arrebatante e definitiva. A outra: a morte-estação, inverno subvertido por guerrilheiras florações.
O calor de Dezembro me fazia desaparecer, atento só à extinção do gelo no copo. A pedrinha de gelo me semelhava, ambos nós transitórios, convertendo-nos na prévia matéria de que nos havíamos formado.
Nesse enquanto, ela entrou. Era uma mulher de olhos lisos que humedeciam o quarto. Vagueou por ali, parecia não acreditar em sua própria presença. Seus dedos passavam pelos móveis em distraído afecto. Quem sabe ela sonambulasse, aquela realidade lhe fosse muito fictícia? Eu queria avisar-lhe que estava enganada, que aquele não era seu competente endereço. Mas o silêncio me alertou que ali estava a decorrer um destino, o cruzar das fatais providências. Então, ela se sentou na minha cama, ajeitou seu delicado lugar. Sem me olhar, começou de chorar.
Nem me guiei: já as minhas carícias se desenrolavam em seu colo. Ela se deitou, imitando a terra em estado de gestação. Seu corpo se me entreabria. Mais fôssemos, no seguinte, e chegaríamos a vias do facto. Mas, nos avanços, me tremurei. Vozes oculatas me seguravam: não, eu não podia ceder:
Mas a estranha me atentava, descendo do seu decote. Seu peito me espreitava, subornando meus intentos. As lendas antigas me avisavam: virá uma que acenderá a lua. Se resistires, merecerás o nome da gente guerreira, o povo de quem descendes. Nem eu bem decifrava a lendável mensagem, Certo era que ali, naquele quarto, se executava a prova de mim, o quanto valiam meus mandos.
Porém. Por artes da intrusa, eu desaparecia, intermitente, da existência. Me irrealizava. E quando me apelava, rumo à razão, nem sequer eu chegava ao meu cérebro, o austero juiz. Por causa a voz dessa mulher: lembrava o murmurinho das fontes, a sedução do regresso a dantes quando não havia antes. Ela queria me meninar, conduzir-me às primitivas dormências. Avemente, se ninhou em meu peito. Procurava em mim espelho para o suave luar? Deixei-me, sem estatura. Aqueles círculos negros, seus olhos redondos de não terem fim, me surgiam como dois soluços, fossem partes de mim, saudosos, que me espreitassem.
Ela contou sua história, seus episódios. Variantes de verdade, me davam o doce gosto do fingimento. Me apetecia o infinito tal igual as crianças que sempre perguntam: e depois? Mas a estranha notou em si uma ausência. Devia ir. Prometeu que regressava logo. Já, o mais tardar. No umbral da porta, soprou um beijo a modos de antiquíssima esposa. Saiu, penumbrou-se. Não sei o quanto demorou. Talvez umas tantas noites. Ou escassos instantes. Nem sei. Porque adormeci, ansioso por me suprimir. Doeu-me acordar, malvorei-me. Nesse custo, entendi: acordar não é a simples passagem do sono para a vigília. É mais, um lentíssimo envelhecimento, cada despertar somando o cansaço da inteira humanidade. E concluí: a vida, ela toda, é um extenso nascimento.
(...)
Espreitei pela janela, vi a mulher chegando. Veio-me ao pensamento a suspeita, certeira, que ela não era mais que um desses seres vindouros, enviado para me retirar do reino dos viventes. Sua tentação era essa: levar-me ao exílio do mundo, emigrar-me para outra existência. Em troca eu lhe daria a carícia, em matéria de corpo, isso que apenas os viventes logram possuir.
Precisava pensar rápido: ela gozava a vantagem de não precisar de consultar a razão. Eu devia encontrar, súbito, a saída do momento. Me chegou por via de intuição: em qualquer lugar deveriam de existir os assassinos dos mortos, justiceiros dos pré-nascidos. O que eu precisava era convocar um desses matadores para suprimir não a vida mas a suspeição daquela mulher. Sendo a pergunta: onde encontraria um desses matadores, como instigar a sua repentina aparição? Porque tudo urgia, ela vinha chegando, seus passos já superavam as escadas.
Que fazer, se nenhum tempo me restava? Matá-la eu, de corpo e sangue? Serviria só se ambos estivéssemos em sonho, coisa que eu não parecia. Ela era uma enviada, com encomendado serviço de me buscar, levar-me para onde tudo é ainda futurível.
Ela entrou, eu estremeci. A intrusa surgia agora com maior beleza, cada vez mais deusa, requerendo a total devoção de um crente. Me adveio um recurso, tábua que a onda traz. Lhe disse:
- Te adivinho ainda pequena, ontem de antes. Recordas-te?
Ela se afligiu, atingida. Por momentos, lhe faltou o peito, ela toda se inspirou. Os nasciturnosestão isentos de memória, seu primeiro choro está ainda por despontar. O medo dela me dava argúcia, eu me ajudava enquanto a via chegar-se ao espelho. A estranha se contemplou despindo, sorrindo na pétala de cada gesto.
Só finges, nem te vês, lhe disse, mais dono de mim. Ela desistiu de si mesma, veio até ao leito, me tocou. Chamou por meu nome, docemente. Passou o dedo por meus lábios. ^
- Tu não entendes.
Sorria com mágoa. Minhas frágeis habilidades lhe haviam feito ofensa. Contudo, me perdoava. O sereno sorriso lhe regressara.
- Tranquila-te, eu não te venho buscar.
O que vinha fazer, caso então? Porque tanto mais ela se senhorava mais eu me inquietava. A enviada prosseguiu:
- Não percebes? Eu venho procurar lugar em ti.
Explicou suas razões: só ela guardava a eterna gestação das fontes. Sem eu ser ela, eu me incompletava, feito só na arrogância das metades. Nela eu encontrava não mulher que fosse minha mas a mulher de mim, essa que, em diante, me acenderia em cada lua.
- Me deixa nascer em ti.
Fechei os olhos, em vagaroso apagar de mim. E assim deitado, todo eu, escutei meus passos que se afastavam. Não seguiam em solitária marcha mas junto de outros de feminino deslize, fossem horas que, nessa noite, me percorreram como insones ponteiros.
- - -
Sugestão de leitura para o fim-de-semana longo, com chuva, pouca, e o frio a querer chegar. As castanhas e a vontade de estar dentro. Um conto de "Cada Homem é uma Raça", Mia Couto, o meu Nobel.
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Ana V.
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Thursday, October 4, 2007
Crumb - Degas - Kooning - Rodin - Otto Dix: tudo e todos nas mulheres de Rebecca Warren
Finalista do importante prémio Turner Prize em 2006, Rebbeca Warren foi uma dos quatro finalistas. E se bem que o Turner tenha ido para Tomma Abts, fiquei-me (com o meu fascínio pelo corpo) pela obra de Rebecca Warren, que como ela própria afirma, junta todos os paradigmas anteriores. A ansiedade da influência no século do remastigar de todas as imagens. O que é a mulher, afinal? Que ideal é esse, que desejo esteve na origem de tantos olhares sobre as mulheres? Olhares que excluíam então o olhar das próprias, objectos. Estes são tempos aliciantes e novos, em que apesar de tudo estar feito, tudo ainda é possível.
SHE, 2003
Croccioni, 2000
The Hostess, 2006
Homage to R. Crumb, My Father, 2003
SHE no. 6, 2003
Loulou, 2006
As suas mulheres em barro cru são quase grotescas, exageros da anatomia e da sexualidade feminina.
"Rebecca Warren positions herself within the lineage of a sculptural tradition. She re-works and intentionally misappropriates existing images by the accepted masters of figurative sculpture, including Degas, Picasso and Rodin, as well as drawing on more contemporary artists such as R. Crumb and Helmut Newton. Warren pays homage to her heroes while gently questioning their authority. " (artigo na Tate Britain, Turner Prize)
Rebecca Warren na Saatchi, muitas imagens, biografia e textos.
O site do Turner Prize com filme e som sobre a artista.
Exposição na Donald Young Gallery, em Chicago
Imagens comentadas, muito bom, no Guardian
Mais, na Tate
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Ana V.
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Wednesday, October 3, 2007
"Memórias da Decadência" de Hari Kunzru
Comprei há umas semanas um livro muito fino, "Noise" de Hari Kunzru. Os contos deste autor são todos bastante insólitos e surpreendentes, mas gostei da nostalgia quase chorosa desta decadência e da sua memória. Em inglês, do site do autor (aqui), peço desculpa ao que não lêem esta língua.
Em português existe de Kunzru "O Impressionista" da Asa Editores e no Círculo de Leitores, mas a informação dada sobre este autor em português é manifestamente incompleta.
Um pouco do conto, em português:
"No início da Decadência era fácil. Embora estivessemos entediados, e embora tudo já tivesse sido feito antes, invadia-nos um estranho sentimento de potencialidade. A nossa anomia tinha algo de optimista. Esta era a idade do ouro do nosso declínio.
Durante a Decadência saíamos para passeios nos bairros mais pobres da cidade, parando para examinar deformidades seleccionadas, exemplos de doença ou demência. Em breve começámos a imitá-las, primeiro só os maneirismos, depois usando maquilhagem, drogas, prostéticos ou cirurgia. Por fim tornou-se impossível distinguir os que estavam na moda dos doentes. Pensávamos que isto era uma lição de moral salutar, e tínhamos o maior prazer em ignorá-la."
At the beginning of the Decadence it was easy. Although we were bored, and though everything had been done before, we were seized with a peculiar sense of potential. Our anomie had something optimistic to it. This was the golden age of our decline.
During the Decadence we went for promenades in the poorer quarters of the city, pausing to examine choice deformities, examples of disease or dementia. Soon we began to imitate them, at first only in mannerisms, later using makeup, drugs, prosthetics or surgery. At length it became impossible to tell the fashionable from the afflicted. We thought this a salutary moral lesson, and took great delight in ignoring it.
During the Decadence we ate and drank to excess, until a point came when excess went out of fashion. Mathematicians told us the attractor governing our consumption was a simple period which, though occasionally disrupted by shifts elsewhere in the libidinal economy, was reasonably easy to map. Manufacturers of luxury foods and the proprieters of health farms, spas and colonic irrigation parlours learned to track the so called Bulimia Cycle, and for a time such businesses became extremely profitable. Soon however, activity became so intense that the pattern was disrupted and our predictions went awry, setting in motion a wave of bankruptcies, suicides and social ostracisms.
During the Decadence we gave up sexual intercourse, substituting for it various kinds of fetishism. We refined our tastes, narrowing their range and fantastically increasing their complexity. Certain people became interested in abstraction, concentrating perhaps on household objects or patterns of light and shade. Such citizens were known to climax spontaneously at the sight of a safety pin or a line of red tail lights stretching forward along a dual carriageway.
During the erotic phase of the Decadence, combinations of time, place, mood and the presence of physical objects became ever more specific. An increasing percentage of resources were dedicated to sexual research and organisation. Orgasms began to require corporate sponsorship, a trend which reached its apogee in the meticulously-planned bacchanals at Nuremberg, Jonestown and Hyde Park. The latter, in which an estimated two hundred thousand people participated in a ritual designed solely to produce the little death in a middle-aged software billionaire, was considered the highpoint of the movement. A cluster of massively-parallel processors were connected to a variety of front-end delivery devices. When triggered they instantiated patented pleasure-algorithms in the crowd, causing runaway positive feedback which was gathered into a series of giant cells, amusingly styled to represent luminous linga and yoni. When the charge had accumulated to a sufficient degree it was fed back via a fibreoptic core to the Park Lane hotel suite where the entrepreneur lay, bathed in the glow of his hi-res monitors. The crowd themselves, devotees of the influential cult of auto-erotic consumption, financed the event through ticket sales and the purchase of various items of merchandising. The energy generated by their activity produced a small quantity of almost-clear seminal fluid on the raw silk sheets of the billionaire's bed, and augmented his bank balance by an estimated twelve and a half million pounds. It was thus considered a success and plans for a two-hundred date world tour were drawn up, only to be scotched by his premature death from skin cancer in a Hawaii tanning dome. Soon afterwards, a fashion for feverish masturbatory interiority gained favour, inaugurating a rage for Keats, broom closets and antique printed pornography. Boarding schools were set up throughout the country. The days of the megabacchanals drew temporarily to a close.
The involvement of large numbers of people in organised sexual experimentation necessitated the development of information networks, directories and algebraic search engines dedicated to matching those of compatible tastes. Nymphets were put in touch with elderly professors, cyborg freaks with the manufacturers of Japanese industrial robots, those interested in coercion with those who wanted to be coerced. This last category caused some problems among purist dominants, for whom the desire to be coerced disqualified some candidates from consideration as slaves, concentration camp inmates or members of religious orders. A standard disclaimer form was quickly developed. Willingness to sign meant automatic barring as an involuntary submissive. These questions of consent were handled by the Society of Sadean Solicitors (SSS), whose obsessive fascination with the Byzantine complexities of this area of law never once led them to waive their exorbitant fees.
During the Decadence, eroticism itself was only a passing fad. The information network which grew up to enable efficient sexual contact became itself the object of our interests. Connoisseurs of classifications, indices and filing systems paid astronomical sums for rare databases. We became collectors of objects, not from any particular interest in the things themselves, but simply for the opportunities they presented us for cataloguing. Some citizens rejected computer automation altogether, taking great pride in feats of card-indexing. Cross-referencing by hand became an art as much appreciated as sculpture or the programming of combat games.
We soon developed an acute awareness of taxonomy. Classification according to phylum, genus and species became de rigueur, not just for biological material, but in many other fields as well. Televised public debates were held over the correct designation of common phenomena. They were conducted along the lines of mediaeval theological disputations, and took place in a studio mocked up to represent the cloisters of the twelfth-century University of Bologna. The only anachronism was the pair of bikini-clad girls who operated the digital scoreboard.
We engaged in a passionate love affair with hierarchies, all the more intense for our awareness that they were meaningless, even ridiculous as tools for understanding our distributed, networked world. As the ebbs and flows of our frenzied culture became more extreme, we turned to the verities of dead, static systems to comfort ourselves, soothing the ache of the data pumping faster through our bruised, red-raw flesh. We relearned Abulafia's Caballah and studied the circular taxonomies of the Catalan, Ramón Lull. We rejected Watson and Crick for Paracelsus and John Dee, embraced Galen and the four humours, studied the Tree of Knowledge, the Body Politic, the Great Chain of Being and the angelology of the Scholastics. We wept at the beauty of the Metaphysical Grammarians, and yearned to know the true Hebrew God spoke to Adam before the flood.
Eventually the cult of learning collapsed altogether and with it, the preoccupation with self-definition which had driven the entire early period of the Decadence. Citizens no longer cared to record or understand the minutiae of their personal experience. They left themselves unexplored. After the collapse of all extant systems of knowledge, a feature of the early decadent period, subjective experience had become the only reference point for establishing meaning or value. Ceasing even to ask what one wanted thus became considered the most advanced form of transgression. Embracing this we conducted the pursuit of pleasure in a lacklustre, half-hearted way. If we stumbled on something we liked, it was purely by chance. Maybe we would return to it. More often than not we would limp off somewhere else. There were many casualties. Service industries suffered dreadfully. Aesthetics collapsed as a discipline.
During this critical period of the Decadence, we did whatever we could to avoid the act of choice. We chose our political leaders via a lottery, and organised our social lives by an ingenious system of random number generation. Many citizens abandoned even their most basic body functions to chance. Gambling disappeared as a pastime, since none of us were interested in beating the odds.
Pure randomness soon fell into decline. Some definition returned, though our codes were still fuzzy, unclear and imprecise. The vague vogue, as it became known, lasted some time, though the inexact measuring systems in use during this phase render impossible any accurate statement of its length, impact, or intensity. It was a time of rumour, myth, superstition and nameless fear. Certain revisionist scholars have accordingly refused to recognise it as a historical entity, since it seems in so many ways continuous with the rest of our troubled, fluid times.
Having exhausted the most arcane possibilities of body and mind, having become bored with boredom itself, we began to adopt postures of total commitment. Ideologies were formed, wars fought, and causes died for, all in a spirit of absolute hedonism. We believed because it pleased us to believe. Our crusades and jihads were as bloody as any in history. We performed breathtaking acts of self-sacrifice and exacted violent retribution on our enemies. Bizarre monotheisms arose, whose fiery ill-worded theologies afforded ample opportunity for schisms, heresies and apostasy. There were public crucifixions. Young men with faraway eyes held their hands in flame rather than sign documents of recantation. Soon totalitarianism swept through our cities, bringing tanks and napalm in its wake. We covered the earth in ashes. The devastation ushered in a period of mourning, during which we wept rivers of tears, planted trees and erected monuments whose poignancy matched the vastness of our remorse. Joy followed hard on the heels of our mourning. Lassitude followed joy. Our prophets and scientists ran simulations to predict the next lurch of our communal whims, but each time their code was outdated as soon as it was compiled. The cycle ran faster, cults and movements swarming like flies on a carcass, paradigms blooming and withering like exotic cancers. Soon there was only speed, a sensation of pure intensity.
Then one day the Decadence ended. We began to be moderate in all things. Our decisions were considered, the product of sound judgement. Our institutions stabilised and prepared themselves for steady growth. We quoted maxims to each other. 'A little and often'. 'Mens sana in corpore sano'. Now our economists have quelled the speculators, advocating co-operation and a sound industrial base. We believe in the family, in community and an undefined spirituality, though if you asked us we could not tell you why. Debating is of no interest any more. We want a quiet life. 'All to the good', as we often say to our neighbours. We are content. And yet... And yet there is something stale in the air. Citizens whisper in the social clubs. They say that it cannot last.
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Outros textos da página de Hari Kunzru:
Selected Fiction
Sobre "O Impressionista"
Um pequeno texto muito, muito aliciante sobre o romance "Transmission"
A página de Hari Kunzru
"Why I write", entrevista no Guardian
No Times Online sobre o livro "Transmission"
Ainda sobre "O Impressionista"
Sobre o próximo livro "My Revolutions", no Telegragraph
Sobre o novo livro, "My Revolution" no Times Online
Curiosidade: a (uma ) que ele ouve - "Persian Surgery Dervishes" de Terry Riley
(aqui, "Poppy Nogood" do mesmo Terry Riley)
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E eu ouço... "Heroin", Lou Reed e Velvet Underground
e já que estou com com a mão na massa "Cocaine", John Cale
(ainda a recuperar do choque de ter descoberto este http://www.esnips.com/)
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